
Crnicas 03

Rubem Alves




NDICE - III

* Animais de Corpo Mole ....................................................................... 01
* Quero-quero ....................................................................................... 03
* O Vazio ............................................................................................... 06
* Se Eu tiver Um Ano a Mais de Vida...  ................................................  08
* " A Parbola dos Talentos"  ou " O Senhor dos Jardins"  ..................... 10
* Voc Tem um Furnculo? ................................................................... 11
* Os Trs Reis ........................................................................................ 13
* A Bisav .............................................................................................. 16
* Deus Existe? ....................................................................................... 19
* Deus Existe? (2) .................................................................................. 21
* Memrias Burras Nunca Esquecem ..................................................... 24
* " O Bom Samaritano"  ou " O Bom Travesti"  ....................................... 26
* Duas Parbolas ................................................................................... 27
* Aperitivos Teolgicos  .......................................................................... 28
* As Citaes de Albert Camus que Mais Amo...........................................29
* Idias para Prefeitos .............................................................................30
* Pensamentos Soltos ..............................................................................32
* O Buraco da Fechadura .......................................................................33
* Um Cravo Branco na Janela .................................................................35
* Ganhei Coragem....................................................................................37
* Sobre o Crime I......................................................................................39
* Sobre o Crime II.....................................................................................42
* Sobre o Crime III....................................................................................44
* Sobre Rosas, Formigas e Tamandus......................................................47
* Mande um Anjo.......................................................................................50
* Que Vontade de Chorar...........................................................................51
* A Torre de Babel......................................................................................54
* Ns Ainda Trocamos os Chinelos ............................................................57
* O Pai.......................................................................................................60
* Adeus  Dina, A Mulher com Asas...........................................................63
* Tenho Medo.............................................................................................66
* Quarto de Badulaques ...........................................................................68
* Quarto de Badulaques  2 .........................................................................72
* Quarto de Badulques  3      .....................................................................74
* Quarto de Badulaques 4 ........................................................................  76
* Quarto de Badulaques 5 ..........................................................................78
* Quarto de Badulaques 6...........................................................................80
* Quarto de Badulaques 7 ..........................................................................82
* Quarto de Badulaques  8 .........................................................................84
* Quarto de Badulaques 9 ..........................................................................86
* Quarto de Badulaques 10 ........................................................................88
* Quarto de Badulaques 11 ........................................................................90
* Quarto de Badulaques12 ........................................................................ 93
* Quarto de Badulaques 13           ..........................................................    95
* Quarto de Badulaques 14.........................................................................97
* Quarto de Badulaques 15.........................................................................99

ANIMAIS DE CORPO MOLE

Meu amigo Fbio Roland, da Universidade de Juiz de Fora, cientista especializado na biologia dos lagos, me contou que o primeiro interesse cientfico de Piaget foram
os moluscos dos lagos da Sua. "Molluscus" em latim quer dizer "mole", e se deriva de "mollis" = mole. Moluscos so animais invertebrados que normalmente tm seus 
corpos protegidos por uma concha tais como as ostras, os mariscos, os caramujos. Eu me juntaria alegremente a Piaget em suas pesquisas porque as conchas dos moluscos 
sempre me foram objetos fascinantes. Veja, por exemplo, a concha frgil de um simples caramujo gelatinoso, essa praga inimiga de jardins: assombro bioqumico, assombro 
arquitetnico, assombro matemtico, assombro esttico. No admira que haja pessoas que se dediquem a fazer colees de conchas, como foi o caso de Neruda. Quem tem 
olhos de poeta v nas conchas sugestes metafsicas: elas falam sobre a inteno esttica que pulsa no universo. A tranqila contemplao de conchas pode nos levar 
a uma experincia mstica. Como diria Bachelard: a matria tem imaginao...
Depois Piaget abandonou os moluscos. Seu interesse voltou-se para a psicologia, a compreenso dos processos de conhecimento, seu nascimento, desenvolvimento e mecanismos. 
Aparentemente, parece que Piaget mudou repentinamente o foco do seu interesse. Que ligao poderia haver entre os moluscos e a psicologia humana? Minha hiptese 
 que ele no se desviou do seu interesse original pelos moluscos. Moluscos e homens tm algo em comum: ambos tm corpo mole. Os moluscos, para proteger o seu corpo 
mole - delicadas delcias culinrias, como  o caso das ostras e dos scargots - e sobreviver, constrem casas chamadas conchas. Os homens, para proteger seu corpo 
mole e sobreviver, tm tambm de construir casas. Moluscos e homens so ambos "construtivistas". A diferena  que o corpo dos moluscos j nasce sabendo a arte de 
construir suas casas. O modelo, os materiais e a forma de suas casas j est dentro deles. Moluscos no precisam ir  escola. No precisam pensar para inventar suas 
conchas. Mas, ai de ns! Nascemos com um corpo mais mole que o dos moluscos: a pele frgil, desprotegida. No temos nem penas, nem escamas, nem couro, nem cabelos 
e nem carapaas. Nascemos nus no sentido mais bruto da palavra. Nus, no sobreviveramos diante do frio, da neve, da chuva, do calor. Sem saber o que fazer - inferiores, 
portanto, aos moluscos - esse corpo mole, nu e desajeitado teve de inventar sua casa. Para isso, teve de aprender a pensar. Foi da moleza do nosso corpo que nasceu 
a inteligncia. Voc sabe isso por experincia prpria: a inteligncia s funciona quando o corpo no d conta de resolver um impasse prtico. Diante de um impasse 
prtico, ele pensa. Inventa. Como diz o ditado: "A necessidade  a me da inveno". A inteligncia  a funo que torna possvel aos homens construir suas casas. 
E como o nosso corpo, mais incompetente que o corpo dos moluscos, no pode secretar sua prpria casa, o jeito  fazer a casa com os materiais que se encontram espalhados 
pelo espao ao redor, no mundo. A construo da casa exige conhecimento do mundo. Essa  a origem da cincia. A inteligncia sai  procura dos seus materiais. Tem 
de incursionar pelo mundo: pesquisar. Mas suas incurses e pesquisas no se fazem a esmo: fazem-se guiadas por um motivo prtico. A inteligncia busca o que  til. 
O que  intil ela ignora. No  necessrio aprender. Vai ao mundo para colher os materiais necessrios  construo da casa. A inteligncia, assim, tem uma orientao 
ecolgica. Ecologia  uma palavra derivada da palavra grega "oikia", que quer dizer "casa." No incio a pesquisa  bem prtica e imediata: a busca dos materiais 
para fazer a casa. Resolvido o problema inicial a pesquisa se amplia. O corpo precisa conhecer os arredores, rios, montanhas, matas, porque, para sobreviver, ele 
no pode ficar metido na sua toca. Esse espao  o "quintal" da casa.  preciso conhecer os sinais do tempo. A sobrevivncia no vero  diferente da sobrevivncia 
no inverno.  preciso conhecer os hbitos dos bichos e dos peixes, para serem caados e pescados.  preciso conhecer as propriedades alimentcias e medicinais das 
plantas. Pelo conhecimento o espao da casa se amplia. O homem pode sair de sua casa sem se perder. Pode sair de sua casa para sobreviver. Mas ele volta sempre para 
a casa.
A concha que o nosso corpo mole produz, assim, no  feita s com materiais fsicos.  feita com conhecimento. Por vezes esse conhecimento fica mais duro que as 
conchas dos moluscos - havendo sempre o perigo de que ela se transforme numa priso, como se fosse uma concha que no se abre. Conheo muitas pessoas assim. 
A inteligncia  uma corda esticada entre dois pontos. De um lado, a necessidade: construir a casa. Do outro, os materiais disponveis. As primeiras casas foram 
grutas. Gruta  uma casa pronta. No precisa ser inventada.  s entrar dentro dela. Mas, nos lugares onde no h grutas foi necessrio construir grutas artificiais. 
A inteligncia dos esquims produziu o iglu, concha maravilhosa feita com blocos de gelo. L dentro  quentinho. Curioso que dentro de uma concha de gelo faa calor! 
Nos pases frios os pssaros se abrigam dentro dos iglus naturais que a neve faz sobre os arbustos. Os esquims jamais pensariam em construir casas de madeira ou 
de lona porque esses materiais no so encontrados no mundo em que vivem. E os bedunos, no deserto, jamais poderiam imaginar um iglu. No deserto no h gelo. E 
nem fariam uma casa fixa: eles so tribos errantes. Suas casas so tendas de pano que podem ser desmontadas e transportadas. Populaes que moram  beira de rios 
sujeitos  enchentes logo perceberam que suas casas deveriam ter pernas de pau: inventaram as palafitas. Que coisa interessante seria estudar, com as crianas, os 
vrios tipos de casa. A necessidade de construir casa  universal. Mas dessa necessidade surgem as mais diferentes "cincias" do mundo, em funo dos materiais que 
so usados para a construo das casas.
A inteligncia  ferramenta do corpo. (Por vezes -  preciso acrescentar - ela  brinquedo do corpo... Quem est montando um quebra-cabeas ou jogando um jogo de 
xadrez est usando a inteligncia como brinquedo.)
Casas so extenses do corpo - prolongamentos dos nossos rgos. Anote isso: o corpo  egosta; ele pensa e age no sentido de viver. Por isso ele pensa e age praticamente. 
O que no  prtico ele ignora - esquece.
Os materiais com que a casa  construda - paredes, teto, portas - so extenses dos meus ossos e msculos. As janelas so extenses dos pulmes e dos olhos. O fogo 
de lenha, em sua funo de aquecer,  uma expanso da pele. Mas na sua funo de cozinhar ele  uma extenso da boca (o gosto bom da comida) e do aparelho digestivo: 
comida cozida ajuda a digesto. A casa est cheia de uma infinidade de objetos que usamos constantemente: caixas de fsforo, torneiras, interruptores eltricos, 
espelhos, sprays, remdios, facas, garfos, vassouras, papel, fogo, martelos, pregos, serrotes, fotografias, rdios, televises, chuveiros, sabes, lmpadas, velas, 
brinquedos, cestas de lixo. Cada um desses objetos  um mundo. Cada um deles  produto de inveno. Cada um deles est cheio de inteligncia. Uma casa que provoca 
a inteligncia deve estar cheia desses objetos. Ah! Como as caixas de ferramentas so importantes! Laboratrios inesgotveis de fsica. E que dizer da cozinha, lugar 
de qumica! 
Essa orientao ecolgica do conhecimento tem uma conseqncia muito interessante. Casa  casa do corpo. O que  a minha casa? Minha casa  o espao que o meu corpo 
construiu para si mesmo. Um princpio fundamental da inteligncia  que ela s funciona em relao quilo que diz respeito a uma necessidade prtica do corpo, no 
preciso momento em que ele est vivendo. Cada professor, ao tentar ensinar qualquer coisa, deveria se fazer esta pergunta: "Qual  a funo prtica do que estou 
ensinando, para o momento da vida do aluno  minha frente?" J imaginou um professor ensinando aos bedunos no deserto a arte de fazer iglus? Ou a arte da pesca? 
E que dizer de um professor que ensinasse aos moradores das montanhas a arte de navegar? Anote isso: o corpo no aceita programas de saberes logicamente organizados 
abstratamente, que no estejam relacionados com o desafio da construo das suas casas. Claro: para os navegadores, seus barcos e o mar so parte da sua casa. Para 
os que trabalham o solo, suas ferramentas, as sementes e as pragas so parte de sua casa. Para os pintores, as tintas e os pincis so parte da sua casa. Para quem 
est doente, o conhecimento do corpo e das poes medicinais so parte da sua casa. Em resumo: a currculo  determinado pela vida, pelos desafios que se encontram 
no momento, dados pelo ambiente - os alemes usam a palavra "Umwelt" para designar isso. "Um" quer dizer "ao redor". E "Welt" quer dizer mundo: mundo. "Umwelt" = 
o mundo ao redor.
Pois foi isso que Piaget tratou de compreender cientificamente: os mecanismos da inteligncia no seu esforo para manipular o seu ambiente, seja pelas manipulaes 
prticas, sejam pelas manipulaes do pensamento. A inteligncia  uma construtora de casas.
Como voc pode ver, h uma analogia entre os moluscos e os homens...
 
QUERO-QUERO
"O senhor vai me entender. Tenho filhos e estou a procura de uma escola que seja boa para eles..."
Com essas palavras a jovem senhora se explicou ao senhor  sua frente, assentado numa poltrona, atrs de uma escrivaninha. Era o diretor da escola. Ele sorriu, levantou-se 
e fez um gesto com a mo... E foi assim que se iniciou a visita. Ele, diretor antigo, caminhava  frente, explicando as coisas da escola, da educao, da vida. Ele 
sabia sobre o que estava falando. Ela, jovem, me e dona de casa, ia seguindo, observando, ouvindo. Ele mostrava com orgulho as salas de aula, os laboratrios, as 
quadras esportivas, a biblioteca... Terminada a visita, de volta ao gabinete do diretor, a conversa aproximou-se do desfecho. O diretor estava confiante. Era difcil 
para uma me, uma simples dona de casa, resistir  autoridade e clareza dos seus argumentos. Foi ento que a me tomou a iniciativa:
"Como eu lhe disse, estou  procura de uma escola que seja boa para os meus filhos. E h algumas coisas a mais que gostaria de saber. Eu queria saber se essa escola 
 rigorosa, se ela aperta os seus alunos..."
O diretor a tranqilizou. "Quanto a isso a senhora pode estar descansada. Orientamos nossos professores no sentido de apertar ao mximo os alunos. A senhora compreende: 
vivemos num mundo competitivo, o vestibular est  espera e somente os mais aptos sobrevivero..." A me continuou:
"H uma outra coisa que me preocupa. Os alunos frequentam a escola por um perodo apenas, ou manh, ou tarde. Sobra um tempo vazio... E eu desejo saber se a escola 
planeja esse tempo tambm, se  prtica da escola dar tarefas para serem realizadas em casa, tarefas que encham esse tempo..."
"Mas  claro. O nosso planejamento pedaggico se orienta no sentido de fazer com que os alunos estejam o tempo todo ocupados com as coisas da escola. No mundo em 
que vivemos no podemos nos dar ao luxo de tempo ocioso... O vestibular  cruel!" E, com um sorriso, acrescentou: "Eu sempre digo aos alunos, brincando: 'Enquanto 
voc est vadiando h um japons estudando...'"
A jovem me se levantou e, sorrindo, se explicou: "O senhor sabe... Como lhe disse, estou  procura de uma escola que seja boa para os meus filhos. A coisa que mais 
desejo para meus filhos  que eles sejam felizes. Portanto, uma escola boa para os meus filhos ter de ser uma escola em que eles se sintam felizes. Ter de ser 
uma escola em que eles aprendero que aprender d prazer. Uma escola em que os livros sejam um motivo de felicidade e no uma obrigao. Mas o senhor me disse que 
seus professores so orientados no sentido de 'apertar' as crianas. Agora, tomando por mim, eu no me sentiria feliz se vivesse sendo 'apertada'. Aperto d stress... 
Alm do que, eu acho que  importante que as crianas tenham tempo livre para fazer o que quiserem: brincar, construir coisas, excursionar, fazer as infinitas coisas 
que no esto previstas nos programas escolares... Eu tenho medo de que, se meus filhos viessem a frequentar a sua escola, eles iriam associar aprendizagem com sofrimento 
e acabariam por ter raiva de aprender..." E ainda sorrindo, despediu-se do diretor e saiu rumo a uma outra escola...
Literatura se faz com uma mistura de realidade e fantasia. Isso que relatei  literatura: no foi exatamente assim que aconteceu. Mas aconteceu! Essa me peregrinou 
de escola em escola  procura da escola na qual os seus filhos se sentiriam felizes. Depois de muito procurar, achou. Quem quiser saber os detalhes  fcil.  s 
procurar a Eliana Frana Leme.
Quem  ela? Eu acho que as vocaes no podem ser aprendidas. S podem ser despertadas. Ningum aprende a ser poeta. Ningum aprende a ser compositor. Ningum aprende 
a ser psicanalista. As vocaes nascem com a pessoa, como sementes. Claro. H os cursos, os saberes. Mas os cursos e saberes so apenas a terra onde a dita semente 
pode germinar. Penso o mesmo dos educadores. No h escolas onde se produzam educadores. Os educadores nascem educadores.  o caso da Eliana.
O que faz um educador  o amor pelas crianas; e o amor pelas crianas que teimam em viver mesmo naqueles que j cresceram. O amor  esperto: ele sempre acha um 
jeito de chegar at o lugar onde mora o objeto amado. Pois no foi isso que fez a Rapunzel? Ela, presa na torre. O seu amor, l em baixo, longe... A o seu desejo 
do abrao fez seus cabelos crescerem, crescerem muito, at chegar ao cho. E os seus cabelos se transformaram, ento, numa escada pela qual o seu Prncipe subiu 
at ela. Um psicanalista imaginoso diria logo: cabelos so fios que saem da cabea. Ora, os fios que nascem da cabea so os pensamentos. O amor faz nascer os pensamentos 
que levam at o objeto amado.  assim que acontece com os verdadeiros educadores: eles descobrem um jeito de chegar at as crianas.
Pois foi o que a Eliana fez. Seus filhos cresceram e bateram asas. Mas ela continuou a amar as crianas. E da combinao de amor pelas crianas e inteligncia cresceram, 
na cabea dela, os fios que construram o projeto educacional: "Quero-quero". "Quero-quero"  o nome de um pssaro de pernas compridas (Vanellus chilensis lampronotus 
- ta nome difcil!). Pode ser encontrado andando pelos campos. O nome est dizendo: quero, quero. Querer  desejar. Todos somos movidos pelo desejo. As crianas 
aprendem movidas pelo desejo. Essa  a intuio fundamental da Eliana: ela percebeu que a alma das crianas  habitada por sonhos, o maior deles sendo o desejo de 
ser amado e de construir o seu prprio futuro. Pedagogia do Desejo:  desse "quero-quero" que todos repetimos que brota o desejo de conhecer.
E foi assim que ela e um grupo de amigos e voluntrios comearam a construir um espao para as crianas que vivem na pobreza e nas margens da sociedade. Ela descreve 
o seu projeto com a palavra "maternagem". Quem usa a mesma palavra  o mestre Roland Barthes, dirigindo-se aos eruditos intelectuais franceses que assistiram, perplexos, 
 sua aula inaugural como professor do Collge de France. Ele sabia que mesmo os marmanjos que se assentariam nas suas classes no passavam de crianas. E ele descreve 
o seu projeto de maternagem como um espao em que "as idas e vindas de uma criana que brinca em torno da me, dela se afasta e depois volta, para trazer-lhe uma 
pedrinha, um fiozinho de l, desenhando assim ao redor de um centro calmo toda uma rea de jogo, no interior da qual a pedrinha ou a l importam finalmente menos 
do que o dom cheio de zelo que deles se faz."
 a criana que d o programa.  ela que pega a pedrinha e o fiozinho de l. A pedrinha e o fiozinho de l so expresses do seu "quero-quero". O centro calmo, a 
me, sorri e brinca. O seu sorriso diz  criana que ela pode ir, vir, explorar, se interessar pelo que quiser. No se trata de um projeto para transformar as crianas 
em profissionais. As crianas vo para l no perodo em que esto fora da escola. Para qu? Para serem elas mesmas. Para saber que elas no so objetos passivos 
que devem aprender aquilo que os adultos, mais fortes, lhes impem: aquela pedagogia que a me chamada Paulo Freire chamou de "pedagogia bancria": as crianas como 
cofres onde os adultos depositam seus capitais de saber, a fim de poder sacar, no futuro...
A cincia, frequentemente, produz concluses equivocadas. Piaget, analisando o desenvolvimento do aparato cognitivo das crianas, percebeu que ele passa por fases. 
Da mesma forma como uma planta passa por fases. No se pode esperar que uma planta d frutos quando ela ainda no est madura para isso. Essa constatao, que  
cientfica, produziu uma concluso pedaggica estranha: se as capacidades de aprender das crianas passam por fases, ento as crianas devem ser agrupadas segundo 
a fase em que se encontram. Assim, o ambiente de aprendizagem de uma criana de 5 anos deve ser distinto e separado do ambiente de aprendizagem de uma criana de 
9. As crianas aprendem, separadas em pequenos currais... Mas quando observamos um jardim - Piaget, ao pensar sobre a aprendizagem, levou muito a srio o ambiente 
vital - vemos que no  assim que a vida acontece: plantas, nas mais diversas fases de crescimento, convivem no mesmo espao: rvores imensas ao lado de sementes 
recm brotadas, arbustos florescendo ao lado de plantas que perderam as folhas.  assim que  a vida.  nessa diversidade que se encontra a beleza do jardim. Jardim 
no  canteiro de mudas... 
Parte da aprendizagem, talvez a parte mais rica da experincia humana,  a convivncia na diversidade: crianas, nas mais diversas fases de desenvolvimento cognitivo, 
habitando um mesmo espao, aprendendo num mesmo espao, ajudando-se umas s outras. Jardim... Invivel?  a falta de compreenso dessa dimenso humana que cria os 
mecanismos de segregao: as escolas se transformam em canteiros de mudas, todas iguais, separados por fase de crescimento. E se, no meio das mudas iguais aparece 
uma planta diferente, o jardineiro a arranca e a joga no lixo... No seria bonito e verdadeiro se as escolas, ao invs de se parecerem com linhas de montagem, se 
parecessem com jardins? Se voc quiser saber mais sobre o projeto "Quero-quero", faa uma visita. Ele funciona no "Parque Ecolgico", numa das casas antigas, ao 
lado do Lago das Ninfias. Ou voc pode falar diretamente com a Eliana: telefone 32552581,  tarde

O VAZIO
Minhas netas: Hoje quero que vocs me respondam uma pergunta: o que  que vale mais, o cheio ou o vazio? Ah! Pergunta boba! Todo mundo sabe que o que o cheio vale 
mais que o vazio. Quem gostaria de receber uma caixa vazia como presente de aniversrio? O que a gente quer  uma caixa cheia.  o cheio que vale. Tanto assim que 
o cheio custa dinheiro. Mas o vazio no custa nada. Ningum compra o vazio.
Parece bvio que o cheio vale mais que o vazio... Mas ser mesmo?  gostoso comprar uma sandlia nova. Mas uma sandlia  para a gente pr os ps dentro dela. Mas 
para se pr os ps dentro dela  preciso que o "dentro dela" esteja vazio. Se o "dentro dela" estiver cheio o p no entra.  o vazio da sandlia que a torna til. 
Vocs gostam de refrigerante. Querem pr o refrigerante no copo. Mas para se pr o refrigerante no copo  preciso que o copo esteja vazio. Um copo  um vazio cercado 
de vidro por todos os lados, menos o de cima. A voc d uma risadinha e diz: "Eu no preciso de copo. Uso um canudinho de plstico..." Mas o canudinho s funciona 
se estiver vazio.  preciso que ele esteja vazio para que o refrigerante passe por dentro dele quando voc chupa.
Na escola o professor j lhes explicou como so os pulmes? Eles se parecem com um esponja: so cheios de buraquinhos vazios. Os buraquinhos tm de estar vazios 
para que o ar entre neles. Coisa ruim  quando, resfriados, os pulmes ficam "cheios". Pulmo cheio no deixa respirar. Coisa gostosa  andar de bicicleta. Voc 
pedala, as rodas rodam, e l vai voc sentindo o ventinho gostoso no rosto. Mas as rodas, para girarem, precisam ter um buraco no meio.  nesse buraco que entra 
o eixo.  o vazio no centro da roda que a torna til.
Vocs gostam de bolo. Eu tambm. Para se fazer um bolo a gente procura a receita num livro de receitas. A primeira coisa que aparece numa receita so os "ingredientes": 
farinha, ovos, acar, manteiga, leite e outras coisas. Mas eu nunca vi, em livro de receitas, explicado que se no se misturar uma pitada de vazio com os ingredientes, 
o bolo no fica bom. Fica "embatumado", pesado, ruim.  o vazio que faz o bolo ficar fofinho e leve. A voc me pergunta: "Mas como se faz para misturar o vazio 
na massa do bolo?"  simples.  para isso que se batem as claras dos ovos. As claras, sem bater, so s o "cheio". Mas, depois de batidas, esto cheias de vazio. 
Vocs sabem bater claras?  divertido. A gente pega um garfo e vai enrolando a clara com movimentos circulares rpidos. Para qu? Para pescar vazio. Depois de batidas 
as claras, olhem bem: elas se transformaram numa espuma, milhares de bolhas minsculas. Dentro de cada bolha est um pouquinho de ar. O fermento faz o mesmo efeito. 
Misturado com a massa o fermento comea a produzir bolhas bem pequenas de um gs, semelhantes quelas que existem dentro das garrafas de refrigerantes.
A casa tambm  um vazio cercado de paredes. Para isso servem as paredes: para pegar o vazio e permitir que ele seja usado. Os arquitetos e arquitetas so os artistas 
que sabem a arte de pegar vazios por meio de paredes. E as janelas? Tambm so vazios. Buracos. J imaginaram uma casa sem janelas? Seria horrvel viver numa casa 
sem janelas. S conheo uma casa sem janelas: os prdios do Congresso Nacional, em Braslia. Parece que a ausncia de janelas no faz bem nem para os sentimentos 
e nem para os pensamentos...  o vazio entre os meus olhos e o jardim que me permite ver o jardim.  o vazio chamado "silncio" que me permite ouvir a msica. E 
o espelho? Para ser bom, para refletir o seu rosto,  preciso que seja vazio.
Agora uma de vocs me diz: "Mas v: faz tempo que voc est contando como era a sua vida de menino, na roa! E agora voc comea a falar sobre o vazio..." A eu 
explico: " que a roa  o lugar onde o vazio  grande. A cidade  o lugar onde o vazio  pequeno." Na cidade a gente olha para fora e os olhos logo batem num edifcio, 
num muro, nos automveis. Na cidade a gente v curto. Na roa, porque o vazio  grande, os olhos vem longe, muito longe: os campos, as matas, as montanhas no horizonte, 
o sol que morre, a lua que nasce, as estrelas... Que coisa bonita  ver a cortina branca da chuva que vai chegando...
Quando o vazio  grande o mundo cresce. Coisa que eu gostava de fazer quando menino: deitar no capim e ficar vendo as nuvens. Pareciam navios navegando no mar do 
cu, mudando de forma, sem parar: o pato virava regador, o regador virava elefante... Eu no entendia uma coisa: como  que as nuvens no caam! De vez em quando 
elas caam como chuva de gua ou chuva de pedra de gelo. Disso eu conclua que nuvem era gua e gelo. A eu me perguntava: como  que gua e gelo ficam l em cima, 
flutuando como se fossem flocos de algodo? E os urubus? Todo mundo acha que urubu  ave feia. Discordo. Vocs j pararam para ficar olhando o vo dos urubus? Pensando 
no vo dos urubus eu me lembrei de uns versos da Ceclia Meireles: "Os dias felizes esto entre as rvores, como pssaros: viajam nas nuvens, correm nas guas, desmancham-se 
na areia. Todas as palavras so inteis, desde que se olha para o cu. A doura maior na vida flui na luz do sol, quando se est em silncio. At os urubus so belos, 
no largo crculos dos dias sossegados..." Os urubus voam muito alto - parecem uns pontinhos negros no azul vazio do cu. Para voar eles nem batem asas. Eles flutuam 
nas correntes de ar quente que sobem. Foram os urubus que ensinaram os homens a voar com as asas delta. Se no fosse o vazio do cu no haveria nem o vo dos pssaros 
e nem o vo dos homens.
Na roa, porque o vazio era grande, a liberdade era grande tambm. O vazio  um lugar bom para brincar. Se no fosse o vazio do cu, como  que eu poderia empinar 
uma pipa? Se no fosse o vazio debaixo da rvore, como  que eu ia balanar, at bater com a ponta do p na folha do galho alto? Os campos eram imensos vazios, sem 
cercas. De manh, depois do caf com leite, po e manteiga, eu saa para fora. No era preciso prestar ateno no trfego para no ser atropelado. No havia automveis 
correndo e buzinando. No vazio eu era um menino livre, brincalho... Meus pensamentos voavam com as nuvens e os urubus...
E havia tambm um vazio chamado silncio. Silncio  quando no h rudos e barulhos. Na cidade no h o vazio do silncio: nossas casas so invadidas pelo ronco 
das motocicletas, das buzinas, do som a todo volume. Quando o espao est vazio de barulhos a gente pode escutar as msicas da natureza. H 150 anos um chefe ndio 
dos Estados Unidos escreveu uma carta ao presidente daquele pas falando sobre as cidades dos ditos civilizados. Disse ele: "No h lugar calmo nas cidades do homem 
branco. Nenhum lugar para escutar o desabrochar das folhas na primavera ou o bater das asas de um inseto. A barulheira ofende os ouvidos. E o que resta da vida se 
um homem no pode escutar o choro solitrio de um pssaro ou o coaxar dos sapos  volta de uma lagoa,  noite..." Vocs j ouviram a msica das folhas das rvores 
sacudidas pelo vento? J ouviram o canto de um sabi no meio da mata, ao entardecer? O zumbido das abelhas em busca de flores?
A vida precisa do vazio: a lagarta dorme num vazio chamado casulo at se transformar em borboleta. A msica precisa de um vazio chamado silncio para ser ouvida. 
Um poema precisa do vazio da folha de papel em branco para ser escrito. E as pessoas, para serem belas e amadas, precisam ter um vazio dentro delas. A maioria acha 
o contrrio; pensa que o bom  ser cheio. Essas so as pessoas que se acham cheias de verdades e sabedoria e falam sem parar. So umas chatas quando no so autoritrias. 
Bonitas so as pessoas que falam pouco e sabem escutar. A essas pessoas  fcil amar. Elas esto cheias de vazio. E  no vazio da distncia que vive a saudade...
A roa  o lugar onde o vazio  grande. O vazio grande da roa, com seus espaos e silncios,  o colo da natureza, nossa me de onde samos e para onde haveremos 
de voltar... Assentados no colo da me o medo se vai e tudo fica bom. A cidade  o cheio. A roa  o vazio. Tenho saudade do vazio da roa...
 

SE EU TIVER UM ANO A MAIS DE VIDA...
Faz cinco anos que um grupo de amigos se rene comigo para ler poesia. Para que ler poesia? Para a gente ficar mais tranquilo e mais bonito. Mas no me entendam 
mal. J observaram os urubus - como eles voam em meio  ventania? Eles nem batem as asas. Apenas deixam-se levar, flutuam. Esse jeito de ser chama-se sabedoria. 
A poesia nos torna mais sbios, retirando-nos do torvelinho agitado com que a confuso da vida nos perturba. Drummond, escrevendo sobre a Ceclia Meireles, disse: 
"No me parecia criatura inquestionavelmente real; por mais que aferisse os traos de sua presena entre ns, marcada por gestos de cortesia e sociabilidade, restava-me 
a impresso de que ela no estava onde ns a vamos. Por onde erraria a verdadeira Ceclia, que, respondendo  indagao de um curioso, admitiu ser seu principal 
defeito 'uma certa ausncia do mundo'? Do mundo como teatro, em que cada espectador se sente impelido a tomar parte frentica no espetculo, sim; mas no, porm, 
do mundo das essncias, em que a vida  mais intensa porque se desenvolve em um estado puro, sem atritos, liberta das contradies da existncia". 
Pois  isso que a poesia faz: ela nos convida a andar pelos caminhos da nossa prpria verdade, os caminhos onde mora o essencial. Se as pessoas soubessem ler poesia 
 certo que os terapeutas teriam menos trabalho e talvez suas terapias se transformassem em concertos de poesia!
Pois aconteceu que, numa dessas reunies, quando lamos trechos da Agenda 2001 - Carpe Diem, encontramos, no dia 2 de fevereiro, essa afirmao de Gandhi: "Eu nunca 
acreditei que a sobrevivncia fosse um valor ltimo. A vida, para ser bela, deve estar cercada de vontade, de bondade e de liberdade. Essas so coisas pelas quais 
vale a pena morrer." Essas palavras provocaram um silncio meditativo, at que um dos membros do grupo, que se chama "Canoeiros", sugeriu que fizssemos um exerccio 
espiritual. Um joguinho de "faz-de-conta". Vamos fazer de conta de sabemos que temos apenas um ano mais de vida. Como  que viveremos, sabendo que o tempo  curto, 
"tempus fugit"?
A conscincia da morte nos d uma maravilhosa lucidez. D. Juan, o bruxo do livro "Viagem a Ixtlan", advertia o seu discpulo: "Essa bem pode ser a sua ltima batalha 
sobre a terra". Sim, bem pode ser. Somente os tolos pensam de outra forma. E se ela pode ser a ltima batalha, ela deve ser uma batalha que valha a pena. E, com 
isso, nos libertamos de uma infinidade de coisas tolas e mesquinha que permitimos se aninhem em nossos pensamentos e corao. Resta ento a pergunta: "O que  o 
essencial?" Um conhecido meu, mstico e telogo da Igreja Ortodoxa Russa (seu livro - maravilhoso - "Para a vida do mundo", est sendo traduzido e em breve ser 
publicado pela Paulus), ao saber que tinha um cncer no crebro e que lhe restavam no mais que seis meses de vida, chegou  sua esposa e lhe disse: "Inicia-se aqui 
a liturgia final". E, com isso, comeou uma vida nova. As etiquetas sociais no mais faziam sentido. Passou a receber somente as pessoas que desejava receber, os 
amigos, com quem podia compartilhar seus sentimentos. Eliot se refere a um tempo em que ficamos livres da compulso prtica - fazer, fazer, fazer. No havia mais 
nada a fazer. Era hora de se entregar inteiramente ao deleite da vida: ver os cenrios que ele amava, ouvir as msicas que lhe davam prazer, ler os textos antigos 
que o haviam alimentado.
O fato  que, sem que o saibamos, todos ns estamos enfermos de morte e  preciso viver a vida com sabedoria para que ela, a vida, no seja estragada pela loucura 
que nos cerca.
Lembrei-me das palavras de Walt Whitman: "Quem anda duzentos metros sem vontade/ anda seguindo o prprio funera / vestindo a prpria mortalha..." Pensei ento nas 
minhas longas caminhadas pelo meu prprio funeral, fazendo aquilo que no desejo fazer, fazendo porque outros desejam que eu faa. "Sou o intervalo entre o meu desejo 
e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim" - lvaro de Campos. Sou esse intervalo, esse vazio - de um lado o meu desejo (onde foi que o perdi?); do outro 
lado o desejo dos outros que esperam coisas de mim. No, no so os inimigos que me impem o intervalo. Inimigos - no lhes dou a menor importncia. Os desejos que 
me pegam so os desejos das pessoas que amo - anzis na carne. Como tenho raiva do Antoine de Saint Exupri - "tornamo-nos eternamente responsveis por aqueles que 
cativamos..." Mas isso no  terrvel? Ser reponsvel por tanta gente? Cristo, por amar demais, terminou na cruz. Embora no saibamos, o amor tambm mata.
Ento, abandonar o amor? No. Mas  preciso escolher. Porque o tempo foge. No h tempo para tudo. No poderei escutar todas as msicas que desejo, no poderei ler 
todos os livros que desejo, no poderei abraar todas as pessoas que desejo.  necessrio aprender a arte de "abrir mo" - a fim de nos dedicarmos quilo que  essencial.
A eu comecei a pensar nas coisas que amo e que abandonei - vejam s: nesse preciso momento me dei conta de que, por causa dessa crnica no liguei a fonte que faz 
um barulhinho de gua e nem pus nenhuma msica no meu tocador de CDs, a pressa era demais, a obrigao era mais forte. Tudo bem agora, a fonte faz o seu barulhinho 
e o Arthur Moreira Lima toca minha sonata favorita de Mozart, em l maior KV 331 - coisas que amo e abandonei. Eu, mau leitor de poesia! Poesia lida e no vivida! 
No levei a srio o dito pelo Fernando Pessoa: "Ai, que prazer no cumprir um dever. Ter um livro para ler e no o fazer! Grande  a poesia, a bondade e as danas... 
Mas o melhor do mundo so as crianas..."
Sempre fui louco por jardins. Uns acham que eu no acredito em Deus. Como no acreditar em Deus se h jardins? Um jardim  a face visvel de Deus. E essa face me 
basta. No tenho necessidade de ir olhar atrs das estrelas... Escrevi inmeros textos sobre jardins. Num jardim estou no paraso. Mas, que foi que fiz com o meu 
jardim? Abandonei. A caixa das abelhinhas apodreceu, caiu a tampa e eu no fiz nada. Cresceu o mato eu eu no fiz nada. Da fonte tirei os peixes, coitados... De 
lugar de prazer, onde se assentar em abenoada vadiao contemplativa, meu jardim virou um lugar de passagem. Abandonei o meu amigo, por causa do dever. Para o inferno 
com o dever! Vou mesmo  cuidar do meu jardim. Por prazer meu. E pela alegria das minhas netas. Vou reformar a fonte, vou fazer um balano (que os paulistas insistem 
em chamar de balana...), vou reformar o gramado, vou refazer a casa das abelhinhas, vou fazer uma cobertura para as orqudeas. E mais, vou fazer uma "casinha de 
bruxa", cheia de brinquedos, para as minhas netas, a Mariana, a Camila, a Ana Carolina, a Rafaela e a Bruna... Quero brincar com elas. Breve elas tero crescido 
e no mais terei netas com quem brincar. "Mas o melhor do mundo so as crianas..."
Vou voltar a tocar piano - coisas fceis: a "Fantasia", de Mozart, a "Trumerai", de Schumann, o Improviso op. 90. n. 4 de Schubert, o preldio da "Gota dgua", 
de Chopin, alguns adgios de sonatas de Beethoven.
Quero ouvir msica: aquelas que fazem parte da minha alma. Pois a alma, no seu lugar mais fundo, est cheia de msica. E, sem precisar me desculpar pelo meu gosto, 
digo que amo msica erudita. Msica erudita  aquela que nos faz comungar com a eternidade. As outras, so bonitas e gostosas - mas so coisa do tempo.
Quero reler livros que j li. Vou rel-los porque  sempre uma alegria caminhar por caminhos conhecidos e esquecidos.  como se fosse pela primeira vez.
No quero novidades. No vou comprar apartamentos ou terrenos. No quero viajar por lugares que desconheo. Eliot: "E ao final de nossas longas exploraes chegaremos 
finalmente ao lugar de onde partimos e o conheceremos ento pela primeira vez..."  isso. Voltar s minhas origens, s coisas de Minas que tanto amo, a cozinha, 
os jardins de trevo, malva, roms e manacs, as montanhas, os riachinhos, as caminhadas...
H coisas que s poderei gozar em solido. Ningum  obrigado a gostar das msicas que amo. Entrando no seu mundo, gozarei de abenoada solido. Lugar bom para se 
ouvir msica assim  guiando o carro, sozinho, sem precisar conversar. 
Mas quero meus amigos. No do jeito do Roberto Carlos que queria ter um milho de amigos. No  possvel ter um milho de amigos. Quero meus poucos amigos. Amigos: 
pessoas em cuja presena no  preciso falar...
Estou tentando, estou comeando. Espero que consiga...

"A PARBOLA DOS TALENTOS" OU "O SENHOR DOS JARDINS"
Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem 
cessar: "O mundo inteiro ainda dever se transformar num jardim. O mundo inteiro dever ser belo, perfumado e pacfico. O mundo inteiro ainda se transformar num 
lugar de felicidade." Suas terras eram uma sucesso sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalho cuidar 
dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pssaros, as borboletas, os insetos, 
as fontes, as frutas, o perfume... Sozinho ele no daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu 
que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longnqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou trs dos jardineiros que contratara, 
Paulo, Hermgenes e Boanerges e lhes disse: "Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero vocs cuidem de trs dos meus jardins. Os outros, j providenciei quem 
cuide deles. A voc, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japons. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas... A voc, Hermgenes, 
entrego o cuidado do jardim ingls, com toda a sua exuberncia de flores pelas rochas... E a voc, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com roms, hortels 
e jasmins." Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e ps-se a cuidar do jardim japons. O Hermgenes ficou muito feliz e ps-se a cuidar do jardim 
ingls. Mas o Boanerges no era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: "Cuidar de jardins no  comigo.  
trabalho demais..." Trancou ento o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, 
feliz, mostrou-lhe o jardim japons, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermgenes e 
lhe mostrou o jardim ingls, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. A foi a vez do Boanerges. E no havia formas de enganar.
"Ah! Senhor! Preciso confessar: no sou jardineiro. Os jardins me do medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mos so delicadas. 
No so prprias para mexer com a terra, essa coisa suja... Mas o que me assusta mesmo  o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, 
perdem as folhas. Cuidar delas  uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plstico. E a terra seria coberta com cimento, 
pedras e cermica, para evitar a sujeira. As pedras me do tranquilidade. Elas no se mexem. Ficam onde so colocadas. Como  fcil lav-las com esguicho e vassoura! 
Assim, eu no cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos no o invadissem." E com estas palavras entregou ao Senhor 
dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: "Esse jardim est perdido. Dever ser todo refeito. Paulo, Hermgenes: vocs vo 
ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem j tinha jardins ficar com mais jardins. E, quanto a voc, Boanerges, respeito o seu desejo. Voc no gosta de jardins. 
Vai ficar sem jardins. Voc gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, voc ir quebrar pedras na minha pedreira..."

VOC TEM UM FURNCULO?
H um ditado Zen que diz: "Nunca mostres o teu poema a um no poeta." Voc me enviou os seus poemas. Isso quer dizer que voc me considera um poeta. Mas eu mesmo 
no sei se sou poeta. Sei que escrevo poeticamente, porque brinco com imagens, sons e ritmos. Mas um poema nunca me pediu que o escrevesse. Rgis de Moraes, amigo 
meu poeta, disse-me que quando h dentro dele um poema para ser escrito ele se sente como um galinha que tem um ovo para ser botado. Eu nunca senti isso...
Voc me enviou os seus poemas desejando que eu os leia. Nada mais justo: quem escreve deseja ser lido. Mas mais do que isso: voc deseja que eu goste dos seus poemas. 
E que eu diga: "Voc  um poeta! Merece ser publicado!" Est certo: quem escreve deseja que seus textos sejam transformados em livro.
Houve uma s vez, em toda a minha vida, em que lutei para que um livro de poemas fosse publicado. A Maria Antnia era minha aluna na UNICAMP. Tinha - e ainda tem 
- uma carinha de menina travessa. Acho que vai morrer com ela, a carinha travessa... Me deu um livrinho artesanal, Fogo-Pag, com essa dedicatria: "Rubem: eu acho 
voc engraado e gosto de voc e fico desejando que voc leia esse livro e ache alguma graa nele. 1 abrao. Maria Antnia. 
15.04.82." Amanh completa 20 anos. Ela no foi a primeira mulher a me achar engraado. Quando fui professor visitante no Union Theological Seminary (New York, 1971) 
meus alunos comearam a vir ao meu escritrio, na vspera da minha volta ao Brasil, para se despedirem. Chegou uma jovem, longos cabelos ruivos, sardenta. Olhou-me 
nos olhos e disse: "Sonhei com voc..." Sorri, imaginando o que ela teria sonhado. "Sonhei que voc era um palhao..." A meu sorriso virou riso: ela havia entendido. 
Sou palhao. E estou em boa companhia: no final de um dos seus poema Nietzsche disse que ele era apenas um palhao, apenas um poeta... O fato  que o rosto de menina 
travessa e o fato de ela me haver achado engraado me seduziram. "Fogo-pag canta manso e triste/ fazendo eco no fundo da gente/ encavalando alegria e agonia,/ que 
da ficam disputando entre si/ pr reinarem no peito..." Foi amor  primeira vista porque o poema dela chamou pelo nome certo o canto que eu ouvia sempre no
meu peito... Depois ela escreveu outros. Um deles eu batizei e prefaciei, Ceriguela. At que, indignado com a dificuldade que tm os poetas para publicar seus poemas, 
batalhei com o pessoal da Papirus e eles tambm sentiram o que eu sentia e publicaram o Terra de formigueiro.
Mas no me julgo em condies de avaliar poemas. Eu no sou poeta. Assim, faltam-me as credenciais. E o pior: falta-me tempo. A Natlia, minha assessora, comentou 
dias atrs que, se eu fosse ler todos os textos que me so enviados para serem apreciados eu teria que abandonar tudo o que fao, deixar de escrever minhas coisas, 
e ler sem parar, 24 horas por dia, e ainda assim eu no daria conta... Razo por que eu nem mais aceito convites para participar de bancas de tese. O tempo no d! 
O tempo no d! O Drummond se viu em situao idntica e at escreveu um texto bravo com o ttulo Apelo
aos meus dessemelhantes em favor da paz. No, no era a paz mundial. Era a paz dele... Ele tambm no dava conta. Ele s queria ter tempo para escrever as coisas 
dele e ler os livros que quisesse... 
Lamento mas minha prioridade de vida  botar os meus ovos, escrever as coisas que me dem. Igual a um furnculo... Voc j teve furnculo? Incha, fica vermelho, 
lateja, di, forma aquele ponto amarelo de pus. Tem de ser espremido. Di para ser espremido. Mas  s atravs da dor do espremer que ele pra de doer. Escrever 
 assim. Um texto a ser escrito  um furnculo que di. Os seus poemas dem em voc? Ficam atormentando voc, pedindo para ser escritos? Ou so simples coceiras? 
S se meta a ser poeta se seus poemas doerem muito... Escrever poesia  um ofcio terrvel. Primeiro porque h poetas gigantescos como Fernando Pessoa, Hilda Hilst, 
Ceclia Meireles. Segundo, porque  muito difcil que as editoras publiquem livros de poemas.
Poesia, com rarssimas excees,  mau negcio. D prejuzo.
Seus poemas nascem de inspirao? Leia atentamente essa precisa descrio da experincia da inspirao, feita por Nietzsche e, honestamente, diga se esse  o seu 
caso. "Ser que algum, ao final do sculo dezenove, tem uma idia clara daquilo a que os poetas das eras fortes chamaram pelo nome de inspirao? Se no, vou descrev-la. 
Repentinamente, com certeza e sutileza indescritveis, algo se torna visvel, audvel, algo que nos sacode em nossas ltimas profundezas e nos lana por terra... 
A gente no busca; ouve. No pede ou d; aceita. Como um relmpago, um pensamento se ilumina de forma irresistvel, sem hesitaes com respeito  sua forma. Eu nunca 
tive
qualquer escolha! Tudo acontece de forma involuntria no mais alto grau, mas como uma onda enorme de liberdade, um sentimento de algo absoluto, de poder, de divindade." 
 assim que acontece com voc? 
Se  assim que acontece com voc, ento, vale a pena prosseguir. No pelos livros que voc venha a publicar, mas pela simples alegria de... botar o seu ovo... Mas 
 preciso honestidade para distinguir entre furnculos e coceiras...
O que melhor posso fazer  dar a voc, e a todos os que amam poesia, algumas sugestes.
Leia, em primeiro lugar, o maravilhoso livro de Rainer Maria Rilke Cartas a um jovem poeta. So cartas de enorme delicadeza, sensibilidade e honestidade. Rilke as 
escreveu a um jovem que lhe enviara poemas de sua autoria, pedindo que o poeta desse a sua opinio. Que tempo maravilhoso aquele, quando o tempo andava devagar, 
e havia tempo para se escrever longas cartas em papel, com tinta, caneta, mataborro, envelope, selo e caminhadas at o correio... Tempo feliz aquele, quando a chegada 
do carteiro era um evento grave, pois se sabia que cartas eram, sempre, portadoras do
essencial. 
Leia, depois, o Manoel de Barros, poeta matogrossense... Livro sobre nada, Livro de pr-coisas, Arranjos para assobio, O livro das ignornas... O Manoel da Barros 
 mestre de aforismos, afirmaes curtas, marteladas na cabea de um prego, que desarrumam o arrumado e fazem pensar. "Palavra potica tem que chegar ao grau de 
brinquedo para ser sria". "A terapia literria consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos." "Melhor que nomear  aludir. 
Verso no precisa dar noo." "Tem mais presena em mim o que me falta." "Quem acumula muita informao perde o condo de adivinhar." "Eu queria avanar para o comeo. 
Chegar ao acrianamento das palavras." "Deus deu forma. Os artistas
desformam.  preciso desformar o mundo: Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo. Fazer noiva camponesa voar - como em
Chagall..."
E ler, bovinamente, ruminantemente, em voz alta, os poetas...  preciso ler em voz alta. Poesia no  pensamento.  msica. Voc sabe ler? Claro: eu sei que voc 
sabe ler... Mas no  isso que estou perguntando. Estou perguntando se, ao ler, suas palavras fazem msica. E os seus poemas? Que msica fazem eles? Leia Alberto 
Caeiro, lvaro de Campos, Fernando Pessoa, Mrio Quintana, Adlia Prado, Ceclia Meireles, Hilda Hilst, Chico Buarque, Vincius...
Para terminar vou transcrever o que Rilke escreveu ao trmino de sua primeira carta: "Mas talvez se d o caso de ter o senhor de renunciar a se tornar poeta. Basta 
sentir que poderia viver sem escrever para no mais se ter o direito de faz-lo..."
DICA: Vocs sabem como eu amei o DAL, restaurante onde pus os meus sonhos. No deu certo. Fechei o DAL. Mas um amigo o reabriu. Est muito bom! Sugesto: experimente 
almoar l. Comida excelente. Buf  vontade! Msica suave. Sobremesa includa. Os homens pagam R$ 7,90. As mulheres... R$ 6,90. E tudo ao lado da sombra da velha 
mangueira...

OS TRS REIS
Gaspar era rei de Markash, o pas de mar azul e praias brancas. Nele moravam homens e mulheres de pele clara, cabelos negros e olhos castanhos. Aos seus portos chegavam 
navios de todo o mundo que vinham para vender suas mercadorias exticas. O comrcio acontecia em todos os lugares, nos mercados das grandes praas e nas pequenas 
lojas de uma porta s, em vielas estreitas. Gaspar, da torre do seu palcio, contemplava tudo. Como rei ele deveria sentir-se feliz: todos lhe eram agradecidos e 
todos o amavam. Mas, a despeito de tudo isso, havia no seu corao uma tristeza incurvel, nostalgia que mais doa quando o sol se punha sobre o mar incendiando 
as guas.
Por mais que se esforasse o rei no conseguia sorrir. Gaspar convocou ento os seus sbios e exps-lhes o seu sofrimento. Os sbios lhe disseram que o remdio para 
a tristeza  o conhecimento. "A cincia  uma fonte de alegria", eles lhe disseram. O rei mandou ento vir professores e cientistas de todo o mundo, importou livros, 
estabeleceu bibliotecas, montou laboratrios, construiu observatrios astronmicos. Por anos se dedicou  aprendizagem dos conhecimentos da cincia. Agora estava 
velho. Sabia tudo o que havia para ser sabido sobre o mundo. Mas a cincia no lhe trouxe alegria. Ele continuava sem saber sorrir.
Era madrugada. A luz do sol j iluminava o horizonte. O rei j estava desperto. Na varanda do seu palcio ele contemplava os cus estrelados. Foi ento que, olhando 
para o oriente, ele viu uma nova estrela, estrela que no se encontrava nos mapas dos cus que conhecia. Era uma estrela diferente porque, ao contempl-la, ele ouvia 
uma msica de indescritvel beleza que o fazia feliz. E ele sorriu pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir os sbios que ainda dormiam, e mostrou-lhe a estrela. 
Mas os sbios, olhando na direo que o rei indicara, nem viram estrela e nem ouviram a msica que ele dizia ouvir. Saram, ento, tristemente, convencidos de que 
o rei estava realmente velho. Os anos de senectude haviam chegado. Gaspar, indiferente  incredulidade dos sbios, ordenou que se preparasse um navio para uma grande 
viagem, na direo da estrela.
Balt-hazar era rei da Nbia, pas montanhoso onde moravam homens e mulheres de pele negra e brilhante. As montanhas da Nbia eram cobertas de vegetao luxuriante, 
rvores gigantescas, frutas as mais variadas, onde viviam pssaros de todos os tipos. Por todos os lugares se viam riachos de gua limpa, com remansos e cachoeiras. 
Era um pas belo e frtil. Balt-hazar, da janela do seu palcio contemplava as montanhas e florestas que se perdiam de vista e pensava: "O Paraso deve ter sido 
aqui..."
Entretanto, e a despeito da beleza e da fertilidade da terra, o rei no era feliz. Havia uma tristeza no seu corao, tristeza que ficava mais forte quando os pssaros 
cantavam seus cantos de final de tarde. O canto deles era belo e triste: o corao do rei era belo e triste...
O rei convocou os sacerdotes, videntes e profetas e falou-lhes sobre a sua tristeza. "De que me vale a beleza do meu pas se o meu corao est triste?", ele perguntou. 
Os homens santos lhe disseram que a tristeza era sinal de que sua alma estava distante de Deus. "Deus  uma fonte de alegria", eles lhe disseram. Balt-hazar, ento, 
mandou vir de terras longnquas, msticos e telogos que lhe ensinassem os caminhos para Deus. Contratou tambm arquitetos e artistas para construir novos templos. 
E comprou os livros sagrados de todas as tradies religiosas do mundo. Por anos a fio ele se dedicou s coisas sagradas: leu, meditou, orou... Por fim, chegaram 
os anos da velhice. Balt-hazar conhecia tudo o que os homens sabem sobre os caminhos que levam a Deus. Mas o seu corao continuava triste, mais triste ainda quando 
os pssaros cantavam ao entardecer...
J era madrugada. Balt-hazar, como de costume, levantou-se para as oraes. Ele orava olhando para os cus, morada dos deuses. Foi ento que, olhando para o horizonte, 
no lugar do sol nascente, ele viu uma estrela que nunca havia visto. Ao redor dela havia um arco-ris. Mas o estranho  que, ao contempl-la, ele ouvia uma msica 
de enorme beleza, semelhante  beleza do canto dos pssaros ao entardecer. S que, ao ouvi-la, seu corao no ficava triste. Ao contrrio; era inundado por uma 
alegria que nunca experimentara.
O rei mandou chamar os sacerdotes, msticos e profetas. "Vejam aquela estrela", disse ele apontando para o horizonte. "E ouam a msica que sai dela!" Os homens 
de Deus olharam na direo indicada mas nem viram estrela e nem ouviram msica. Deixaram ento o rei embriagado de alegria e comentaram, baixinho, entre si: "Nosso 
rei enlouqueceu. Isso quer dizer que o fim da sua vida est chegando..." Balt-hazar, entretanto, mandou preparar cavalos para uma longa viagem, na direo da estrela.
Mlek-hor era rei de Lagash, o pas dos desertos e das areias sem fim. L viviam mulheres de olhos amendoados e homens rudes de barba espessa. A sua alegria eram 
os osis que pontilhavam as areias com o verde das palmeiras e o frescor das fontes. Foi num desses osis que Mlek-hor construiu o seu palcio com enormes blocos 
de pedra branca na forma de uma pirmide. Pirmides, como se sabe, so figuras mgicas que garantem a imortalidade.
A aridez e solido da vida do deserto no o incomodavam. Na verdade, ele as considerava desafios para o corpo e para a alma. Mas havia uma coisa que o fazia sofrer: 
uma melancolia indefinvel que sentia ao contemplar os horizontes ondulados de areia que o sol poente pintava de vermelho.
O rei convidou seus amigos para um jantar e lhes falou sobre a sua melancolia. E eles lhe disseram: " compreensvel. Nosso pas  muito rido. O que lhe falta, 
 rei, so os prazeres da vida. Os prazeres o faro sorrir." Mlek-hor ento, importou prazeres de todas as partes do mundo: vinhos, frutas, iguarias, msicos, artistas, 
mulheres lindas... Por anos ele se dedicou aos prazeres que h. Nisso ningum o excedeu. Mas os prazeres no lhe trouxeram alegria. E ele, j velho, rezava em silncio: 
"No quero prazeres; quero alegria, quero alegria..."
A luz da madrugada anunciava que a noite chegava ao fim. O rei, do alto da sua pirmide, tomava uma taa de vinho. Era hbito seu contemplar o sol nascente: isso 
sempre lhe dera prazer. Mas o prazer da beleza sempre lhe vinha misturado com tristeza. Mas, desta vez, no sentiu tristeza. Espantou-se ao perceber que estava alegre. 
E a alegria lhe vinha de uma nova estrela nunca vista que brilhava no cu. E - curioso! - ao contemplar a estrela ele ouvia uma melodia que o enchia de felicidade. 
Mlek-hor sorriu ento pela primeira vez. Deslumbrado, mandou vir seus amigos. Apontou-lhes a estrela, falou-lhes sobre a msica. Mas eles, olhando para os cus, 
no viram a estrela e nem ouviram a msica. Amigos que eram, disseram ao rei: "Querido Mlek-hor, nosso rei amado: no h estrela, no h msica. Tua mente j no 
percebe as coisas da terra. Ela navega nas guas do grande rio, na direo da terceira margem... Choramos porque sabemos que ests de partida..." E tristemente se 
retiraram, entoando um silencioso requiem. Mas o rei, indiferente s palavras dos amigos, mandou preparar os camelos para uma viagem na direo da estrela.
Gaspar, vindo do norte, no seu navio, Balt-hazar, vindo do sul, em seu cavalo, Mlek-hor, vindo do oeste, em seu camelo: trs reis que no se conheciam. Agora, cada 
um do seu lugar, comeava uma viagem na direo de uma estrela que s eles viam e de uma msica que s eles ouviam.
Gaspar navegava em seu navio. Mas uma tempestade o arremessou contra recifes, despedaando-o. O rei, lanado  terra pela fora das ondas, continuou a p a sua jornada: 
o navegador se transformou em andarilho. E aconteceu que, depois de muito andar, chegou a uma encruzilhada para onde convergiam os quatro caminhos do mundo: o caminho 
que vinha do norte, o que vinha do sul, o que vinha do oeste e o quarto, que conduzia ao oriente, onde estava a estrela. Foi na estalagem "Os quatro caminhos do 
mundo" que os trs reis viajantes se encontraram. Descobriram, ento, que eram irmos: todos vinham da mesma nostalgia, todos caminhavam em busca da mesma alegria.
Continuaram, ento, juntos, a jornada at que, noite j chegada, chegaram a um vilarejo. "Que vilarejo ser esse?", perguntaram. "Beth-lhem": esse era o seu nome, 
gravado numa pedra. "Que estranho", disse Gaspar: "Aprendi tudo o que h para ser aprendido sobre reinos, provncias, cidades e vilas. Mas nunca vi esse nome em 
qualquer um dos livros que li". Balt-hazar acendeu sua lmpada de azeite e iluminou, com sua luz bruxoleante, o mapa que abrira sobre o cho. "Aqui est ela", ele 
disse marcando com o seu dedo um lugar no mapa. "Beth-lhem. Fica precisamente na divisa entre dois grande reinos.  esquerda est o Reino da Fantasia.  direita 
est o Reino da Realidade. So reinos perigosos. Quem mora s no Reino da Fantasia fica louco. Quem mora s no Reino da Realidade fica louco. Para se fugir da loucura 
h de se ficar transitando de um para outro, o tempo todo. Somente os moradores de Beth-lhem esto livres da necessidade de estar, o tempo todo, indo de um reino 
para outro. Porque Beth-lhem fica bem na divisa...
No vilarejo todos dormiam. Era uma noite de paz. O ar estava perfumado com flores de jasmim e magnlia. E havia um brilho no ar - milhares, milhes de vaga-lumes 
estavam pousados sobre as rvores. No ar, o som de uma flauta de pastor...
A estrela iluminava uma gruta. Os reis se aproximaram. Na gruta havia vacas, cavalos, burros, ovelhas. Era uma estrebaria. Mas, junto com os animais, uma pequena 
famlia: um jovem e uma jovem que amamentava um nenezinho recm-nascido. Era s isso. Nada mais.
Perceberam que haviam se enganado: no era a estrela que iluminava a cena. Era o nenezinho que iluminava a estrela. E olhando bem para ela puderam ver, nela refletido 
como num espelho, o rosto da criancinha. E disseram: "O universo  um bero onde uma criana dorme!"
A uma coisa estranha aconteceu: ao olhar para o nenezinho os reis perdiam a sua compostura real; eram dominados por uma vontade incontrolvel de rir. E quando riam, 
ficavam leves e comeavam a flutuar. Era assim: quem visse o menino se transformava em anjo...
Os reis, em meio aos risos e vos, olharam cada um para o outro e disseram: "Nossa busca chegou ao fim. Encontramos a alegria. Para se ter alegria  preciso voltar 
a ser criana..." Ato contnuo tomaram suas coroas, capas de veludo, dinheiro, ouro, jias - coisas de adulto - e as depuseram no cho, ao lado das vacas e dos burros... 
Eram pesadas demais. E partiram leves, ora andando, ora pulando, ora voando, mas sempre rindo.
"Vou mudar de vida", disse Gaspar. " horrvel ter de estar estudando cincia o tempo todo. Vou me transformar em poeta..."
"Eu tambm vou mudar de vida", disse Balt-hazar. " horrvel estar rezando o tempo todo. Vou ser palhao. O riso  o incio da orao".
Ao que Mlek-hor acrescentou: "E eu descobri o prazer supremo, que vem sempre acompanhado de alegria: brincar. Vou ser um fabricante de brinquedos. Quem brinca volta 
a ser criana. E quem volta a ser criana est de volta ao Paraso."
E assim partiram, cada um por um caminho. E se voc, nas suas andanas, se encontrar com um poeta, um palhao ou um fabricante de brinquedos, pergunte se ele no 
tem notcias de uns trs reis...

A BISAV
Minhas netas: hoje  o dia das mes. Vou falar sobre a minha me, sua bisav, que vocs no chegaram a conhecer. Ela morreu antes de vocs nascerem.
Para falar sobre a minha me eu vou dar uma explicao inicial. Gosto de escrever. Especialmente para crianas. Tanto para crianas como vocs quanto para as crianas 
que moram, escondidas, dentro dos adultos. Se eles deixassem as crianas que moram neles sair do lugar onde esto presas, eles poderiam brincar e ficar mais bonitos. 
Escrevendo, eu uso sempre "metforas". O nome  difcil mas  fcil explicar. Metfora  quando, olhando para uma coisa, a gente v outra. Neruda, poeta, olhou para 
uma cebola e viu que ela se parecia com uma "rosa de gua com escamas de cristal!". Ora, cebola  cebola. No  rosa. Mas o poeta viu, na cebola, uma rosa. Ceclia 
Meireles pensou sobre a vida dela e viu um barco navegando por um mar sem fim. Ora, a vida no  um barco navegando. Mas a poeta viu, na prpria vida, um barco a 
navegar no mar azul... 
Pois eu vou usar uma metfora que vocs, a princpio, no entendero - mas entendero, porque toda criana tem olhos e imaginao de poeta: no tempo da minha me, 
sua bisav, as mulheres eram como rvores. Agora, elas se parecem com pssaros... 
Vocs se lembram da estria da Cinderela. O nome antigo era "Gata Borralheira". Vejam: dizer que uma menina  "gata borralheira"  uma metfora. Ela era uma menina; 
no era uma gata. Peam ao seu pai ou sua me que explique para vocs a razo dessa metfora. Borralheira  que gosta de borralho. Sabem o que  borralho? Borralho 
so as cinzas quentes que ficam no fogo de lenha, depois de apagado o fogo... Pois a estria moderna daquela menina triste, do Walt Disney, conta que ela tinha 
uma "Fada Madrinha"... Na estria original - muito antiga - no havia nenhuma "Fada Madrinha". Era diferente. A me da menina havia morrido. E agora ela estava nas 
garras de uma madrasta malvada e duas filhas invejosas que a mantinham presa na cozinha - perto do borralho. Abandonada... No, no, no! No estava abandonada. 
Mesmo morta, a sua me continuava a proteg-la. Quem a protegia no era uma Fada Madrinha; era a sua me! E sabem como ela a ajudava? Ela, me, morava numa rvore 
que a menina plantara no quintal da casa. A rvore estava sempre cheia de pssaros. Os pssaros eram os anjos da me. Eram os pssaros que ajudavam a Gata Borralheira... 
As mulheres, nos tempos antigos, nos tempos da minha infncia, eram rvores. 
No meu stio, l em Pocinhos do Rio Verde, tenho rvores plantadas para todos os meus amigos que morreram. Plantei tambm uma rvore para a minha me. Ainda no 
plantei uma rvore para o meu pai porque ainda no encontrei a rvore-metfora que se parece com ele. Como pode uma rvore se parecer com uma pessoa? Pode. Para 
o meu pai, escolhi uma laranjeira. Meu pai adorava chupar laranjas. Ele ia descascando as laranjas com incrvel tcnica, sem jamais ferir a laranja. Laranja com 
casca ferida  ruim de chupar. As cascas inteiras, ele ia pendurando no brao esquerdo. Cascas de laranja, secas, so um combustvel maravilhoso. Eram usadas, de 
manh, na feitiaria de acordar as brasas para acender o fogo, como j expliquei. Essas laranjeiras modernas, enxertos, no so laranjeiras de verdade. rvores ans, 
mirradas - as laranjas ao alcance da mo. 
Para ser metfora do meu pai a laranjeira tem de ser das antigas, que demoravam para crescer e ficam altas, as laranjas amarelas l no alto! Era preciso subir na 
laranjeira para apanhar as laranjas. Era o que eu fazia com meus amigos. Subamos na laranjeira e chupvamos sem parar. Cada um com seu canivetinho. J havamos 
aprendido a arte de descascar laranjas como o meu pai. Eram tantas as laranjas que chupvamos que ficvamos com vontade de fazer xixi. Pois no havia problema: fazamos 
xixi do alto das laranjeiras e morramos de dar risada, vendo o xixi cair e se empoar na terra. Essa  uma das vantagens de ser homem: fazer xixi do alto de uma 
laranjeira... Quando eu encontrar uma muda das laranjeiras antigas plantarei como metfora do meu pai. E ento, os passarinhos, especialmente os sanhaos azuis, 
anjos dele, viro chupar as laranjas. 
Para minha me plantei um p de camlia. Camlias so flores lindas - to perfeitas, alguma brancas, outras vermelhas. Fui a Santiago de Compostela, no norte da 
Espanha. Dizem que Deus, em Santiago,  mais forte que em outros lugares. Por essa razo, os que acreditam fazem longas peregrinaes a p para chegar at l, onde 
se encontra uma gigantesca catedral. No fui a p. Fui de carro. Visitei a catedral. No me senti mais perto de Deus. Me senti mais longe. Uma construo feia, pesada, 
escura. Me deu tristeza. Mas, saindo triste da catedral, entrei nos imensos parques que h por l. Tudo era luz, cor, leveza, pssaros voando e cantando, a vida 
explodindo em todos os lugares. Fiquei inundado de alegria. 
O Criador, no Paraso no fez nenhuma catedral. Se gostasse teria feito. Plantou rvores. Camlias... Nos parques fora da catedral havia camlias por todos os lados 
- rvores enormes, cobertas de flores. Sempre que vejo a beleza surgindo me sinto prximo de Deus. Deus  beleza mansa. Sugiro que, no futuro, se faam peregrinaes 
a Santiago de Compostela para se ver as camlias. Porque se So Tiago foi enterrado por l, como se diz, garanto que ele no est dentro daquela igreja escura. Est 
 passeando pelos parques. Os passarinhos e as flores so os Anjos de So Tiago! 
Eu olhava para as camlias e me lembrava da camlia que plantei para a minha me... 
Disse que antigamente as mulheres se pareciam com rvores. As rvores no saem do lugar. Crescem onde plantamos. Indefesas. No reagem, no fogem, no gemem - nem 
mesmo quando so cortadas a machado. Pois assim eram as mulheres: nasciam e pelo resto de suas vidas teriam de obedecer aos homens. Primeiro, tinham de obedecer 
as ordens do pai. Depois, tinham de obedecer as ordens do marido. Carlos Gomes fez at uma cantiga de conselhos para uma jovem que queria se casar e ele a advertia 
de que, com isso ela iria perder a liberdade: " a vontade ao marido h de fazer, que esse dever o casamento traz..". Na verdade, nem antes de casar elas estavam 
livres. Estavam  merc da vontade dos pais. Era o pai que decidia se ela devia se casar, quando e com quem. E nem tinham a liberdade de se decidir por uma profisso. 
Lugar de mulher era na casa, no fogo, na mquina de costura. As mulheres no eram donas do seu corpo, no mandavam no seu destino. rvores  merc da vontade do 
jardineiro, sem poder fugir... Como gostariam de ser pssaros, e voar para longe, longe... 
No podendo ser pssaros, as rvores do flores. Flores so os pssaros das rvores. Flores so vos que no conseguiram voar e se cristalizaram em beleza e perfume. 
Quem d uma flor a algum est lhe dando um desejo de voar. 
Minha me era uma rvore que queria voar e no podia. A, como a camlia, ela comeou a dar flores. As flores que minha me dava apareciam sob a forma de msica. 
Menino, eu a ouvia estudando piano horas seguidas. Enquanto tocava piano ela voava pelo mundo da beleza que nem pai e nem marido podiam impedir: a alma  livre. 
Por que uma pessoa gosta de msica? Eu acho que uma pessoa gosta de msica, primeiro, porque a msica j nasce com a gente. Ela est l, no fundo da alma, dormindo. 
Mas  necessrio que haja algum que desperte essa "Bela Adormecida". No caso de minha me, eu suspeito que tenha sido um professor de piano... Ah! os professores 
de piano, seres perigosos, sedutores... O Vincius de Moraes comps uma msica malandra chamada "Aula de Piano" que colocaram, indevidamente, junto com as canes 
infantis da "Arca de No". 
Minha me, vez por outra, se referia ao seu professor de piano. O nome dela era Riciotti - nem sei se  assim que se escreve. Vi uma foto dele. Msculo. Tinha bigodes 
torcidos, voltados para cima. Fantasiar no faz mal... Fantasio que minha me, adolescente, ficou apaixonada por ele. Tenho mesmo a suspeita de que ele a amou e 
chegou mesmo a compor uma valsa para ela: "Ela aos quinze anos". Se estou errado, meus irmos que me corrijam. Mas, como diz o ditado italiano, "se no  verdadeiro, 
foi bem imaginado". Como no filme "Festa de Babette" - a jovem ficou apaixonada pelo professor de canto. Proibidos de amar pelo pai e dono dela, eles faziam declaraes 
de amor cantando duetos apaixonados de pera! Gosto de imaginar que tenha sido assim. 
Professor de msica! Pobreto. Meu av, trisav de vocs, Capito Evaristo, rico comerciante dono de sobrado colonial e carro importado jamais iria permitir que 
filha sua se casasse com um pobreto. Minha me se casou com meu pai, seu bisav, um homem muito bom, divertido, manso, que no tinha cultura musical, mas era rico. 
Depois, como eu j contei, ele ficou pobre... "Carminha" - ele dizia com carinho - "toque uma daquelas valsinhas boas pr dormir." Minha me atendia o seu pedido 
inocente, interrompia a balada em sol de Chopin e tocava a valsinha. Logo ele dormia como uma criana... 
Minha me era uma camlia mansa cujas flores eram a msica. H determinadas peas que, ao ouvir, sempre me lembro dela. Se vocs quiserem conhecer um pouco a alma 
da sua bisav,  s pedir, e eu colocarei para tocar os CDs com as msicas que ela amava. 
Outro jeito que as mulheres-rvores tinham de florir eram os filhos. Se elas no podiam voar de verdade, voavam imaginando os filhos voando. Viviam uma vida simples, 
modesta, sempre plantadas no cho - e eram sempre uma sombra e um colo onde os filhos tristes encontravam conforto. Especialmente nas coisas gostosas que s as mes 
sabiam fazer na cozinha. Fazer o prato predileto do filho: era o jeito que elas tinham de dizer s noras: "Voc nunca tomar o meu lugar!" 
Claro, havia umas mulheres revoltadas por no poder voar. Viravam cactus, s espinho. E os filhos sofriam. Minha av era assim - que Deus a tenha. Mas no minha 
me, que aprendeu ternura com uma velha escrava chamada Ii. Por vezes as mes verdadeiras no so as mes de barriga - so as mes de corao. 
As mulheres, hoje, se cansaram de viver para fazer vontade de pai e de marido. Esto se transformando em pssaros: querem voar - determinar o seu destino, ser donas 
de suas vidas. Liberdade: esse  um direito de todo ser humano. 
Quando vocs tiverem a minha idade e forem escrever sobre suas mes, ao invs de dizer que elas eram rvores vocs diro que elas eram pssaros! E como os pssaros 
so belos no seu vo! Podem ser suaves como as gaivotas ou terrveis como os gavies... Mas mesmo os pssaros precisam de uma rvore onde descansar e fazer os seus 
ninhos... 
Hoje, dia das mes, brinque de ser poeta. D, como presente  sua me, uma metfora potica. De todas as flores e plantas que voc conhece, qual  aquela que mais 
se parece com ela? Que flor ou rvore voc plantaria para nela ela venha a morar, um dia? H uma grande variedade que vai dos delicados jasmins do imperador at 
os cactus... Mas pode ser que sua me seja um pssaro!
 
"Diz-se que para que um segredo no nos devore  preciso diz-lo em voz alta no sol de um terrao ou de um ptio. Essa  a misso do poeta: trazer para a luz e para 
o exterior o medo." Sophia de Mello Breyner, poeta portuguesa. (Citado no livro "Clube dos Poetas Vivos - Oficina de Poesia, do Centro de Formao Camilo Castelo 
Branco, Vila Nova de Famalico, Portugal). 
Ateno, especialmente os terapeutas: " Creio que dizer uma coisa  conservar-lhe a virtude e tirar-lhe o terror." (Bernardo Soares - Fernando Pessoa) 


DEUS EXISTE?

De vez em quando algum me pergunta se eu acredito em Deus. E eu fico mudo, sem dar resposta, porque qualquer resposta que desse seria mal entendida. O problema 
est nesse verbo simples, cujo sentido todo mundo pensa entender: acreditar. Mesmo sem estar vendo, eu acredito que existe uma montanha chamada Himalaia, e acredito 
na estrela Alfa Centauro, e acredito que dentro do armrio h uma rstia de cebolas... Se eu respondesse  pergunta dizendo que acredito em Deus, eu o estaria colocando 
no mesmo rol em que esto a montanha, a estrela, a cebola, uma coisa entre outras, no importando que seja a maior de todas.
Era assim que Casemiro de Abreu acreditava em Deus, e todo mundo decorou e recitou o seu poema teolgico: "Eu me lembro... Era pequeno... O mar bramia, e erguendo 
o dorso altivo sacudia a branca espuma para o cu sereno. E eu disse  minha me naquele instante: 'Que dura orquestra/ Que furor insano/ Que pode haver maior que 
o oceano ou mais forte que o vento?' Minha me a sorrir olhou para os cus e respondeu: 'Um Ser que ns no vemos/  maior que o mar que ns tememos,  mais forte 
que o tufo, meu filho:  Deus.'"
Ritmos e rimas so perigosos porque, com freqncia, nos levam a misturar razes ruins com msica ruim. Deixados de lado o ritmo e as rimas, o argumento do poeta 
se reduz a isso: Deus  uma "coisona" que sopra qual ventania enorme, e um marzo que d muito mais medo que esse mar que est a. Ora, admito at que coisona tal 
possa existir. Mas no h argumento que me faa am-la. Pelo contrrio, o que realmente desejo  v-la bem longe de mim. Quem  que gostaria de viver no meio da 
ventania navegando num mar terrvel? Eu no...
 preciso, de uma vez por todas, compreender que acreditar em Deus no vale um tosto furado. No, no fiquem bravos comigo. Fiquem bravos com o apstolo Tiago, 
que deixou escrito em sua epstola sagrada: "Tu acreditas que h um Deus. Fazes muito bem. Os demnios tambm acreditam. E estremecem ao ouvir o Seu nome..." (Tiago 
2,19). Em resumo, o apstolo est dizendo que os demnios esto melhor do que ns porque, alm de acreditar, estremecem... Voc estremece ao ouvir o nome de Deus? 
Duvido. Se estremecesse, no o repetiria tanto, por medo de contrair malria...
Enquanto escrevo, estou ouvindo a sonata Appassionata, de Beethoven, a mesma que Lenin poderia ouvir o dia inteiro, sem se cansar, e o seu efeito era tal que ele 
tinha medo de ser magicamente transformado em alegria e amor, sentimentos incompatveis com as necessidades revolucionrias (o que explica as razes por que ativistas 
polticos geralmente no se do bem com msica clssica). Se eu pudesse conversar com o meu cachorro e lhe perguntasse: Voc acredita na Appassionata? - ele me responderia: 
Pois  claro. Acha que eu sou surdo? Estou ouvindo. E, por sinal, esse barulho est perturbando o meu sono.
Mas eu, ao contrrio do meu cachorro, tive vontade de chorar por causa da beleza. A beleza tomou conta do meu corpo, que ficou arrepiado: a beleza se fez carne.
Mas eu sei que a sonata tem uma existncia efmera. Dentro de poucos minutos s haver o silncio. Ela viver em mim como memria. Assim  a forma de existncia 
dos objetos de amor: no como a montanha, a estrela, a cebola, mas como saudade. E eu, ento, pensarei que  preciso tomar providncias para que a sonata ressuscite 
de sua morte...
Leio e releio os poemas de Ceclia Meireles. Por que releio, se j os li? Por que releio, se sei, de cor, as palavras que vou ler? Porque a alma no se cansa da 
beleza. Beleza  aquilo que faz o corpo tremer. H cenas que ela descreve que, eu sei, existiro eternamente. Ou, inversamente, porque existiam eternamente, ela 
as escreveu. "O crepsculo  este sossego do cu/ com suas nuvens paralelas/ e uma ltima cor penetrando nas rvores/ at os pssaros./ E esta curva de pombos, rente 
aos telhados,/ e este cantar de galos e rolas, muito longe;/ e, mais longe, o abrolhar de estrelas brancas,/ ainda sem luz."
Que existncia frgil tem um poema, mais frgil que a montanha, a estrela, a cebola. Poemas so meras palavras, que dependem de que algum as escreva, leia, recite. 
No entanto, as palavras fazem com o meu corpo aquilo que universo inteiro no pode fazer.
Fui jantar com um rico empresrio, que acredita em Deus, mas me disse no compreender as razes por que puseram o retrato da Ceclia Meireles, uma mulher velha e 
feia, numa cdula do nosso dinheiro. Melhor teria sido retrato da Xuxa. Do ponto de vista da existncia ele estava certo. A Xuxa tem mais realidade que a Ceclia. 
Ela tem uma densidade imagtica e monetria que a Ceclia no tem e nunca quis ter. A Ceclia  um ser etreo, semelhante s nuvens do crepsculo,  espuma do mar, 
ao vo dos pssaros. E, no entanto, eu sei que os seus poemas vivero eternamente. Porque so belos.
A Beleza  entidade voltil - toca a pele e rpido se vai.
Pois isso a que nos referimos pelo nome de Deus  assim mesmo: um grande, enorme Vazio, que contm toda a Beleza do universo. Se o vaso no fosse vazio, nele no 
se plantariam as flores. Se o copo no fosse vazio, com ele no se beberia gua. Se a boca no fosse vazia, com ela no se comeria o fruto. Se o tero no fosse 
vazio, nele no cresceria a vida. Se o cu no fosse vazio, nele no voariam os pssaros, nem as nuvens, nem as pipas...
E assim, me atrevendo a usar a ontologia de Riobaldo, eu posso dizer que Deus tem de existir. Tem Beleza demais no universo, e Beleza no pode ser perdida. E Deus 
 esse Vazio sem fim, gamela infinita, que pelo universo vai colhendo e ajuntando toda a Beleza que h, garantindo que nada se perder, dizendo que tudo o que se 
amou e se perdeu haver de voltar, se repetir de novo. Deus existe para tranqilizar a saudade.
Posso ento responder  pergunta que me fizeram.  claro que acredito em Deus, do jeito como acredito nas cores do crepsculo, do jeito como acredito no perfume 
da murta, do jeito como acredito na beleza da sonata, do jeito como acredito na alegria da criana que brinca, do jeito como acredito na beleza do olhar que me contempla 
em silncio. Tudo to frgil, to inexistente, mas me faz chorar. E se me faz chorar,  sagrado.  um pedao de Deus... Dizia o poeta Valry: Que seria de ns sem 
o socorro daquilo que no existe?
(Correio Popular, 13/04/1997)



DEUS EXISTE?

Os pesquisadores, com rigorosos mtodos estatsticos, constataram que 99% da populao brasileira acredita na existncia de Deus. Coisa extraordinria, a religiosidade 
da nossa gente! Assim publicou uma de nossas revistas mais respeitadas. Pena que no me tivessem consultado: disponho de outros dados estatsticos que muito contribuiriam 
para uma compreenso ainda maior dessa f maravilhosa do nosso povo. E os dados de que disponho, absolutamente fidedignos, nos informam que 100% da populao dos 
infernos, todos os diabos e demnios, sem exceo, tambm acreditam em Deus. No s acreditam mas estremecem ao ouvir o seu nome. 

Essa quase coincidncia, 99% da populao brasileira e 100% da populao dos infernos, no pode ser acidental. A estatstica no faz lugar para coincidncias dessa 
ordem. De alguma forma deve haver tneis secretos que permitem comunicao e trnsito entre as duas populaes. Ah! Que fascinante tese de teologia ou de sociologia 
da religio daria a comparao desses dados! Infelizmente j estou velho demais para empreender pesquisa de tal monta; mas ofereo meus servios de orientador de 
tese para quem se dispuser a aceitar o desafio. 

A tal pesquisa me segregou. Fiquei de fora. No entendi a pergunta. Portanto, no dei resposta. Confesso, envergonhado, que no entendo aquilo que todo mundo entende: 
"Voc acredita que Deus existe?"  s dizer sim ou no. Pois eu no consigo. Eu acredito que existe uma montanha chamada Himalaia, embora nunca a tenha visto. Me 
disseram. Acredito tambm que existe um vrus chamado HIV, que produz AIDS. Nunca vi. Me disseram. Acredito que existe um cavalo manga-larga que um amigo rico me 
deu de presente, embora nunca o tenha visto, pois no adianta ter o cavalo se no tenho o pasto. Para essas coisas eu entendo o uso do verbo acreditar. Mas eu no 
consigo pr Deus ao lado do Himalaia, do HIV e do manga-larga. No  nesse espao que mora o meu Deus. No  a que o procuro. 

E "Deus"? Que  que as pessoas imaginam quando essa palavra  pronunciada? O que  essa entidade, cuja existncia eles afirmam? Um Ser Todo poderoso, olho imenso, 
sempre aberto, Deus v tudo, tem at gente que vira a imagem da santa para a parede quando vai transar, transar com aquele olho vigiando a gente?, se voc for obediente 
ele vai proteg-lo, se no for obediente a vingana  certa, nessa vida e na futura, pois ele administra uma cmara de torturas chamada inferno, da qual nunca se 
sai, e tambm cmaras de tortura menores espalhadas pelos planetas, onde se sofre para pagar pecados e evoluir. Quando Deus v o sofrimento dos homens ele fica feliz, 
por isso  preciso, na pesquisa, dizer que acredito que ele existe pois, caso contrrio,  possvel que ele mande uma peste, morte de filho, perda de emprego, como 
castigo pela incredulidade - ai, ai, minha razo est comeando a sentir nuseas, acho que vou vomitar... 

Sim, sim, o povo brasileiro  muito religioso. No  para menos: ouvindo sermo cristo por quatrocentos anos... 

A eu me sinto mpio pois tenho de dizer que no acredito em nada disso. Primeiro, no acredito que Deus seja um ser, no importa o tamanho, que mora ao lado do 
Himalaia, do HIV e do manga-larga. Depois, no acredito que Deus seja o que dizem dele. Quanto a esse Deus, confesso: sou ateu. 

Mas h uma coisa estranha que mora dentro de mim. No, no  um "ser" -  um sentimento que existe precisamente no "vazio do ser", e que se faz sentir como uma mistura 
de beleza e tristeza. No "vazio"? Mas o "vazio"  o "no ser", aquilo que no existe! No existe como o Himalaia, como o HIV, como o cavalo manga-larga. Na pesquisa 
ningum entenderia se houvesse uma pergunta sobre um vazio que mora na alma. A sutileza no  uma das virtudes dos socilogos e seus mtodos estatsticos. 

No entanto, nesse lugar vazio, que no existe, moram muitas palavras, muitos gestos. Valry: "Que seria de ns sem o auxlio daquilo que no existe?" Que felicidade 
saber que no estou sozinho: tambm Valry no conseguiria responder a pergunta! A alma humana  um vazio - um abismo, disse lvaro de Campos. Muitos sentimentos 
que moram no vazio. "Saudade  o revs do parto.  arrumar o quarto para o filho que j morreu". O quarto est vazio. Nada, absolutamente nada, vir ench-lo. E 
eu pergunto: Que me ama mais? Aquela que arruma o quarto porque acredita que o filho est em algum lugar e vai chegar (na pesquisa ela disse que acredita que Deus 
existe) ou aquela que arruma o quarto sabendo que o filho no vai chegar?  isso que torna bela a alma humana: que ela se abra para o infinito vazio e para ele dirija 
os seus gestos e as suas palavras. 

"O que me di no  
o que h no corao 
mas essas coisas lindas 
que nunca existiro... 
So as formas sem forma 
que passam sem que a dor 
as possa conhecer 
ou as sonhar o amor. 
So como se a tristeza 
fosse rvore e, uma a uma, 
cassem suas folhas 
entre o vestgio e a bruma..." 

Tambm meu querido Fernando Pessoa no conseguiria responder  pergunta do pesquisador. Ele ficaria, comigo e com o Valry, segregado no 1% dos descrentes... 

As palavras ditas para o infinito vazio se chamam poesia. Os gestos feitos em direo ao infinito vazio se chamam arte. Poesia e arte so orao: rituais mgicos 
de bruxedo para trazer  existncia, do vazio, os deuses que no existem. Quando esses deuses se tornam visveis, eles assumem a forma de beleza. 

Minha filha Raquel tinha cinco anos. Fomos ver o E.T.. Ao final ela chorava convulsivamente. Continuou a chorar durante a tarde e durante o lanche. Resolvi consol-la. 
"Raquel, vamos ao jardim para ver se conseguimos achar a estrelinha do E.T.!" Ela me seguiu. Mas o tempo mudara: o cu estava coberto de nuvens. No entreguei os 
pontos. Corri para trs de uma palmeira e disse: "Raquel, corra! O E.T. est aqui!" Ela me respondeu, seca: "No seja bobo, papai. O E.T. no existe!" Retruquei: 
"Ah! No existe? Por que razo, ento, voc est chorando?" "Por isso mesmo, papai. Porque ele no existe!" 

O meu Deus  assim: uma nostalgia imensa dentro da alma, diante do vazio. Se me perguntarem: "Voc acredita que Deus existe?" - responderei. "No sei. Mas quero 
que ele exista. Por qu? Para eu me curar dessa saudade! Para que "essas coisas lindas, que nunca existiro" venham a existir. Para que a sonata de Beethoven se 
faa ouvir, eternamente, entre as estrelas. Para que a beleza triste do outono e dos pores-de-sol se repita sempre, como um canon sem fim. Para que os foges de 
lenha sejam de novo acesos. Para que as paineiras voltem a florescer. Para que todos voltemos a ser crianas e balancemos nos balanos. Para que a minha cadelinha 
renasa e volte a brincar comigo. E para que uma imensa esponja, embebida em esquecimento, seja passada sobre os detritos fedorentos que sujam o mundo, sob o disfarce 
de rostos humanos. Que no haja um inferno, mas apenas um abismo de esquecimento. 

A Adlia responderia, mas os socilogos no considerariam a sua resposta: "Vs existis,  Deus, porque a beleza existe!" 

Volto  minha orao. Ponho de novo, para tocar, o Preldio, coral e fuga, de Csar Franck. Ouvindo essa obra maravilhosa me rio da pergunta tola dos socilogos. 
Como duvidar que Deus exista? Precisamente nesse momento eu estou possudo: ele tomou conta do meu corpo. E eu rio e choro, rezando: " chama de vela que logo apaga, 
mas que seja eterna como as estrelas..." 

(Transparncias da eternidade, Verus, 2002)



Memrias burras nunca esquecem
 duvidoso que um professor que h anos se dedica a pesquisas de biologia molecular ainda se lembre de como resolver problemas estatsticos de gentica. Tambm os 
professores dos cursinhos: cada um passaria brilhantemente na disciplina de sua especialidade. Mas tambm  duvidoso que um professor de portugus consiga resolver 
problemas de qumica ou fsica. Com eles, os professores que elaboram as questes que os alunos tero de responder. Para eles, vale o que foi dito sobre os professores 
dos cursinhos. Por fim, os diretores das empresas que preparam os vestibulares...
Essa hiptese desaforada poderia ser testada facilmente: bastaria que os personagens acima mencionados se submetessem aos vestibulares. Claro: seria proibido que 
se preparassem. O objetivo seria testar o que foi realmente aprendido. O que foi realmente aprendido  aquilo que sobreviveu  ao purificadora do esquecimento. 
O aprendido  aquilo que fica depois que o esquecimento faz o seu trabalho...
Vestibular: porta de entrada para a universidade? Seria bom se sua funo se limitasse a isso. O sinistro est no no que  dito, mas no que permanece no dito: 
os vestibulares so um drago devorador de inteligncias cuja sombra se alonga para trs, cobrindo adolescentes e crianas.
Desde cedo, pais e escolas sabem que a escola deve preparar para os vestibulares. Os vestibulares, assim, determinam os padres de conhecimento e inteligncia a 
serem cultivados. Mas no existe nada mais contrrio  educao que os padres de conhecimento e inteligncia que os vestibulares estabelecem.
O escritor Mrio Prata escreveu uma crnica sobre as meninas jogadoras de vlei. Era uma crnica leve, bem-humorada, picante. Era impossvel no sorrir ao l-la. 
Lida, ficava para sempre na memria, pois a memria guarda o que deu prazer. Passados alguns meses, ele voltou ao assunto da primeira numa crnica dirigida, se no 
me engano, ao ento senhor ministro da Educao.  que sua primeira crnica fora usada, na ntegra, num exame vestibular.
Para um escritor, ter uma crnica transcrita, na ntegra, num exame vestibular, equivale a uma consagrao. Mrio Prata estava felicssimo. Exceto por um detalhe: 
os examinadores, para transformar sua crnica em objeto de exame, prepararam uma srie de questes sobre ela, cada uma com vrias alternativas de resposta. Mrio 
Prata resolveu, ento, brincar de vestibulando. Tentou responder s questes. No acertou uma! (Eu me sa pior do que ele. Tentei responder s questes, mas houve 
algumas que nem mesmo entendi!)
Se o vestibular fosse para valer, ele teria zerado no texto que ele mesmo escrevera. Ele se dirigiu, ento, ao senhor ministro da Educao comentando esse absurdo. 
E perguntou se no teria sido muito mais inteligente se os examinadores, gramticos, tivessem pedido que os moos escrevessem um pargrafo sobre seu artigo. Aqueles 
saberes esotricos que lhes eram pedidos nunca teriam qualquer uso em suas vidas. Compreende-se que, como resultado do seu preparo para os vestibulares, os jovens 
passem a detestar literatura.
Minha filha queria ser arquiteta. Como no havia outro caminho, matriculou-se num cursinho. Eu a via sofrer tendo de memorizar coisas que no lhe faziam sentido. 
Fiquei com d e, por solidariedade, resolvi fazer um sacrifcio: passei a estudar com ela. Estudei meiose e mitose, as causas da Guerra dos Cem Anos, cruzamento 
de coelhos brancos com coelhos pretos... Estudei tambm, contra a vontade e sem interesse, a necropsia da lngua chamada anlise sinttica. No sei para que serve. 
E dizia  minha filha,  guisa de consolo: "Voc tem de aprender essas coisas que voc no quer aprender porque a burocracia oficial assim determinou. Mas no se 
aflija. Passados dois meses, quase tudo ter sido esquecido. S sobraro os conhecimentos que fazem sentido...". Pergunto a voc, meu leitor: de tudo o que voc 
teve de estudar para passar no vestibular, o que sobrou?
Por que ns, professores universitrios, no passaramos no vestibular? Por termos memria fraca? No. Por termos memria inteligente. Burras no so as memrias 
que esquecem, mas as memrias que nada esquecem... A memria inteligente esquece o que no faz sentido. A memria viaja leve. No leva bagagem desnecessria.
E a eu pergunto: se ns, professores j dentro da universidade, no passaramos nos exames vestibulares, por que  que os jovens, que ainda esto fora, tm de passar? 
 irracional. Especialmente em se considerando que ir acontecer com eles aquilo que aconteceu conosco: esquecero... Haver uma justificao pedaggica para esse 
absurdo? Ainda no a encontrei.

"O BOM SAMARINATO"  OU " O BOM TRAVESTI"
E perguntaram a Jesus: "Quem  o meu prximo?" E ele lhes contou a seguinte parbola:
Voltava para sua casa, de madrugada, caminhando por uma rua escura, um garom que trabalhara at tarde num restaurante. Ia cansado e triste. A vida de garom  muito 
dura, trabalha-se muito e ganha-se pouco. Naquela mesma rua dois assaltantes estavam de tocaia,  espera de uma vtima. Vendo o homem assim to indefeso saltaram 
sobre ele com armas na mo e disseram: "V passando a carteira". O garom no resistiu. Deu-lhes a carteira. Mas o dinheiro era pouco e por isso, por ter to pouco 
dinheiro na carteira, os assaltantes o espancaram brutalmente, deixando-o desacordado no cho.
s primeiras horas da manh passava por aquela mesma rua um padre no seu carro, a caminho da igreja onde celebraria a missa. Vendo aquele homem cado, ele se compadeceu, 
parou o caro, foi at ele e o consolou com palavras religiosas: "Meu irmo,  assim mesmo. Esse mundo  um vale de lgrimas. Mas console-se: Jesus Cristo sofreu 
mais que voc." Ditas estas palavras ele o benzeu com o sinal da cruz e fez-lhe um gesto sacerdotal de absolvio de pecados: "Ego te absolvo..." Levantou-se ento, 
voltou para o carro e guiou para a missa, feliz por ter consolado aquele homem com as palavras da religio.
Passados alguns minutos, passava por aquela mesma rua um pastor evanglico, a caminho da sua igreja, onde iria dirigir uma reunio de orao matutina. Vendo o homem 
cado, que nesse momento se mexia e gemia, parou o seu carro, desceu, foi at ele e lhe perguntou, baixinho: "Voc j tem Cristo no seu corao? Isso que lhe aconteceu 
foi enviado por Deus! Tudo o que acontece  pela vontade de Deus! Voc no vai  igreja. Pois, por meio dessa provao, Deus o est chamando ao arrependimento. Sem 
Cristo no corao sua alma ir para o inferno. Arrependa-se dos seus pecados. Aceite Cristo como seu salvador e seus problemas sero resolvidos!" O homem gemeu mais 
uma vez e o pastor interpretou o seu gemido como a aceitao do Cristo no corao. Disse, ento, "aleluia!" e voltou para o carro feliz por Deus lhe ter permitido 
salvar mais uma alma.
Uma hora depois passava por aquela rua um lder esprita que, vendo o homem cado, aproximou-se dele e lhe disse: "Isso que lhe aconteceu no aconteceu por acidente. 
Nada acontece por acidente. A vida humana  regida pela lei do karma: as dvidas que se contraem numa encarnao tm de ser pagas na outra. Voc est pagando por 
algo que voc fez numa encarnao passada. Pode ser, mesmo, que voc tenha feito a algum aquilo que os ladres lhe fizeram. 
Mas agora sua dvida est paga. Seja, portanto, agradecido aos ladres: eles lhe fizeram um bem. Seu esprito est agora livre dessa dvida e voc poder continuar 
a evoluir." Colocou suas mos na cabea do ferido, deu-lhe um passe, levantou-se, voltou para o carro, maravilhado da justia da lei do karma.
O sol j ia alto quanto por ali passou um travesti, cabelo louro, brincos nas orelhas, pulseiras nos braos, boca pintada de batom. Vendo o homem cado, parou sua 
motocicleta, foi at ele e sem dizer uma nica palavra tomou-o nos seus braos, colocou-o na motocicleta e o levou para o pronto socorro de um hospital, entregando-o 
aos cuidados mdicos. E enquanto os mdicos e enfermeiras estavam distrados, tirou do seu prprio bolso todo o dinheiro que tinha e o colocou no bolso do homem 
ferido.
Terminada a estria, Jesus se voltou para seus ouvintes. Eles o olhavam com dio. Jesus os olhou com amor e lhes perguntou: "Quem foi o prximo do homem ferido?"
DUAS PARBOLAS

Havia um homem muito rico, possuidor de vastas propriedades, que era apaixonado por jardins. Os jardins ocupavam o seu pensamento o tempo todo e ele repetia sem 
cessar: "O mundo inteiro ainda dever se transformar num jardim. O mundo inteiro dever ser belo, perfumado e pacfico. O mundo inteiro ainda se transformar num 
lugar de felicidade." Suas terras eram uma sucesso sem fim de jardins, jardins japoneses, ingleses, italianos, jardins de ervas, franceses. Era um trabalho cuidar 
dos jardins. Mas valia a pena pela alegria. O verde das folhas, o colorido das flores, as variadas simetrias das plantas, os pssaros, as borboletas, os insetos, 
as fontes, as frutas, o perfume... Sozinho ele no daria conta. Por isso anunciou que precisava de jardineiros. Muitos se apresentaram e foram empregados. Aconteceu 
que ele precisou fazer uma longa viagem. Iria a uma terra longnqua comprar mais terras para plantar mais jardins. Assim, chamou trs dos jardineiros que contratara, 
Paulo, Hermgenes e Boanerges e lhes disse: "Vou viajar. Ficarei muito tempo longe. E quero vocs cuidem de trs dos meus jardins. Os outros, j providenciei quem 
cuide deles. A voc, Paulo, eu entrego o cuidado do jardim japons. Cuide bem das cerejeiras, veja que as carpas estejam sempre bem alimentadas... A voc, Hermgenes, 
entrego o cuidado do jardim ingls, com toda a sua exuberncia de flores pelas rochas... E a voc, Boanerges, entrego o cuidado do jardim mineiro, com roms, hortels 
e jasmins." Ditas essas palavras ele partiu. O Paulo ficou muito feliz e ps-se a cuidar do jardim japons. O Hermgenes ficou muito feliz e ps-se a cuidar do jardim 
ingls. Mas o Boanerges no era jardineiro. Mentira ao se oferecer para o emprego. Quando ele viu o jardim mineiro ele disse: "Cuidar de jardins no  comigo.  
trabalho demais..." Trancou ento o jardim com um cadeado e o abandonou. Passados muitos dias voltou o Senhor dos Jardins, ansioso por ver os seus jardins. O Paulo, 
feliz, mostrou-lhe o jardim japons, que estava muito mais bonito do que quando o recebera. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. Veio o Hermgenes e 
lhe mostrou o jardim ingls, exuberante de flores e cores. O Senhor dos Jardins ficou muito feliz e sorriu. A foi a vez do Boanerges. E no havia formas de enganar. 
"Ah! Senhor! Preciso confessar: no sou jardineiro. Os jardins me do medo. Tenho medo das plantas, dos espinhos, das taturanas, das aranhas. Minhas mos so delicadas. 
No so prprias para mexer com a terra, essa coisa suja... Mas o que me assusta mesmo  o fato das plantas estarem sempre se transformando: crescem, florescem, 
perdem as folhas. Cuidar delas  uma trabalheira sem fim. Se estivesse no meu poder, todas as plantas e flores seriam de plstico. E a terra seria coberta com cimento, 
pedras e cermica, para evitar a sujeira. As pedras me do tranquilidade. Elas no se mexem. Ficam onde so colocadas. Como  fcil lav-las com esguicho e vassoura! 
Assim, eu no cuidei do jardim. Mas o tranquei com um cadeado, para que os traficantes e os vagabundos no o invadissem.\" E com estas palavras entregou ao Senhor 
dos Jardins a chave do cadeado. O Senhor dos Jardins ficou muito triste e disse: "Esse jardim est perdido. Dever ser todo refeito. Paulo, Hermgenes: vocs vo 
ficar encarregados de cuidar desse jardim. Quem j tinha jardins ficar com mais jardins. E, quanto a voc, Boanerges, respeito o seu desejo. Voc no gosta de jardins. 
Vai ficar sem jardins. Voc gosta de pedras. Pois, de hoje em diante, voc ir quebrar pedras na minha pedreira..." 


APERITIVOS TEOLGICOS

Parbola sobre Deus: Algumas pessoas olham atravs da vidraa, discutem sobre uma casa que esto vendo, ao longe. Uma das pessoas diz que aquela casa  habitada 
por um nobre, de hbitos aristocrticos e conservadores. Uma outra diz o contrrio, que l mora um operrio, membro do sindicato, revolucionrio. Uma terceira diz 
que os dois primeiros esto errados: ningum mora na casa. Ela est vazia. Pedem a minha opinio. Eu me aproximo, eles apontam atravs do vidro, na direo da casa. 
Olho, olho, e concluo que alguma coisa deve estar errada com os meus olhos. Eu no vejo casa alguma. O que eu vejo so os reflexos do meu prprio rosto, nos vidros 
da vidraa... 


Diz o Alberto Caeiro que pensar em Deus  desobedecer a Deus. Se Deus quisesse que pensssemos nele ele apareceria  nossa frente e diria: 'Estou aqui!' Mas isso 
nunca aconteceu. William Blake falava em 'ver a eternidade num gro de areia...' A eternidade se revela refletida no rio do tempo. J tive uma paciente que achou 
que estava ficando louca porque viu a eternidade numa cebola cortada! Cebolas, ela j as havia cortado centenas de vezes para cozinhar. Para ela cebolas eram comestveis. 
Mas, num dia como qualquer outro, ao olhar para a cebola que ela acabara de cortar, ela no viu a cebola: viu um vitral de catedral, milhares de minsculos vidros 
brancos, estruturados em crculos concntricos, onde a luz se refletia. Eu a tranqilizei. No estava louca. Estava poeta. Neruda escreveu sobre a cebola 'rosa de 
gua com escamas de cristal...' 


Pessoas h que, para terem experincias msticas, fazem longas peregrinaes a lugares onde anjos e seres do outro mundo aparecem. Eu, ao contrrio, quando quero 
ter experincias msticas, vou  feira. Cebolas, tomates, pimentes, uvas, caqus e bananas me assombram mais que anjos azuis e espritos luminosos. So entidades 
assombrosas. Voc j olhou para elas com ateno? 


Penso que Deus deve ter sido um artista brincalho para inventar coisas to incrveis para se comer. Penso mais: que ele foi gracioso. Deu-nos as coisas incompletas, 
cruas. Deixou-nos o prazer de inventar a culinria. 


Msticos e poetas sabem que o Paraso est espalhado pelo mundo - mas no conseguimos v-lo com os olhos que temos. Somos cegos. O Zen Budismo fala da necessidade 
de se 'abrir o terceiro olho'. Repentinamente a gente v o que no via! No se trata de ver coisas extraordinrias, anjos, aparies, espritos, seres de um outro 
mundo. Trata-se de ver esse nosso mundo sob uma nova luz. 

AS CITAES DE ALBERT CAMUS QUE MAIS AMO
 
1. Cu de trovoada em Agosto. Aragem escaldante. Nuvens negras. No entanto, do lado do nascente, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossvel fix-la. A sua 
presena  uma tortura para os olhos e para a alma. Porque a beleza  insuportvel. Ela desespera-nos, eternidade de um minuto que desejaramos prolongar pelo tempo 
fora. 

2. Jovem, eu pedia s pessoas mais do que elas me podiam dar: uma amizade contnua, uma emoo permanente. Hoje sei pedir-lhes menos do que podem dar: uma companhia 
sem palavras... 

3. A vida  curta e  um pecado desperdiar o tempo. Eu perco o meu tempo durante todo o dia e os outros dizem que sou muito activo. Hoje  um momento de paragem 
e o meu corao parte ao encontro de si mesmo. 

4. Se ainda oprime alguma angstia,  por sentir este momento intangvel escorregar entre os dedos como as prolas do mercrio. Deixem pois aqueles que se querem 
separar do mundo. Eu no me lamento visto que contemplo o meu nascimento. Sou feliz nesse mundo pois o meu reino  deste mundo. Nuvem que passa e instante que se 
desvanece. 

5. Instante de adorvel silncio. Os homens calaram-se. Mas o canto do mundo eleva-se e eu, acorrentado ao fundo da caverna, sinto-me cumulado antes de desejar. 
A eternidade est ali e eu esperava-a. Agora posso falar. No sei o que de melhor poderia desejar seno esta contnua presena de mim prprio em mim prprio. No 
 ser feliz que desejo agora, mas apenas ser consciente. Julgamo-nos separados do mundo, mas basta que uma oliveira se projecte no meio da poeira dourada, bastam 
algumas praias resplandecentes sob o sol matinal, para que sintamos dissolver-se em ns essa resistncia. D-se o mesmo comigo. Tomo conscincia das possibilidades 
de que sou responsvel. Cada minuto de vida tem em si seu valor de milagre e o seu rosto de eterna juventude. 

6. Mas os meus escritos sairo das minhas horas de felicidades. Mesmo naquilo que eles tiverem de cruel. Preciso de escrever assim como preciso de nadar, porque 
o corpo mo exige. 

7.  por isso que se no deve dizer que se viaja por prazer. No h prazer em viajar. Encaro-o mais como uma ascese.  para nos cultivarmos que viajamos, se entendemos 
como cultura o exerccio do nosso sentido mais ntimo, que  o da eternidade. O prazer afasta-nos de ns prprios assim como o divertimento de Pascal afasta de Deus. 
A viagem, que  uma espcie de cincia mais vasta e mais grave, reaproxima-nos. 

8. Se o tempo corre to depressa,  porque no assimilamos com pontos de referncia. Assim, da Lua ao znite e ao horizonte.  por isso que estes anos de juventude 
so to longos por serem to repletos, os anos de velhice to curtos por j estarem organizados. Note-se, por exemplo, que  quase impossvel olhar para um ponteiro 
enquanto ele gira durante cinco minutos sobre o mostrador, de tal forma a coisa  longa e exasperante. 

9. A necessidade de ter razo, marca o esprito vulgar. 

10. As filosofias valem aquilo que valem os filsofos. Maior  o homem, mais a filosofia  verdadeira. 


"Deus  assunto delicado de pensar; faz conta um ovo: se apertamos com fora parte-se; se no seguramos bem cai." (Dito do av Celestino).

Dicas 
O maravilhoso CD da Lgia Jacques Choro Barroco, contendo Cantigas de Roda, Ciranda da Bailarina, Passarim, Falando de Amor, Olha Maria, Porto, Estrela da Terra, 
Chorinho pra ele... A Lgia me mandou um de presente. Depois de ouvi-lo comprei 10 e dei para as netas e amigos. Voc no se arrepender. 


IDEIAS PARA PREFEITOS

Educao de prefeitos: A propsito do prefeito que ps os funcionrios que no votaram nele de castigo sob a jaqueira, no seria possvel pensar num programa nacional 
de educao de prefeitos? No tenho a menor idia de como isso aconteceria. Deve ser muito difcil educar prefeito porque a maioria tem idias prontas e as nicas 
certas. Uma pessoa, para ser educada, tem de, primeiro, aprender que suas idias no so as melhores. 

 Solues criativas para os problemas das cidades: A necessidade faz o sapo pular... As pessoas, premidas pela necessidade, ficam inteligentes. E  assim que, a 
todo momento, esto surgindo solues criativas para os problemas das cidades - solues baratas que podem ser implementadas com uma combinao de inteligncia e 
esprito prtico. Mas a maioria delas permanece ignorada. Pouco se sabe... Como  o caso das associaes dos catadores de papel e catadores de lixo. Graas  Internet, 
nenhuma informao est condenada ao desconhecimento. Basta que se crie um site - "Solues criativas para os problemas das cidades" - onde essas solues seriam 
descritas e compartilhadas. Sugesto para que a prefeitura de Campinas tome a iniciativa... 

 Crianas: No existe nada que mexa mais comigo que as crianas nos semforos. Vendem doces, bijus, limpam parabrisas... Gosto de conversar com elas. Perguntar 
o nome. Se est na escola. O que faz o pai. O que faz a me. Lembro-me do assombro de um menino com quem conversei... O rosto dele se iluminou num sorriso! Acho 
que ele nunca imaginou que algum se interessaria por ele. Mas, nesse momento, o vermelho vira verde e o carro tem de ir. O que fazer para ajudar essas crianas? 
J est provado que orfanatos e similares no funcionam, alm de serem caros. Mas sei que h solues criativas acontecendo: pessoas que tomam a iniciativa e fazem 
coisas. H uma quantidade enorme de pessoas querendo fazer. Mas elas no sabem o que fazer, como fazer, onde fazer. Eu gostaria de colocar aqui na minha homepage 
informaes sobre essas coisas que esto sendo feitas. E mais uma sugesto s prefeituras: no fazer a coisa, mas criar os canais para que as pessoas possam fazer. 

 Mercado de pulgas: Examinando meu guarda roupa, minhas gavetas e minhas estantes, dei-me conta de que eu no necessito e nem vou usar uma grande parte das roupas, 
dos objetos e dos livros que l se encontram. Os americanos, notveis pelo seu senso prtico, tm os chamados "mercados de pulga", "flea markets", onde as pessoas 
levam as coisas de que no mais necessitam para serem vendidas por quase nada. Eu teria prazer em levar essas coisas para um "mercado de pulgas" que porventura fosse 
criado. Muitos dos meus livros, inteis em minhas estantes, poderiam ser usados em escolas e outras organizaes. De novo, sugesto para a prefeitura: Que tal abrir 
um espao para um "mercado de pulgas"? 


IDEIAS CRIATIVAS


Pelourinho: Na Idade Mdia usava-se castigar os criminosos prendendo-os num pelourinho em praa pblica. Esse pelourinho em nada se parecia com os pelourinhos onde 
os escravos eram amarrados e chicoteados. Era uma tbua com trs buracos. No buraco grande, no meio, ficava a cabea. Nos dois buracos pequenos, laterais, ficavam 
as mos. Ali ficavam eles presos, indefesos, submetidos ao riso e gozao dos passantes. Deixando de lado a injustia de tal procedimento, ele continha um preciso 
conhecimento de psicologia humana, que pode ser resumido na frase "zombaria fere mais que pancadaria". Pois soube, pela leitura de um jornal do nordeste, h poucos 
dias, de um prefeito que deve ter feito estgio numa vila medieval: inventou um pelourinho para castigar os funcionrios que no votaram nele. O pelourinho era uma 
jaqueira. Pois os ditos funcionrios foram impedidos de ir trabalhar em suas salas e obrigados a ficar assentados sob a jaqueira durante todo o dia. Questionado 
sobre esse procedimento ele disse que os ditos funcionrios ainda deveriam estar agradecidos porque no era tempo de jaca... Esse incidente  uma amostra de como 
funciona a cabea de muitos dos nossos prefeitos eleitos democraticamente com o voto do povo. A democracia no garante sabedoria. Fico pensando se no existe um 
jeito de educar essas centenas, talvez milhares de prefeitos, cujos pensamentos nunca saram dos limites estreitos da aldeia medieval que so as suas cabeas. Eu 
gostaria, mesmo,  de ter um pelourinho onde eles ficassem expostos  zombaria pblica. Infelizmente no guardei o nome nem da cidade e nem do prefeito. Se algum 
souber, me informe. Tratarei de coloc-lo assentado sob um jaqueira virtual, aqui na minha casa, para que todos se riam dele. E se vocs souberem da casos parecidos, 
mandem notcias. Eu os colocarei debaixo da jaqueira com uma informao sobre a sua asnice. Acho que os grandes jornais, quem sabe mesmo a televiso, poderiam criar 
uma seo em que os prefeitos e polticos seriam expostos ao riso pblico. Na televiso, um programa assim teria mais sucesso que o programa do Ratinho...

PENSAMENTOS SOLTOS
 "Sem advogado no se faz justia" - essa frase aparece freqentemente em adesivos colados em carros. Ela no  verdadeira. Se um advogado acredita que ela  verdadeira, 
falta-lhe inteligncia. Sugiro a substituio da dita frase por "O advogado, se quiser, pode ajudar a fazer justia. Se no quiser, pode ajudar a fazer injustia." 
O "fazer justia" no pertence  profisso do advogado. Ningum vira "fazedor de justia" por ter diploma de advogado. O Lalau que o diga. A justia pertence  ordem 
da tica - que  uma condio espiritual que o indivduo advogado pode ou no ter.  Os compositores colocam no incio das partituras indicaes sobre o tempo e 
o esprito com que devem ser tocadas: Allegro vivace, Largo, Allegretto, Lantgsam und sehnsuchtsvoll, Andante espressivo, Grave, etc. Acho que os escritores deveriam 
fazer a mesma coisa com seus textos. As pessoas lem mal porque no sabem o ritmo e o esprito do texto. Sobre isso falarei mais.  Estou me roendo de vontade de 
escrever umas estorinhas cmicas a partir da Bblia. Por exemplo: Quem diria que Caim matou Abel porque Deus no era vegetariano? E a mula de Balao que falou hebraico? 
E o "monte dos prepcios"? E a praga de hemorridas que Jav enviou sobre os soldados filisteus que haviam roubado a Arca? E o profeta careca - como eu - Eliseu, 
que invocou um urso que comeu um bando de meninos que estavam rindo da sua careca? E as duas filhas que embebedaram o pai para transar com ele? E a mulher que virou 
para trs e se transformou numa esttua de sal? No meio de coisas maravilhosas a Bblia contm tambm muito humor. Claro, para quem tem senso de humor...  "O povo 
unido jamais ser vencido". Afinal de contas, o que  "povo"? "Povo" me parece uma palavra to vazia quanto Deus. Todo mundo fala "povo", todo mundo fala "Deus". 
Os ditadores falam em nome do povo. Os lderes partidrios falam em nome do povo. Mas, o que  o povo? Torcida de futebol? As pessoas vendo o programa do Ratinho? 
As multides danando as missas do Pe. Marcelo?: Os eleitores depositando seus votos?  Da minha cadeira vejo os sanhaos azuis comendo os coquinhos da areca-bambu. 
Ver os sanhaos me faz feliz. Lembro-me de que eles gostam de fazer buracos nos mames maduros e entrar l dentro para comer mais confortavelmente... 

 Meu filho mais velho, o Srgio, com a companheira, Ana Marta, fizeram a caminhada a p at Machupichu (No sei se  assim que se escreve). Contou dos cenrios 
maravilhosos que iam aparecendo  medida em que subiam. Chegando a um lugar onde deveriam descansar por 40 minutos, ficaram extasiados contemplando os vales e as 
montanhas. Uma turista americana, entretanto, deitou debaixo de uma rvore e ps-se a ler o livro. No estava interessada em ver as belezas que havia no caminho. 
O seu objetivo era s chegar l em cima. O livro era mais interessante. Nietzsche fala muito sobre os turistas estpidos que se esfalfam para chegar ao alto da montanha 
sem perceber as belezas que existem no caminho. 

 Veio-me, faz uns minutos, sem que eu quisesse, uma coisa que estava escrita na porta do laboratrio de um colega meu da UNICAMP, se no me engano o Paulo Ana Bobbio: 
"Havendo Deus colocado limites definidos  nossa inteligncia,  profundamente lamentvel que ele no tivesse colocado limites tambm para a nossa ignorncia". 

 Florais de Bach: confesso minha ignorncia. Nada sei sobre os seus poderes. Mas sei muito sobre os poderes teraputicos dos "Corais de Bach". A msica tem poderes 
mgicos. Nietzsche fala sobre isso no seu livro O nascimento da tragdia grega - a partir do esprito da msica. A msica entra no corpo e o possui. A experincia 
esttica com a msica  uma experincia de "possesso". 

 Uma amiga querida que acaba de me visitar me contou da sua experincia com a quimioterapia. O mal-estar terrvel, sobre o fundo sombrio da doena. A impossibilidade 
de comer qualquer coisa, inclusive de beber gua. Media a gua que bebia com colherinhas, para no vomitar. Quando melhorou e conseguiu beber uns golinhos d'gua, 
experimentou algo que nunca tinha sentido antes: a absurda felicidade de beber gua. Vou prestar mais ateno na gua, na prxima vez que for beber... 

 No seu leito de morte, o velhinho de repente sentiu um desejo: "Minha filha, estou com muita vontade de comer um pastel de carne..." Ao que ela lhe respondeu: 
"Mas papai, pastel tem colesterol..." Um mdico, dirigindo-se a uma velhinha de 90 anos, exames de laboratrio perfeitos, exceto um discreto aumento na taxa de glicemia: 
"A senhora tem de comer menos doces..." 

O BURACO DA FECHADURA

Lula: voc deve se lembrar - numa das eleies passadas - seus adversrios tentavam desqualificar sua candidatura por causa de suas origens humildes. Escrevi, ento, 
um artigo, no qual eu comparava a sua condio com a condio de um outro poltico de origens humildes e que tinha tirado diploma por correspondncia: Abraham Lincoln... 
Digo isso para explicar o que vou dizer: no  coisa de inimigo.  coisa de quem deseja compreender. 

Sou psicanalista. Psicanlise  uma perturbao no olhar. Os olhos de psicanlise sofrem de uma cegueira: eles no vem as fachadas. Fachadas so o lugar da propaganda: 
esses programas eleitorais que os partidos compram de profissionais especializados, a peso de ouro, to bonitos, to comoventes... Voc sabe: poltica no se faz 
com realidade; poltica se faz com imagens sedutoras. O povo ama imagens sedutoras. Mas os olhos de psicanlise no vem fachadas. Eles vem bem  atravs de buracos 
de fechadura. Buracos de fechadura so buracos bem pequenos atravs dos quais se vem os mundos que as fachadas escondem. Acontece que voc falou uma coisinha... 
e essa coisinha foi, para mim, um buraco de fechadura. Pus o meu olho l, para ver direito. E o que vi me deixou confuso. 

Voc  homem de partido. Voc pensa o pensamento do partido. Voc diz o que o partido manda dizer. Aprendi isso a seu respeito por ocasio do plebiscito sobre presidencialismo 
e parlamentarismo. Voc e o Genono eram a favor do parlamentarismo. A o partido consultou as bases e elas disseram: presidencialismo. Pois no dia seguinte voc 
havia se esquecido das suas convices da vspera e s falava aquilo que o partido havia determinado. Sei que isso  uma virtude partidria. Mas eu no consigo entender 
os mecanismos psicolgicos que fazem com que um homem deixe de pensar o que pensava porque o partido mandou. Eu compreenderia se voc tivesse se calado. Calado, 
voc continuaria a pensar os seus pensamentos mas, por lealdade ao partido, no diria o que estava pensando. Foi o que fez o Genono. Por isso eu o admirei. Na Igreja 
catlica isso tem o nome de "silncio obsequioso". O Vaticano imps a pena de silncio obsequioso ao Leonardo Boff, por falar aquilo que ele pensava. Mas voc ultrapassou 
o silncio obsequioso: voc mudou seus pensamentos e sua fala. Mudou mesmo? Se mudou, esse seria um fenmeno psicolgico a ser estudado. Ou no mudou mas fez de 
contas que mudou? Nesse caso voc estaria dizendo algo que no era a sua verdade. O partido probe o pensamento divergente? Teremos de "pensar tudo o que seu mestre 
mandar", chame-se "Papa" ou "bases"? E a democracia, onde fica? Fao essas consideraes a propsito do "buraco de fechadura" que sua fala abriu. 

Voc disse. Se disse  porque  opinio do partido. E tanto  assim que o partido no o desautorizou. Assumo, ento, que o que voc disse  parte do programa do 
partido. Segundo os jornais, perante um pblico de pastores evanglicos, voc declarou ser favorvel a que o ensino da Bblia seja feito nas escolas: esse  o buraco 
da fechadura... Ao fazer isso voc tocou a menina dos meus olhos: a educao. A, fiquei com medo... 

Eu no sabia que voc era assim apaixonado pela Bblia, ao ponto de faz-la parte do programa educacional do seu partido. Voc  mesmo assim apaixonado pela Bblia? 
Imagino a alegria dos pastores que o ouviam, vendo-se como futuros professores de Bblia em nossas escolas pblicas... Ou sua declarao teve o objetivo de ganhar 
votos evanglicos? Essa  uma hiptese perversa que me recuso a levar em considerao pelo simples fato de que ela transgride a posio rigidamente tica que tem 
sido a marca bonita do PT. 

Como voc sabe as esquerdas sempre desconfiaram das religies e seus clrigos e isso por duas razes. Primeiro, as relaes confortveis entre as religies dominantes 
e o poder. Segundo, pelo efeito alienante das suas doutrinas. Lembra-se de Marx? Fiquei surpreso pensando que sua proposta representa um desvio das posies clssicas 
dos partidos de esquerda. Mais do que isso: ela representa um retrocesso em relao s conquistas da democracia liberal, de direita, que tratou de separar religio 
e estado. E ainda mais:  sabido que tem havido um conflito secular entre o pensamento religioso e o pensamento cientfico. No podemos nos esquecer de Giordano 
Bruno, Galileu e Darwin. E eu que imaginava que o programa educacional do PT seria secular e informado pela cincia! O que vi atravs do buraco da fechadura me provocou 
grande confuso mental. 

 preciso levar em conta que, se a Bblia vai ser ensinada nas escolas, por uma exigncia democrtica tambm a Torah, o Coro, o Evangelho segundo o Espiritismo, 
o Bhagavad-Gita, o Tao-Te-Ching... 

Sua declarao me fez confuso acerca das propostas educacionais do PT. Essa perplexidade no  s minha. Amigos meus do PT tambm expressaram o mesmo espanto. O 
que est em jogo  coerncia, tica, credibilidade... O que vi pelo buraco da fechadura no combina com o que est escrito na fachada. Por favor, Lula: me ajude 
a entender... 

(Folha de S. Paulo, 14/05/2002) 



UM CRAVO BRANCO NA JANELA

Mame: Hoje, dia das mes, as famlias se renem para o almoo e os filhos tm obrigao de dar presentes para suas mes. No gosto disso. No acredito em amor com 
data marcada.  falso. Voc, tmida demais, no gostava de situaes em que voc fosse o centro das atenes. Voc queria mesmo era ficar escondida. Mas voc j 
partiu. O Ismael, depois da sua morte, me disse que sofria pensando em voc to frgil, to desprotegida, caminhando sozinha pelos espaos infinitos e solitrios 
do universo. 

O que eu queria era poder assentar-me ao seu lado para conversar o que nunca conversamos. De fato, ns nunca conversamos. A culpa no foi minha e no foi sua. Naquele 
tempo conversas ntimas entre mes e filhos eram impensveis. No seu caso era mais grave porque no sobrado colonial do capito Evaristo, seu pai, conversas ntimas 
eram proibidas. Dizer um sentimento era uma obscenidade. Capito Evaristo: capito s de nome, pois no mandava nada. Quem mandava era o triunvirato feminino, encabeado 
pela vov, que exercia o poder sobre a casa. O capito era um fantasma. O Ismael, que morou por alguns anos no sobrado, me confidenciou nunca haver presenciado uma 
nica troca de palavras entre o vov e a vov. O dio era muito e infectava a atmosfera. Talvez essa fosse a razo para a proibio da fala sincera. Lembro-me de 
um incidente que me foi relatado por algum: o vov foi ao jardim e podou uma roseira da vov. No sei com que intenes ele o fez. Pode ter sido um gesto de carinho. 
Mas pode ter sido um gesto de dio. Ele tinha razes para odiar. Como no podia falar, podou. A vov, sabendo que o capito gostava de vinho, se dedicava sadicamente 
a esvaziar suas garrafas de vinho na pia. Talvez, com sua tesoura de podar, ele estivesse cortando os dedos, as orelhas, o nariz da mulher que fazia isso. A vov, 
como vingana pela poda de sua roseira, passou dezessete anos sem ir ao jardim. , vingana besta, vingana que s se explica por dio acumulado. Nos casamentos 
de antigamente, casamentos que s a morte separava, era impossvel que os dios no ficassem fervendo nas panelas. As mulheres fracas aceitavam o seu destino humilhante 
em silncio, dedicavam-se ao crivo,  cozinha, e choravam trancadas no banheiro. Mas quando as mulheres eram fortes, como a vov, as vinganas eram inevitveis: 
ou esvaziando as garrafas de vinho, ou se recusando a falar, ou salgando a comida, ou trancando o seu corpo, havendo mesmo casos escabrosos como aquele relatado 
por Guimares Rosa de uma mulher que despejou chumbo derretido dentro do ouvido do marido, enquanto ele dormia. Quando eu contava essas coisas para a minha analista, 
a Dra. Juj, ela observava, assombrada: "Mas professor, isso  muito mais fascinante que Cem anos de solido!". Se eu soubesse escrever novelas, garanto que seriam 
mais interessantes que as do Gabriel... 

Tudo para impedir a intimidade e a sinceridade: assim era o sobrado. Entrava-se por uma porta enorme, que levava a um corredor largo. Ao final, dois lances de escada 
que conduziam ao segundo andar. Ao final das escadas, a sala de visitas. Linda, impecvel, forro barroco com frisos dourados, espelhos enormes com molduras tambm 
douradas, um piano Pleyel com castiais e velas, consoles de mrmore, esculturas, vasos, cadeiras de palhinha, lustres, vidros coloridos importados na porta de entrada, 
quatro portas que se abriam para as sacadas que davam para a praa... Ali ficavam as visitas, segregadas antes de entrar na casa. Ali se tocava piano e se falava 
sobre coisas que no fossem ntimas. Voc se lembra que no sobrado os irmos jamais se abraavam, jamais se beijavam. Voc lembra de algum beijo que algum irmo 
lhe tivesse dado? Eles tambm s abriam a sala de visitas. No sobrado as relaes eram regidas pelo silncio. 

Esse foi o mundo onde voc foi criada. Seria impossvel esperar que voc tivesse condies para quebrar as regras que a educao gravou no seu corpo. Assim, nossas 
relaes tambm foram marcadas pelo silncio. Falvamos, sim, mas jamais sobre intimidades. Jamais lhe fiz uma confidncia. Voc no entenderia, no saberia o que 
fazer com ela. E voc jamais me revelou um sentimento. Lembro-me que, quando morvamos no Rio de Janeiro, voc passava por perodos de depresso. Mas voc jamais 
se queixou, jamais traduziu sua depresso em palavras. O seu silncio fazia de voc um enigma a ser decifrado. 

Mas agora que voc est encantada, a lei do silncio foi abolida. E eu gostaria de conversar sobre seus sonhos e amores secretos. Tenho suspeitas... Aquele seu professor 
de piano, jovem maestro italiano, msculo, Riciotti... Voc me mostrou um retrato dele cercado de alunas. Ele me parecia tudo, menos um maestro. Parecia-me mais 
um domador de feras. Pois ele lhe comps uma valsa quando voc completou 15 anos: Ela aos 15 anos... Teria sido uma discreta declarao de amor? Imagino que ele, 
para lhe ensinar a posio correta das mos, pegava nas suas e, ao fazer isso, aproximava o seu rosto do seu! Que arrepios voc deve ter sentido! Mas, de repente, 
inexplicavelmente, seus pais a enviaram para Juiz de Fora, como interna. Curioso, porque Lavras possua uma excelente escola americana, o Colgio Carlota Kemper, 
bem defronte ao sobrado. Eu nunca compreendi esse fato. Mas, faz uns dias, tive uma idia: vov e vov perceberam que um romance estava rolando e eles, de sangue 
azul, jamais permitiriam que sua filha se casasse com um maestrinho pobreto italiano. Voc foi enviada para Juiz de Fora para ficar longe do Riciotti. Destino parecido 
teve a Mema. Apaixonou-se por um plebeu honrado mas o vov disse no. E quando pai - qualquer pai - dizia no, o assunto estava encerrado. A Lou Salom e a Chiquinha 
Gonzaga foram excesses. Minha interpretao  perversa: a Mema era bonita e o vov no podia suportar a idia de um homem estranho fazendo amor com ela. Impulso 
pedfilo... A Mema morreu solteirona, virgem e triste. Quando o vov estava morrendo ele pediu perdo, mas j era tarde demais. H pedidos de perdo que so malditos, 
no deveriam ser feitos. 

No final das contas voc se casou com o papai, homem bonito e rico, de gostos musicais ingnuos, muito diferente do Riciotti... Voc era msica. Poderia ter sido 
uma concertista. Lembro-me de voc tocando a primeira balada de Chopin... O papai se esforava mas no conseguia entrar no seu mundo. Por isso, a parte mais profunda 
de voc viveu solitria. Uma memria feliz que tenho de ns dois: quando ouvamos msica estvamos juntos. A msica dispensa confidncias. Lembra-se da felicidade 
de ir aos concertos matutinos no Rio de Janeiro, aos domingos? 

Pois eu queria me assentar com voc para conversar sobre essas coisas, sua vida, seus sentimentos, os seus amores. Sei que, no seu estado normal, isso seria impossvel. 
Mas... uma coisa estranha aconteceu. Quando voc j estava velhinha voc teve um AVC - e parece que o tal AVC abriu vrios quartos proibidos... Pois voc chegou 
mesmo a falar "merda" - palavra que voc nunca havia falado - e morreu de dar risada!  isso que eu gostaria de fazer hoje: entrar por aquele buraco que o AVC abriu 
para conhecer o seu mistrio. E ento, talvez, pudssemos andar de mos dadas, dando risadas... 

Antigamente no havia nem almoos e nem presentes. Os que tinham mes usavam uma flor vermelha na lapela. Os que no tinham mes usavam uma flor branca na lapela. 
Hoje usarei uma flor branca. Beijo. At daqui uns dias...  (Correio Popular, 12/05/2002) 



GANHEI CORAGEM

"Mesmo o mais corajoso entre ns s raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche.  o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei 
em segredo. Por medo. Albert Camus, ledor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora quando a coragem chega: "S tardiamente ganhamos a coragem de assumir 
aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: "O povo unido jamais ser vencido":  disso 
que eu tenho medo. 

Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem poltica. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia  o governo do povo... 
No sei se foi bom negcio: o fato  que a vontade do povo, alm de no ser confivel,  de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televiso que o povo 
prefere. 

A Teologia da Libertao sacralizou o povo como instrumento de libertao histrica. Nada mais distante dos textos bblicos. Na Bblia o povo e Deus andam sempre 
em direes opostas. Bastou que Moiss, lder, se distrasse, na montanha, para que o povo, na plancie, se entregasse  adorao de um bezerro de ouro. Voltando 
das alturas Moiss ficou to furioso que quebrou as tbuas com os 10 mandamentos. E h estria do profeta Osias, homem apaixonado! Seu corao se derretia ao contemplar 
o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idias. Amava a prostituio. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Osias pulava de perdo a perdo. At 
que ela o abandonou... Passado muito tempo Osias perambulava solitrio pelo mercado de escravos... E que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. 
Osias no teve dvidas. Comprou-a e disse: "Agora voc ser minha para sempre..." Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parbola do amor de Deus. 
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta. Mas sabia que ela no era confivel. O povo sempre preferia os falsos profetas aos 
verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras. As mentiras so doces. A verdade  amarga. Os polticos romanos sabiam que o povo se enrola com po 
e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristos sendo devorados pelos lees. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os 
cristos, de comida para os lees, se transformaram em donos do circo. O circo cristo era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praas pblicas. 
As praas ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, telogo moral protestante, no seu livro O 
homem moral e a sociedade imoral observa que os indivduos, isolados, tm conscincia. So seres morais. Sentem-se "responsveis" por aquilo que fazem. Mas quando 
passam a pertencer a um grupo, a razo  silenciada pelas emoes coletivas. Indivduos que, isoladamente, so incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados 
a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruis. Participam de linchamentos, so capazes de pr fogo num ndio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida 
do time rival. Indivduos so seres morais. Mas o povo no  moral. O povo  uma prostituta que se vende a preo baixo. Meu amigo Lisneas Maciel, no meio de uma 
campanha eleitoral, me dizia que estava difcil porque o outro candidato a deputado comprava os votos do povo por franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com 
os votos do povo... Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade.  sobre esse pressuposto que 
se constri o ideal da democracia. Mas uma das caractersticas do povo  a facilidade com que ele  enganado. O povo  movido pelo poder das imagens e no pelo poder 
da razo. Quem decide as eleies - e a democracia - so os produtores de imagens. Os votos, nas eleies, dizem quem  o artista que produz as imagens mais sedutoras. 
O povo no pensa. Somente os indivduos pensam. Mas o povo detesta os indivduos que se recusam a ser assimilados  coletividade. Uma coisa  o ideal democrtico, 
que eu amo. Outra coisa so as prticas de engano pelas quais o povo  seduzido. O povo  a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche 
e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus Cristo foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabs. Durante a Revoluo Cultural na China de Mao-Tse-Tung, 
o povo queimava violinos em nome da verdade proletria. No sei que outras coisas o povo  capaz de queimar. O nazismo era um movimento popular. O povo alemo amava 
o Fhrer. O mais famoso dos automveis foi criado pelo governo alemo para o povo: o Volkswagen. Volk, em alemo, quer dizer "povo"... 

O povo unido jamais ser vencido! Tenho vrios gostos que no so populares. Alguns j me acusaram de gostos aristocrticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, 
de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silncio, no gosto de churrasco, no gosto de rock, no gosto de msica sertaneja, no gosto de futebol 
(tive a desgraa de viajar por duas vezes, de avio, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado 
a queimar os meus gostos e engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno",  semelhana do que aconteceu na China. 

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro acontea  preciso que um poeta entoe uma cano e o povo escute: "Caminhando 
e cantando e seguindo a cano..." Isso  tarefa para os artistas e educadores: O povo que amo no  uma realidade.  uma esperana. 

(Folha de S. Paulo, 05/05/2002) 



SOBRE O CRIME I

Nicol Machiavelli era um homem do povo, comum. A despeito disto teve a ousadia de dar lies de poltica ao prncipe Lorenzo di Piero de'Medici. Consciente do despropsito 
da sua presuno, ele se explica e se desculpa na "Dedicatria" com que seu livro O Prncipe se inicia. "Da mesma forma como os que pintam cenrios se colocam abaixo, 
na plancie, a fim de contemplar as montanhas e os lugares altos, e a fim de contemplar as plancies eles se colocam no alto das montanhas, assim  preciso ser um 
prncipe para conhecer a natureza do povo, e  necessrio ser do povo para se conhecer a natureza dos prncipes." Em outras palavras: para se ver bem  preciso estar 
distante e de fora. Animado pelas palavras de Machiavelli criei coragem para dar a pblico algumas anotaes que fiz sobre um assunto sobre o qual no tenho competncia 
alguma, quer acadmica, quer prtica. Credenciados a falar sobre o que vou escrever, por competncia cientfica e prtica, so os advogados e os policiais. Mas, 
como o exerccio de pensar e de comunicar o pensamento  um direito dado a todos os cidados, ouso falar sobre o crime, com olhos que olham de longe. Houve um tempo 
quando o crime no perturbava os meus pensamentos. Hoje ele me ameaa a cada momento. O crime est  espreita. Guiando na marginal de Pinheiros, em So Paulo, vi 
um outdoor luminoso gigantesco: "Voc pode ser o prximo a ser assassinado". O Toninho guiava o seu carro, como sempre fizera, despreocupado. No imaginava que o 
crime estava  sua espera. Se tivesse imaginado teria escolhido um outro caminho. Tenho medo. Nunca sei onde o crime me espera. Vou escrever meus pensamentos sobre 
o crime porque quero entender. Escrevo maquiavelicamente, olhando de longe. Escrevo na esperana de que outros me ajudem a pensar. Minhas idias so meros andaimes. 
Peo perdo pelo meu estilo. Ao me por a pensar sobre assunto to medonho, o estilo "crnica" que tanto amo me abandonou. As idias me vieram como me vinham quando 
eu dava aulas: secas e curtas. No escrevo para dar prazer. Escrevo convidando o leitor a pensar seus prprios pensamentos. Abaixo est aquilo que seria meu plano 
de aula. Tpicos a serem motivo de meditao.
1. Dois, apenas dois, so os objetos que o corao humano deseja: o Amor e o Poder. Amor e Poder: os dois so coisas boas.  entre eles que a vida acontece. O Amor 
me faz sonhar com um jardim. O Poder faz possvel plantar o jardim. Sem Amor no h jardim. Sem Poder no h jardim.
2. H crimes motivados pelo Amor. H crimes motivados pelo Poder.
3. Crime  usar um caminho proibido para se chegar quilo que o corao humano deseja.
4. O que caracteriza o crime no  o mal que ele causa. O que caracteriza o crime  o caminho que  seguido. Sobre o assunto, Charles Chaplin fez um filme notvel, 
Monsieur Verdoux. M. Verdoux era um modesto caixeiro viajante, apaixonado por sua esposa paraltica, cujo tratamento requeria considervel quantidade de dinheiro. 
A vida de sua esposa lhe era o bem supremo do amor. No lhe saa da memria o juramento feito por ocasio do seu casamento, de que cuidaria dela na sade e na enfermidade. 
Infelizmente, entretanto, os ganhos de M. Verdoux no exerccio de sua profisso eram insuficientes para cobrir os gastos mdicos requeridos pela enfermidade de sua 
adorada esposa. Era necessrio, portanto, que ele aumentasse os seus ganhos - um desejo perfeitamente legtimo. Imaginou, ento, um estratagema: procuraria velhinhas 
ricas carentes, vivas ou solteironas, que buscavam o conforto de uma companhia masculina. Casar-se-ia com elas, mata-las-ia e se apropriaria da sua herana. Desta 
forma estariam garantidos os recursos necessrios para os cuidados com sua adorada companheira. E o seu juramento sagrado seria cumprido. E foi o que ele comeou 
a fazer de forma sistemtica. Paralelamente corria uma outra histria. Era tempo de guerra. Um poderoso empresrio era dono de uma fbrica de canhes. No me recordo 
o seu nome. Para simplificar nossa narrativa, digamos que ele se chamava Monsieur Argent. Os canhes produzidos pela fbrica de M. Argent matavam diariamente soldados, 
homens, crianas, velhos e inmeras velhinhas carentes, em nmero imensamente maior que aquelas que M. Verdoux matava. Notem os motivos dos dois: M. Verdoux matava 
por amor. M. Argent fabricava canhes - que matavam! - por dinheiro. Notem o quatum de mortes produzidas: M. Verdoux matou trs, talvez quatro velhinhas. M. Argent, 
com seus canhes, matou milhares. Final da histria: M. Verdoux  preso, condenado e guilhotinado. M. Argent, ao contrrio, em virtude de sua contribuio para a 
guerra, recebeu as maiores honrarias de estado e foi condecorado. Como disse no incio: no  o mal produzido que caracteriza o crime. M. Argent causou muito mais 
mal que M. Verdoux. O que caracteriza o crime  o caminho seguido.
5. Quem define os caminhos permitidos e os caminhos proibidos?  o Estado. Os caminhos permitidos e os caminhos proibidos, assim, variam com as variaes do Estado. 
Num Estado escravagista era permitido, aos donos, aoitar e matar seus escravos. O Estado Norte Americano determinou, por meio da chamada "Lei Seca", que a produo, 
comrcio e consumo de bebidas alcolicas era crime. Houve certos Estados que classificaram o homossexualismo como crime. Em Estados catlicos era crime punido com 
morte professar uma religio diferente da religio oficial. Como no Taleban. Miguel Serveto e Giordano Brunno, cientistas humanistas, foram queimados pelo crime 
de terem idias diferentes das idias oficiais. Galileu escapou por pouco...
6. H 2 tipos de crimes: crimes de amor e crimes de poder. O detetive, em busca do criminoso, far bem em seguir o velho conselho "Cherchez l'argent, cherchez la 
femme..." "Procure o dinheiro, procure a mulher..."  claro que esse ditado se fez numa sociedade machista, onde s os homens cometiam crimes de amor. Ou, talvez, 
numa sociedade em que as mulheres eram mais sbias que os homens: elas no matavam por amor por saber que no vale a pena...
7. Os crimes de amor sempre existiram e sempre existiro. Sem os crimes de amor a literatura e a arte perderiam um dos seus motivos mais comoventes. As "Mil e uma 
noites" perderiam seu fio condutor. As peras perderiam algumas das suas mais pungentes realizaes. E seriam perdidas tambm as msicas caipiras, aquelas de antigamente: 
o caboclo que mata a caboclinha que o trocou por um conquistador rico da cidade...
8. Os crimes de amor resultam de perturbaes individuais de emoes.  sempre um apaixonado solitrio que comete o crime. No se pode "formar quadrilha" para cometer 
crimes de amor. Quando se forma uma quadrilha para se cometer crimes sabe-se que um procedimento racional est em andamento. Mas o crime de amor  sempre irracional. 
Resulta de uma erupo de sentimentos que fugiram ao controle da razo. Essa  a razo por que no  possvel fazer uma sociologia dos crimes de amor. Sobre os crimes 
de amor faz-se literatura e psicanlise.
9. O corpo  um albergue. Nele moram os mais diferentes hspedes. Um deles  o apaixonado perturbado com mpetos assassinos. Cometido o crime ele se retira da cena, 
esconde-se no seu quarto e se tranca. O dono do albergue, racional, que havia sido expulso pelo apaixonado perturbado, volta ento - ele estava "fora de si" - e 
tem de lidar com a dor da culpa e a dor da perda. O criminoso por amor, passada a erupo de sentimentos, se arrepende sempre. Ele continua a ser um ser moral.
10.  possvel que a lei, ao punir o criminoso, esteja punindo o inocente. No foi o dono do albergue que cometeu o crime. Foi o "outro", que mora no mesmo albergue. 
Inocente e criminoso vivem no mesmo corpo.
11. Os crimes de amor se assemelham a uma amputao - um momento de distrao e a serra amputa um dedo.  um acontecimento individual, doloroso, localizado, completo. 
Cicatriza, deixando marcas. Mas o corpo no  ameaado. Os crimes de poder so totalmente distintos. Assemelham-se ao cncer. Tm a configurao de uma rede que 
no para de crescer. Elimina-se um tumor aqui, mas as metstases aparecem em lugares distantes. Sendo uma rede, organizam-se social e politicamente: bandos, gangues, 
quadrilhas, mfias. Apossam-se de territrios e sobre eles estabelecem suas prprias leis, transformando-se assim em estados. Navegam em todos os canais de comunicao, 
embarcados no dinheiro. Os meios de circulao de dinheiro so os meios de circulao dos crimes de poder. Onde houver dinheiro ali haver crimes de poder. Porque 
dinheiro e poder so a mesma coisa. Agora, num mundo interligado pela globalizao da circulao do dinheiro, os crimes de poder ganham o status de "empresa transnacional". 
Os crimes de poder tm tambm a sua ONU, melhor dizendo, OCU, Organizao do Crime Unido, que funciona com muito mais eficincia que a Organizao das Naes Unidas. 
Constituem-se como uma potncia internacional, um Estado Internacional, com filiais em todos os pases. Os assassinatos em favelas, decorrentes de disputas entre 
traficantes, so nada mais que manifestaes da rede mundial de circulao de riqueza ligada ao trfico de drogas.
12. Os crimes de poder, hoje, so muito mais que casos policiais. Eles se organizam como um Estado paralelo ao Estado, colocando em jogo aquilo que, em linguagem 
militar, tem o nome de "segurana nacional". O perigo no est alm das fronteiras geogrficas. O perigo se encontra dentro do territrio nacional.
No prximo domingo pensaremos sobre os crimes de poder, crimes ligados ao dinheiro.
(Correio Popular, Caderno C, 21/10/2001.) 



SOBRE O CRIME II

Quando escrevo uma crnica a sensao  como se estivesse patinando: deslizo sobre as palavras. Mas quando vou dar uma aula sobre um assunto complicado,  como se 
estivesse escalando uma montanha: cada passo tem de ser pensado, cada passo exige esforo. No estou patinando. Estou escalando uma montanha chamada "crime". E ficaria 
feliz se voc me acompanhasse vagarosamente, pensando seus pensamentos.
Os crimes so cometidos por causa de um "objeto de desejo": ma vermelha... Como desejo essa ma! Se eu a tivesse, se eu a comesse, seria feliz! Mas o caminho 
at a rvore onde ela cresce  longo e difcil! E no h certeza alguma de que, ao final, a colherei. No sei se o caminho leva at ela. Se chegar a ela, talvez 
ser tarde demais! Estarei velho. Quero com-la agora!
Mas que coisa estranha! Vejo tantas pessoas ao meu redor comendo a ma do meu desejo! E eles no mostram sinais de esforo e cansao. Parece que no tiveram que 
trilhar o longo caminho para apanh-la! Pergunto. Eles me dizem que  fcil. Basta seguir um outro caminho, diferente daquele que estava  minha frente. No seu incio 
se encontra uma advertncia: "Caminho proibido". Ento  isso? O caminho permitido  o caminho apertado e difcil, de resultados incertos. E o caminho proibido  
o caminho fcil e largo, de resultados imediatos. Somente um tolo entraria pelo caminho permitido. Para qu, se existe o outro?
Todo crime  cometido para se apossar da "ma dourada". Nos crimes de amor a "ma dourada"  uma pessoa, objeto da paixo. So comoventes. Comoventes porque neles 
se revela a tolice do corao. Quem mata por amor o faz compelido por um surto de loucura de curta durao chamado "paixo". Mas o apaixonado no sabe disto. Os 
apaixonados, sem exceo, tm certeza sobre o seu amor e acreditam que ele ser eterno. So uns tolos. Se tivessem lido poesia seriam mais sbios. O Vincius sabia: 
"Que no seja eterno, posto que  chama, mas que seja infinito enquanto dure." Infinito enquanto dure... O "enquanto" j anuncia que o infinito no ser eterno. 
Todas as chamas se apagam. Mas, depois de apagada a chama efmera, uma outra chama se acende, talvez de luz mais bonita que a anterior. Mas o apaixonado, tolo, no 
sabe disso. E comete o crime, fazendo a mais tola declarao de amor que se pode fazer: "No posso viver sem voc..." (Claro que pode!) O apaixonado comete o crime 
a fim de tornar eterno aquilo que  efmero. "Morta, ela ser sempre minha;..." Sempre existiram, sempre existiro. Sofrimento passageiro. Amputao de dedo. No 
ameaam a vida social. Mas h crimes por uma outra "ma dourada" chamada "poder". Esses so cncer. Esses matam a sociedade. Como esto matando a nossa.
Dizem os poemas sagrados que Deus, ao criar, deu ao homem um delicioso objeto de amor, um paraso onde todos os seus desejos podiam ser satisfeitos. Mas a serpente, 
psicanalista astuta, conhecia melhor os segredos do corao humano: no paraso havia um desejo, um nico desejo que no podia ser satisfeito. "Foi isso que Deus 
disse, que vocs no poderiam comer dos frutos das rvores do jardim?", e ela disse serpentinamente, dando uma colher de ch aos seus interlocutores. "No, no foi 
isso que Deus disse. Disse que poderamos comer de todas as rvores, menos uma: a rvore do conhecimento. Veja com os seus prprios olhos: no seu tronco est escrito: 
'Comer dessa rvore  crime. Quem comer vai morrer!'" "Vai nada", retrucou a serpente. "Conversa para intimidar vocs. Deus proibiu que vocs comessem daquela rvore 
porque ele sabe que, se vocs comerem, vocs sero como Deus, iguais a ele..." No paraso todos os desejos de amor estavam satisfeitos. Mas, para que os frutos do 
amor fossem gozados era preciso que se renunciasse ao uso do poder.
O poder  o verme que apodrece o fruto do amor. Todo mundo sabe isso por experincia prpria. Mas ningum acredita. Porque a promessa contida no fruto do poder  
mais forte que a promessa contida no fruto do amor. Pois o que o Poder promete  que, quem o comer, poder comer todos os frutos do amor: "ser como Deus..." O Poder 
 o gnio que mora na garrafa. Quem no faria tudo para ter um gnio engarrafado? As sedues do Poder so mais fortes que as sedues do Amor. O Poder  Deus forte. 
O Amor  Deus fraco. (Os pais ficariam mais tranqilos se a filha se casasse com um homem rico, que ela no ama, que se ela casasse com um homem pobre, que ela ama... 
Os pais - desiludidos - sabem que o amor  coisa passageira; mas o dinheiro  coisa permanente...)
Na ltima das suas tentaes o Diabo leva Jesus a uma montanha muito alta e lhe mostra todos os reinos da terra. "Tudo isso te darei se, prostrado, me adorares", 
ele diz. Os poetas e msticos, ao invs de falarem abstratamente sobre as coisas, falam por meio de imagens. Tolos so aqueles que interpretam as imagens literalmente: 
o Diabo, um ser com focinho de porco, chifre, rabo e cheiro de enxofre... Mas "Diabo"  apenas uma imagem cujo sentido  o desejo de poder. O desejo de poder mora 
dentro de cada um e permanentemente nos tenta. Convida. O que ele oferece  desejvel. Os desejos que movem os criminosos esto presentes na alma de todos. Quem 
no gostaria de ter poder absoluto - ser como Deus? Ele  o gnio da garrafa, que promete realizar nossos desejos. Curioso: ele tenta Jesus com poder absoluto. Mas, 
para ser tentado, era preciso que Jesus no tivesse poder absoluto. S somos tentados naquilo que no possumos. Sou tentado a me apossar de algo que no possuo. 
Concluso: O Diabo  "poder sem amor". Deus  "amor sem poder".
V a uma locadora de vdeos. Procure o filme O Advogado do Diabo. Se j o viu, veja de novo. Se no o viu, veja pela primeira vez. Ele  a verso moderna da ltima 
tentao de Cristo.
O dinheiro tenta porque nele se encontra o poder. Ama-se o dinheiro pelo poder que nos d.
O que leva os homens a invocarem os deuses? Os homens invocam os deuses a fim de se apropriarem dos seus poderes. Religies so artifcios humanos que supostamente 
tm o poder de fazer os deuses realizar os nossos desejos. Os deuses so invocados, no por serem amados, mas por serem poderosos. O que os homens desejam no  
Deus mas o milagre. O milagre  um atalho para se chegar  "ma dourada". Jesus sabia disso e acusou as multides que o seguiam: "Vs me buscais no porque vistes 
sinais mas porque comestes os pes e vos fartastes". Ai do Deus que no realiza milagres! Deuses que no realizam milagres, isso , que no atendem os desejos dos 
seus adoradores, so logo abandonados e trocados por outros. Um Deus apenas bom  um Deus fraco. Um Deus fraco  um Deus que no tem poder para realizar o meu desejo. 
De que me vale um Deus que no realiza o meu desejo?
Sobre isso vale a pena gastar uns minutos e ligar a televiso num desses programas religiosos que ficam no ar 24 horas por dia. O que prometem eles? Prometem a "bno". 
O que  a "bno"?  a realizao do desejo de cada um. E o que dizem os profetas desses deuses? Eles ensinam as "receitas" que, se seguidas, faro com que Deus 
faa a vontade de quem pede.  preciso esfregar a garrafa de maneira correta para que o gnio acorde e saia. Esfregada a garrafa segundo a receita o gnio sai e 
a bno acontece. Cada religio proclama ter o monoplio da receita certa.
Infelizmente os deuses das religies so imprevisveis e parecem s ter poder para pequenos milagres como curar dor de cabea e fazer com que o marido deixe de bater. 
Milagres pr valer, como ter um carro importado, fazer uma viagem  Europa ou parar a guerra - esses milagres parecem ser grandes demais para o poder dos deuses 
das religies. Eles no atendem nem mesmo as oraes do Papa que, continuamente, ora pela paz. Ou Deus no quer a paz (e nesse caso no  Deus) ou quer a paz, mas 
no tem poder para realiz-la (caso em que ele no  Deus tambm).
(Por favor: no me acusem de impiedade. Sou mstico. Para mim o sagrado est espalhado pelo universo inteiro. Onde est a beleza, onde est a vida, ali est o sagrado. 
Adoro o "Grande Mistrio" sem lhe pedir coisa alguma. Basta-me ouvir a sua msica - por vezes de beleza trgica.)
No  assim com o dinheiro. Dinheiro tem poder. Com o dinheiro todas as coisas so possveis. No foi por acaso que Shakespeare o chamou de "Deus Visvel". Com o 
dinheiro no  preciso fazer invocaes ou promessas: ele realiza o desejo daquele que o possui imediatamente. Pelo dinheiro, ento, no valer a pena andar pelo 
caminho proibido? O caminho do crime? O caminho permitido  muito difcil e lento e, na maioria das vezes, no leva  ma dourada... (a aula continua...)
(Correio Popular, Caderno C, 28/10/2001.) 



SOBRE O CRIME III

Caador no  quem anda com espingarda pendurada no ombro. Caador  quem conhece os hbitos da caa.
No passado os criminosos eram as caas a serem caadas. O Estado era o caador. Para isso ele criou a polcia.
Os caadores competentes - detetives - conheciam os hbitos da caa. Sherlock Holmes e Hrcules Poirot no usavam revlveres. Usavam o crebro.
As novelas policiais clssicas descrevem um tipo especfico de crime: crimes individuais. Os criminosos eram feras solitrias, lobos soltos que atacavam suas vtimas, 
protegidos pelo escuro. Atacavam no escuro porque tinham medo. Medo da polcia. Sabiam que, se fossem descobertos, seriam punidos. Enjaulado o lobo o crime estava 
encerrado. O livro terminava.
Para descobrir tais criminosos os detetives se valiam das luzes da psicologia. A psicologia lhes dava a base terica que lhes permitia conhecer os hbitos da sua 
caa. Essa situao se alterou: as caas se transformaram em caadores. Perderam o medo. Agem abertamente  luz do dia. Sabem que os crimes no sero punidos. Hoje 
so os caadores de antigamente que tm medo.
Como explicar essa inverso?  simples. O crime deixou de ser ao de indivduos solitrios. Transformou-se em empresa. Os recursos da psicologia j no so suficientes 
para compreender os hbitos dos criminosos.
Santo Agostinho j havia notado essa inverso: os ladres se juntam, transformando-se em quadrilhas, os indivduos unidos por uma lei comum. Desta forma o seu poder 
aumenta ao ponto de ocuparem territrios onde os caadores no podem entrar. Deixam de ser criminosos individuais e se transformam num estado. O que lhes d a qualidade 
de estado  a impunidade.  essa a nossa situao no presente. Santo Agostinho disse "estado", palavra retirada da poltica. Mas eu prefiro a palavra "empresa", 
retirada do discurso da economia.
Empresas so organizaes que existem em funo do lucro. As empresas procuram vender uma outra imagem, como produtoras de bens. E  verdade. Se no produzissem 
bens que pudessem ser comprados no sobreviveriam: laboratrios vendem sade, empresas de turismo vendem viagens, escolas vendem educao, etc. Mas elas sabem que 
esses bens, em si mesmos, por desejveis e eficientes que sejam, no garantem a sua sobrevivncia como empresa. Muitas empresas vo  falncia.
 o lucro, e no a excelncia dos bens que produz, que garante a sobrevivncia de uma empresa.  o lucro que torna uma empresa desejvel como lugar onde fazer investimentos. 
Assim, do ponto de vista econmico  indiferente que a empresa produza rosas ou armas, livros ou cigarros, sucos ou pornografia.
Uma empresa  legal se, para obter seus lucros, ela se enquadra dentro das determinaes da lei: impostos, obrigaes trabalhistas, etc. Mas a legalidade implica 
um nus econmico para a empresa. Estar dentro da legalidade, para uma empresa,  ter seus lucros diminudos. Essa  a razo porque, frequentemente, as empresas 
tm um "Caixa 2": lugar escuro para transaes no permitidas pela lei.  o jeito de aumentar os lucros.
Empresas criminosas so aquelas que obtm seus lucros por meio de atividades proibidas pela lei.
Ambas as empresas, as legais e as criminosas, s realizaro o seu objetivo econmico de obter lucros se obedecerem as leis da economia. Diferentemente das leis do 
estado, inventadas pelos homens, as leis da economia no podem ser burladas. Aqueles que as desrespeitarem sofrero as consequncias. Uma empresa que s contabilize 
prejuzos ter de falir.
As leis da economia nos revelam os caminhos pelos quais o dinheiro flui e reflui. O dinheiro flui e reflui segundo a lei da oferta e da procura. Traduzida de forma 
simples, a lei da oferta e da procura diz que, havendo procura, haver oferta. Sou diabtico. Minha vida est  procura de algo que seja capaz de controlar o acar 
no meu sangue. Se eu no fosse diabtico nem procuraria o endocrinologista e nem compraria remdios. Mais ainda: se no houvesse diabetes no haveria laboratrios 
pesquisando, produzindo e vendendo medicamentos para diabetes. O diabetes de milhes, assim,  a garantia de bons negcios e lucros para os laboratrios. Mau negcio 
seria produzir um medicamento que viesse a curar o diabetes. Porque se o diabetes fosse curado, desapareceria esse mercado em demanda permanente de medicamentos. 
A cura do diabetes  um ideal tico louvvel. Realizada, seria um bem para os doentes. Mas, segundo a lei da oferta e da procura, aquilo que  um bem para o ser 
humano no , necessariamente, um bem para a economia. Seria um mal para os laboratrios, empresas que obtm seus lucros da produo e venda de medicamentos a um 
mercado em expanso: a doena dos indivduos  a sade das empresas.
Se a oferta for em excesso os preos cairo e, com eles, os lucros. Geadas sobre os laranjais da Flrida so a felicidade dos produtores brasileiros de laranja: 
queda na oferta, aumento dos lucros. Se a demanda for grande e a oferta for pouca, os preos sobem e, com eles, os lucros.
As leis da economia ignoram a tica. O jogo econmico s conhece a tica do lucro. Se no me falha a memria, num dos prefcios d'O Capital, Marx observou que a 
lgica do capitalismo nada tem a ver com o carter moral dos capitalistas. Os capitalistas podem ser pessoas maravilhosas e sensveis. Mas a lgica do jogo econmico 
os obriga a jogar de uma certa forma, para no irem out of business.
Na dcada de 20 os legisladores americanos pensaram ser possvel abolir as leis do mercado por meio da tica. Puritanos e religiosos, sabiam dos malefcios individuais 
e sociais do lcool. Pensavam que um pas sbrio seria um pas sbio. Assim decretaram a proibio de bebidas alcolicas.
Mas o que se seguiu no foi o que haviam imaginado. Uma lei no tem o poder para eliminar um desejo. O pas no ficou nem mais sbrio e nem mais sbio. Ficou mais 
criminoso. Os americanos continuaram a querer beber bebidas alcolicas. Havendo demanda sem haver mecanismos para satisfaze-la legalmente, mecanismos ilegais aparecem 
para atender ao desejo. Surgiu, ento, uma empresa para atender  demanda: a Mfia. Com a proibio as bebidas se tornaram bens raros e caros. E sem o nus das obrigaes 
fiscais. Os lucros subiram. O mercado do trfico ilegal de bebidas se revelou, ento, como infinitamente mais lucrativo que o mercado legal. A proibio tica foi 
boa para os negcios. O poder econmico da Mfia cresceu como um polvo e se infiltrou em todos os setores da vida americana: na poltica, na justia, estabelecendo 
uma rede de corrupo mais poderosa que a moral puritana dos protestantes. Crimes individuais so pequenos ferimentos no corpo, logo cicatrizam. Mas crimes econmicos 
empresariais so um cncer: tomam conta do corpo e o matam.
Aumentar o nmero de policiais, o nmero de viaturas, o poder das armas: essas so providncias inteis. So inteis porque as instituies policiais funcionam tambm 
segundo as leis do mercado.
O que so instituies policiais? So organizaes que vendem servios - como hospitais e escolas. Que servio vendem? Vendem segurana. Sendo servios, os seus 
preos seguem a lei da oferta e da procura. Tem o servio quem paga mais. Os policiais: quem paga mais pelos seus servios de segurana? O Estado ou as empresas 
do crime?
Os legisladores americanos invocaram razes ticas para proibir o comrcio das bebidas. Fracassaram. As leis do mercado foram mais fortes. Da mesma forma  irrealista 
imaginar que a polcia, por razes ticas, v se colocar fora das leis do mercado. Imagino que sou um policial. Ganho R$ 1.000,00 para arriscar a minha vida em defesa 
da lei, lutando contra as empresas do crime. A uma empresa do crime me oferece uma mesada de R$ 5.000,00 simplesmente para fechar os olhos. Com esse dinheiro a 
vida ficaria muito melhor: um carrinho para passear com a famlia, uma bicicleta para o filho, um vestido novo para a mulher, maternidade para o nen a caminho... 
No so esses desejos legtimos de qualquer homem? Ser tico num pas de anes de oramento, lalaus, barbalhos e malufs: ser integridade ou idiotice?
Antes da proibio havia o mal das bebidas alcolicas. Depois da proibio continuou o mal das bebidas alcolicas, acrescido do mal muito maior do imprio da Mfia. 
Na primeira alternativa, as bebidas, sendo comercializadas livremente, fica o mal da bebida, sozinho. Na segunda alternativa, o comrcio das bebidas sendo proibido, 
fica o mal da bebida acrescido do mal muito maior das empresas underground do crime e toda a sua violncia e corrupo.
Essa, precisamente,  a situao do Brasil, diante do trfico de drogas. Primeira alternativa: o mal das drogas, sozinho. Segunda alternativa: o mal das drogas acrescido 
da rede underground do crime, com todas as suas consequncias. As consequncias da existncia dessa rede so infinitamente piores que o puro mal das drogas. Uma 
proibio, baseada em nobres intenes ticas, pode ser a causa de um mal maior que aquele que ela pretende eliminar. Por vezes  impossvel decidir entre o bom 
e o mau. S  possvel decidir entre o mau e o horrendo. Essa, a meu ver,  a primeira deciso a ser tomada pela sociedade, se  que ela deseja atingir a rede de 
violncia no seu corao.
(Correio Popular, Caderno C, 04/11/2001.) 



SOBRE ROSAS, FORMIGAS E TAMANDUAS

O seu nome era Brasilino Jardim. Brasilino Jardim tinha jardim no nome e jardim no corao. Ele amava todas as coisas vivas, de plantas a urubus. A vida, para ele, 
era sagrada.

Brasilino Jardim no ia  igreja. As pessoas religiosas temiam por sua alma e se perguntavam: "Ele no sabe que  preciso ir  igreja para estar bem com Deus? Quem 
no est bem com Deus corre perigo! Deus castiga!"

Brasilino sorria um sorriso manso e perguntava: "Onde est dito, nas Sagradas Escrituras, que Deus fez uma igreja? Todo Poderoso, se quisesse igrejas teria feito 
igrejas. Todo Poderoso, ele fez o que queria. E o que  que ele fez? Plantou um jardim. E est dito que ele 'andava pelo jardim ao vento fresco da tarde!' Quando 
estou no jardim sei que estou andando no lugar que Deus ama. Deus ama a vida, o vento, o sol, a terra, a gua - coisas que esto no jardim. Mas as igrejas so lugares 
fechados, abafados. Bichos e plantas no se sentem felizes l dentro..."

No frequentava igrejas mas amava um santo: So Francisco. Porque So Francisco foi o homem que via Deus nas coisas da natureza. So Francisco amava tudo o que vivia 
e, segundo a lenda, as coisas que viviam o entendiam, tanto que ele pregava sermes aos peixes e aos pssaros. Frequentemente os animais ouvem melhor que os seres 
humanos...

Foi ento que o Brasilino Jardim resolveu plantar um jardim em homenagem a So Francisco. Teria de ser um lindo jardim, com um canteiro de rosas no meio. E assim 
foi. Vendo as folhas viosas das roseiras, a primeira rosa que se abrira e os botes que se abririam no dia seguinte, Brasilino foi dormir contente.

Ao acordar pensou logo no jardim. Queria ver se os botes j estavam abertos. Mas, decepo! O que ele encontrou foi devastao. Durante a noite as formigas savas 
haviam cortado todas as folhas e todas as flores das roseiras. Brasilino ficou muito triste. Resolveu aconselhar-se com um vizinho que tinha um lindo canteiro de 
rosas floridas.

"O jeito  matar as formigas", disse o vizinho. "Formigas e jardins no combinam. Para as formigas jardins so hortas, coisas para serem comidas."

"Matar as formigas? De jeito nenhum. So criaturas de Deus, como todos ns. Se foi Deus quem as fez, elas tm o direito de viver. Formigas tm direitos..." E com 
essas palavras deixou o vizinho falando sozinho. "Onde j se viu matar as formigas? So criaturas de Deus. Tem de haver outro jeito..."

Pensou: "Se as formigas comeram as roseiras, comeram porque estavam com fome. No foi por maldade. Se eu der comida s formigas elas deixaro de ter fome e no comero 
as rosas".

Dito isso plantou,  volta do jardim de rosas, um anel de cenouras tenras e doces que seriam o deleite alimentar das formigas. Mas as formigas ignoraram as cenouras. 
Continuaram a comer as roseiras.

"Talvez elas no tenham entendido", ele pensou. "No perceberam nem que as cenouras so deliciosas e nem que so para elas. Ainda no foram educadas. Se forem educadas 
para gostos mais refinados no comero as rosas. Serei um educador de formigas."

E como sabia que a noite  o tempo preferido pelas formigas para cortar roseiras, Brasilino passou a dar aulas s formigas durante a noite, peripateticamente, no 
seu jardim. Queria que as formigas aprendessem a gostar gastronomicamente de cenouras e plasticamente de rosas.

O vizinho ficou incomodado com aquele falatrio noturno. Foi ver do que se tratava. E se espantou. "Brasilino, voc endoidou? Pregando s formigas?" Brasilino respondeu: 
"So Francisco pregou aos pssaros e aos peixes. E eles entenderam. Pois eu vou pregar s formigas e elas havero de entender." Mas as formigas no ligavam para 
a aula do Brasilino. No aprenderam a lio nova. Formiga continua a ser formiga. Continuaram a cortar as roseiras.

Diante do fracasso da pedagogia, Brasilino se lembrou de um recurso inventado pelos humanos chamado "condomnio". O que  um condomnio? So casas cercadas de muros 
de todos os lados, com o objetivo de impedir a entrada dos criminosos, que ficam do lado de fora. "Farei o mesmo com as minhas roseiras", ele disse triunfante. Ato 
contnuo tomou garrafas de coca litro, cortou bicos e fundos, fez um corte vertical ao lado e usou esses cilindros ocos como cintas protetoras para os caules das 
roseiras. "Agora minhas roseiras esto protegidas! As formigas no entraro!" Pobre Brasilino! Ele no conhecia a esperteza das formigas. Elas sabem fazer tneis, 
escalar muralhas, passar por frestas, fazer pontes. E quando ele foi ao jardim, pela manh, viu que as formigas haviam devorado de novo suas roseiras.

Lembrou-se ento Brasilino de uma velha estria que relata o feito de um flautista que livrou uma cidade de uma praga de ratos que a infestava. O que foi que o flautista 
fez? Simplesmente tocou sua flauta! "Ah! A msica tem poderes mgicos! Claro, as formigas no entendem a linguagem pedaggica dos argumentos. Havero de ser sensveis 
 magia da msica." Comprou uma flauta e ps-se a tocar o Bolero de Ravel. As formigas reagiram imediatamente. Sentiram o poder da msica. At os bichos tm msica 
na alma. Comearam a mastigar folhas e rosas ao ritmo da msica encantadora.

Com o fracasso da msica, veio-lhe, ento, uma nova idia: "Se as formigas no podem ser nem conscientizadas pela palavra e nem sensibilizadas pela msica, as rosas 
podem ser. Assim, vou despertar nas minhas rosas o sentimento da no-violncia, da beleza da paz. O pensamento tem poder. Se todas as rosas fizerem juntas uma corrente 
de pensamentos de paz a energia positiva no ar ser to forte que as formigas se convertero..."

Espalhou, pelo jardim, imagens coloridas de paz. Flores sorridentes. Ps CDs com msica sobre rosas, Strauss, Vandr e Caymi. Tudo, no espao do jardim, sugeria 
paz e no violncia. Quem visitasse o seu jardim sentia a energia positiva no ar. Mas parece que as formigas no eram sensveis  energia positiva de paz. Continuaram 
a cortar as rosas.

A ele comeou a ter raiva das rosas. "No compreendo a passividade das rosas! Elas no se defendem! Tinham de se defender! Pois Deus no dotou as criaturas com 
o direito de defender a sua vida?"

Cobriu ento os galhos das roseiras com espinhos pontudos e afiados, facas e espadas que as rosas deveriam usar para se defender das formigas. Mas as rosas no sabiam 
se defender. No sabiam usar armas. Eram mansas e desajeitadas por natureza. As formigas continuaram a subir pelos seus galhos sem ligar para os espinhos.

No desespero, Brasilino resolveu tomar uma atitude mais radical, que mesmo contrariava seu sentimento de reverncia pela vida: foi para o jardim munido de um martelo 
e ps-se a martelar as formigas que se aproximavam das suas roseiras. Mas o nmero das formigas era imenso. No paravam de chegar. Matou muitas formigas a marteladas, 
o que no as perturbou. E havia tambm o fato de que Brasilino no podia ficar martelando formigas o tempo todo. Precisava dormir. Dormindo, o martelo descansava. 
E as formigas trabalhavam.

"J sei!", ele disse. "Apelarei para o Papa. O Papa tem reza forte. Pedirei que ele ore para que as formigas parem de comer minhas rosas". Escreveu ento uma carta 
para o Papa, expondo o seu sofrimento, e pedindo que ele intercedesse junto aos santos, junto  virgem, junto a Deus... Afinal de contas, as hostes celestiais deviam 
ter um interesse especial na preservao do jardim, aperitivo do Paraso.

As autoridades eclesisticas, de posse da carta de Brasilino, deram a ela a maior considerao, e a colocaram na lista da oraes pela paz que o Papa rezava diariamente: 
paz entre judeus e palestinos, paz entre russos e chechnios, paz entre protestantes e catlicos, paz na Espanha, paz na Colmbia, paz no Peru, paz na frica... 
Era uma lista enorme. O Papa orou mas nada mudou. Os homens continuaram a se matar e as formigas continuaram a cortar suas roseiras.

De repente ele ouviu uma voz que o chamava. Era a voz do seu vizinho, que contemplava tudo em silncio. "Eu tenho uma soluo para o seu problema com as formigas, 
sem que voc tenha de matar as formigas."

Brasilino se espantou: "Como?"

O vizinho explicou: "Voc acha que as formigas so criaturas de Deus. Sendo criaturas de Deus tm direito a viver. Voc est em boa companhia espiritual. Homens 
como So Francisco, Gandhi e Schweitzer tambm sentiam reverncia pela vida." Brasilino ficou feliz ao se ver colocado ao lado desses santos.

Seu vizinho continuou: "Mas isso que voc diz para as formigas deve valer para todas as criaturas. Certo?" "Certo", concordou Brasilino.

"Ento, por que voc no traz um tamandu para morar no seu jardim? Tamandus tambm so criaturas de Deus. E adoram comer formigas! Para isso tm uma lngua fina 
e comprida, que entra at o fundo dos formigueiros! Para o tamandu, comer formiga no  pecado;  virtude!"

E foi assim que o Brasilino, sem desrespeitar suas convices espirituais, trouxe um tamandu para viver no seu jardim. E o tamandu engordou, as formigas sumiram, 
o jardim floresceu e o Brasilino sorriu...

Moral da estria: Quem quiser se livrar das formigas e manter uma conscincia tranquila, que compre um tamandu...

DICAS:
1. Onde encontraremos tamandus?
2. Olhado para o pra-raios do mosteiro de Itaici ele me recitou um versinho de um poeta portugus: "Os pra-raios nas torres das igrejas / so para contar aos ateus 
/ que em dias de tempestade / os cristos no confiam em Deus..." 
3. Muitos anos atrs, no auge da revoluo feminista nos USA, as adolescentes engravidavam de propsito, s para a abortar. Porque fazer um aborto era a credencial 
para se pertencer ao crculo das mulheres livres. Fazer um aborto era a prova de que ela era dona do seu prprio corpo, que ela no estava  merc daquilo que os 
homens lhes fizessem. Em certos crculos da marginalidade matar uma pessoa - mesmo sem razo alguma -  a credencial para se provar como pertencente ao conjunto 
dos homens que desafiam as regras da sociedade.

(Correio Popular, Caderno C, 07/10/2001.) 



MANDE UM ANJO

Toninho: no prximo dia dez vo se completar trs meses da sua partida. Voc sabe que eu no votei em voc. Mas poderia. Eu confiava em voc. Eleito, fiquei  sua 
disposio para ajudar no que fosse possvel. Tnhamos sonhos comuns. Gostvamos de jardins. Foi sobre jardins que conversamos na ltima vez em que estivemos juntos. 
Inspirado naquele artigo meu "Sobre Poltica e Jardinagem" voc me revelou que estava planejando comear um projeto de formao de jardineiros em Campinas. E me 
convidou para cooperar. Mas  claro! Pois eu acho que a jardinagem  a melhor escola da poltica. Cidadania  isso: quando todos se sentem jardineiros, cuidadores 
do espao da cidade. Na jardinagem o poder fica bonito porque ele se dedica a fazer um mundo melhor.
Meu pai morreu pobre. No deixou herana. Por isso eu e meus irmos nunca brigamos. No havia uma herana a ser disputada. Existindo uma herana os irmos se tornam 
inimigos. A se acreditar no que dizem os jornais, sua partida est criando problemas: uma briga sobre a terrvel herana que voc deixou. Se, de onde voc est, 
voc leu a estria sobre "Os ratos, o gato e o queijo", voc entendeu. Esta estria, eu a escrevi faz muitos anos. Mas a sua verdade  permanente. Os ratos eram 
irmos enquanto no tinham o queijo. Bastou ter o queijo para que os ratos virassem gatos...
Sua herana terrvel: o poder. O poder  a lmpada mgica de Aladim que, uma vez esfregada, um gnio todo poderoso sai de dentro dela para realizar aquilo que o 
seu dono determina. Com a sua morte a lmpada ficou sem dono. E surge, ento, a inevitvel pergunta: Quem vai ficar com a lmpada? Quem vai poder dar ordens ao gnio?
A sociologia  uma cincia cruel. Ela mostra que, em todas as instituies, sem exceo, existe uma briga pela posse da lmpada. No importa que sejam cooperativas 
de plantadores de rosas, sindicatos de prostitutas, ordens religiosas, instituies mdicas, times de futebol, asilos de velhinhos... To diferentes umas das outras, 
no ? Mas, no fundo, l no fundo, h uma briga pelo poder.
Essa briga fica mais clara em dois tipos de instituies: as empresas e os partidos polticos. Nas empresas o nome da lmpada  lucro, independentemente daquilo 
que elas produzem. Uma empresa pode produzir rosas ou armas: independentemente do que produzem, elas precisam de lucro. O dinheiro  a vida das empresas.
Nos partidos polticos o nome da lmpada  poder. O objetivo primeiro de um partido  a tomada do poder. Aquilo a que se d o nome de processo democrtico  a luta 
para se apossar da lmpada mgica.
Mas  claro que nem as empresas e nem os partidos falam abertamente sobre isso. As empresas, quando se dirigem aos seus clientes, s falam sobre coisas que do beleza, 
coisas que do sade, coisas que poupam o trabalho, coisas de amor... E os partidos polticos, ao se dirigirem aos eleitores, vo como a Banda, cantando coisas de 
amor: educao, sade, segurana, proteo aos velhinhos, emprego para todo mundo, justia... Todos tocando a mesma msica.
O que vou dizer aprendi de Santo Agostinho, em suas meditaes sobre a poltica.  assim: tudo na vida se faz com uma mistura de poder e amor. Para fazer um jardim 
eu tenho de ter um sonho de amor, o jardim que amo; e poder para plant-lo. Para fazer uma casa eu tenho de ter amor - a casa dos meus sonhos - e poder para constru-la. 
O poder  bom quando est a servio do amor. Mas, de vez em quando, acontece um revertrio: o poder se esquece do amor e fica solto. Solto, sem objeto, o poder se 
apaixona por ele mesmo. Quando isso acontece  o pandemnio,  a luta,  a possesso demonaca. O poder se esquece do amor, os polticos se esquecem do povo, os 
jardineiros se esquecem dos jardins...
A, acontece o inverso da Banda. Ao invs de cantar coisas de amor, os partidos comeam a cantar coisas de poder. E o povo no  bobo. Percebe. Ouvindo coisas de 
amor o povo marcha alegremente na avenida. Ouvindo os rudos da briga pelo poder o povo fica triste, perde a esperana e debanda...
Estou triste. Tenho medo de que seja isso o que vai acontecer. Campinas j sofreu muito. Campinas no merece. Campinas teve esperana. Est deixando de ter. Ser 
que voc no pode mandar um Anjo para acabar com a briga?
(Correio Popular, Caderno C, 02/12/2001.) 



QUE VONTADE DE CHORAR

Era uma manh fresca e transparente de primavera. Parei o carro na luz vermelha do semforo. Olhei para o lado - e l estava ela, menina, dez anos, no mais. O seu 
rosto era redondo, corado e sorria para mim. "O senhor compra um pacotinho de balas de goma? Faz tempo que o senhor no compra..." Sorri para ela, dei-lhe uma nota 
de um real e ela me deu o pacotinho de balas. Ela ficou feliz. A a luz ficou verde e eu acelerei o carro, no queria que ela percebesse que meus olhos tinham ficado 
repentinamente midos.
Quando eu era menino, l na roa, havia uma mata fechada. Os grandes, malvados, para me fazer sofrer, diziam que na mata morava um menino como eu. "Quer ver?", eles 
perguntavam. E gritavam: " menino!" E da mata vinha uma voz: " menino!" Eu no sabia que era um eco. E acreditava. Nas noites frias, na cama, eu sofria, pensando 
no menino, sozinho, na mata escura. Onde estaria dormindo? Teria cobertores? Os seus pais, onde estariam? Ser que eles o haviam abandonado?  possvel que os pais 
abandonem os filhos?
Sim,  possvel. Joo e Maria, abandonados sozinhos na floresta. Os seus pais os deixaram l para serem devorados pelas feras. Diz a estria que eles fizeram isso 
porque j no tinham mais comida para eles mesmos. Ser que os pais, por no terem o que comer, abandonam os filhos? Ser por isso que as crianas so vistas freqentemente 
na floresta vendendo balas de goma? Ser que havia balas de goma na cesta que Chapeuzinho Vermelho levava para a av? Ser que a me de Chapeuzinho queria que ela 
fosse devorada pelo lobo? Essa  a nica explicao para o fato de que ela, me, enviou a menina sozinha numa floresta onde um lobo estava  espera.
Num dos contos de Andersen uma menininha vendia fsforos de noite na rua (se fosse aqui estaria num semforo), enquanto a neve caa. Mas ningum comprava. Ningum 
estava precisando de fsforos. Por que uma menininha estaria vendendo fsforos numa noite fria? No deveria estar em casa, com os pais? Talvez no tivesse pais. 
Fico a pensar nas razes que teriam levado Andersen a escolher caixas de fsforos como a coisa que a menininha estava a vender, sem que ningum comprasse. Acho que 
 porque uma caixa de fsforos simboliza calor. Dentro de uma caixa de fsforos esto, sob a forma de sonhos, um fogo aceso, uma panela de sopa, um quarto aquecido... 
Ao pedir que lhe comprassem uma caixa de fsforos numa noite fria a menininha estava pedindo que lhe dessem um lar aquecido. Lar  um lugar quente. Pois, se voc 
no sabe, consulte o Aurlio. E ele vai lhe dizer que o primeiro sentido de "lar"  "o lugar da cozinha onde se acende o fogo." De manh a menininha estava morta 
na neve, com a caixa de fsforos na mo. Fria. No encontrou um lar.
Um supermercado  uma celebrao de abundncia. No estacionamento as famlias enchem os porta-malas dos seus carros com coisas boas de se comer. "Graas a Deus!", 
eles dizem. Do lado de fora, os famintos, que os guardas no deixam entrar. Se entrassem no estacionamento a celebrao seria perturbada. "Dona, me d uns trocados?" 
O menino estava do lado de fora. Rosto encostado na grade, o brao esticado para dentro do espao proibido, na direo da mulher. A mulher tirou um real da bolsa 
e lhe deu. Mas esse gesto no a tranqilizou. Queria saber um pouco mais sobre o menino. Puxou prosa. "Para que voc quer o dinheiro?" perguntou. "Pr voltar pr 
onde eu durmo." "E onde  a sua casa?" "No vou voltar pr casa. Eu no moro em casa. Eu durmo na rua. Fugi da minha casa por causa do meu pai..."
Em muitas estrias o pai  pintado como um gigante horrendo que devora as crianas. Na estria do "Joo e o p de feijo" ele  um ogro que mora longe, muito alto, 
nas nuvens, onde goza sozinho os prazeres da galinha dos ovos de ouro e da harpa encantada. Me e filho, l embaixo, morrem de fome. Por vezes as crianas esto 
mais abandonadas com os pais que longe deles. Como aconteceu com a Gata Borralheira. Seu lar estava longe da me-madrasta e das irms: como uma gata, o borralho 
do fogo era o nico lugar onde encontrava calor.
E comecei a pensar nas crianas que, para comer, fazem ponto nos semforos, vendendo balas de goma, chocolate bis, biju. Ou distribuindo folhetos... Ah! Os inteis 
folhetos que ningum l e ningum quer e que sero amassados e jogados fora. O impulso  fechar o vidro e olhar para a criana com olhar indiferente - como se ela 
no existisse. Mas eu no agento. Imagino o sofrimento da criana. Abro o vidro, recebo o papel, agradeo e ainda pergunto o nome. Depois, discretamente, amasso 
o papel e ponho no lixinho...
E h tambm os adolescentes que querem limpar o pra-brisa do carro por uma moeda. J sou amigo da "turma" que trabalha no cruzamento da avenida Brasil com a avenida 
Orozimbo Maia. Um deles, o Pel, tem inteligncia e humor para ser um "relaes pblicas"...
Lembro-me de um menino que encontrei no aeroporto de Guarapuava. No seu rosto, mistura de timidez e esperana. "O senhor compra um salgadinho para me ajudar?" Ficamos 
amigos e depois descobrimos que a mulher para quem ele vendia os salgadinhos o enganava na hora do pagamento...
Um outro, no aeroporto de Viracopos, era engraxate. O pai sofrera um acidente e no podia trabalhar. Tinha de ganhar R$ 20.00. Mas s podia trabalhar enquanto o 
engraxate adulto, de cadeira cativa, no chegava. Tinha, portanto, de trabalhar rpido. Tivemos um longa conversa sobre a vida que me deixou encantado com o seu 
carter e inteligncia - ao ponto de ele delicadamente me repreender por um juzo descuidado que emiti, pelo que me desculpei.
E me lembrei das meninas e meninos ainda mais abandonados que nada tm para vender e que,  noitinha, nos semforos (onde sero suas casas?), pedem uma moedinha...
Houve uma autoridade que determinou que as crianas fossem retiradas da rua e devolvidas aos seus lares. Ela no sabia que, se as crianas esto nas ruas,  porque 
as ruas so o seu lar. Nos semforos, de vez em quando, elas encontram olhares amigos.
Os especialistas no assunto j me disseram que no se deve ajudar pessoas nos semforos, pois isso  incentivar a malandragem e a mendicncia. Mas me diga: o que 
vou dizer quela criana que me olha e pede: "Compre, por favor..."? Vou lhe dizer que j contribuo para uma instituio legalmente credenciada? Me diga: o que  
que eu fao com o olhar dela?
Minhas divagaes me fizeram voltar ao Irmos Karamazvi, de Dostoivski. Um dos seus trechos mais pungentes  uma descrio que faz Ivan, ateu, a seu irmo Alioscha, 
monge, da crueldade de um pai e uma me para com a sua filhinha. "Espancavam-na, chicoteavam-na, espisoteavam-na, sem mesmo saber por que o faziam. O pobre corpinho 
vivia coberto de equimoses. Chegaram depois aos requintes supremos: durante um frio glacial, encerraram-na a noite inteira na privada sob o pretexto de que a pequena 
no pedia para se levantar  noite (como se um criana de cinco anos, dormindo o seu sono de anjo, pudesse sempre pedir a tempo para sair!). Como castigo, maculavam-lhe 
o rosto com os prprios excrementos e a obrigavam a com-los. E era a me que fazia isso - a me! Imagina essa criaturinha, incapaz de compreender o que lhe acontecia, 
e que no frio, na escurido e no mau cheiro, bate com os punhos minsculos no peito, e chora lgrimas de sangue, inocentes e mansas, pedindo a 'Deus que a acuda'. 
Todo o universo do conhecimento no vale o pranto dessa criana suplicando a ajuda de Deus."
Num pargrafo mais tranqilo o starets Zossima medita "Passas por uma criancinha: passas irritado, com ms palavras na boca, a alma cheia de clera; talvez tu prprio 
no avistasses aquela criana; mas ela te viu, e quem sabe se tua imagem mpia e feia no se gravou no seu corao indefeso! Talvez o ignores, mas quem sabe se j 
disseminaste na sua alminha uma semente m que germinar! Meus amigos: pedi a Deus alegria! Sede alegres com as crianas, como os pssaros do cu."
Quando essas imagens comearam a aparecer na minha imaginao comecei a ouvir (essas msicas que ficam tocando, tocando, na cabea...) sem que a tivesse chamado 
aquela cano Gente humilde, letra do Vincius, msica do Chico. "Tem certos dias em que eu penso em minha gente e sinto assim todo o meu peito se apertar..." Pelo 
meio o Vincius conta da sua comoo ao ver "as casas simples com cadeiras nas caladas e na fachada escrito em cima que  um lar". Termina, ento, dizendo: "E a 
me d uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu no ter como lutar. E eu que no creio peo a Deus por minha gente.  gente humilde. Que vontade de chorar."
Se fosse hoje o Vincius no teria vontade de chorar. Ele riria de felicidade ao ver as cadeiras nas caladas e as fachadas escrito em cima que  um lar... Vontade 
de chorar ele teria vendo essa multido de crianas abandonadas, entregues ou  indiferena ou  maldade dos adultos: "E a me d uma tristeza no meu peito feito 
um despeito de eu no saber como lutar..." S me restam meu intil sorriso, minhas inteis palavras, meu intil Real por um pacotinho de balas de goma...
(Correio Popular, Caderno C, 14/10/2001.) 



A TORRE DE BABEL

1. Minhas idias esto em cacos. Minha cabea  uma sala de projeo de slides. Imagens aparecem e desaparecem sem parar e sem ordem aparente.

2. A pattica figura de Bush, diante da televiso: olhinhos de coelho assustado, sem saber o que dizer. Lder da nao mais poderosa e arrogante do mundo. Mas ele 
ignora o mundo. Teve um sonho fantstico: transformar os Estados Unidos numa bolha auto-suficiente e fechada, protegida por uma couraa que nenhum mssil poderia 
penetrar. Acho que ele se inspirou nos guerreiros medievais, que se protegiam com armaduras de ferro. Imaginou-se como o lder que seria lembrado como aquele que 
havia transformado seu pas num guerreiro invulnervel, protegido por um escudo imperfurvel: um outro "Super Heri". A, de repente, apareceu-me uma imagem cmica: 
dois guerreiros medievais em luta, medonhos em suas armaduras, espadas batendo contra o ferro.  ento que um deles pisa num formigueiro de formigas lava-ps... 
Voc j pisou num formigueiro de formigas lava-ps? O nome est dizendo: elas lavam o p.  s tocar o formigueiro que elas saem, minsculas, rapidssimas, centenas, 
milhares, sobem pelos ps, pelas pernas, entram no sapato, nas meias, no meio dos dedos, e vo picando por onde vo. E a gente arranca sapato, meias, e se pe a 
esfregar e estapear ps e pernas, para se livrar delas... Imagino o que teria acontecido com aquele guerreiro, protegido por uma armadura que nenhuma espada podia 
perfurar, quando atacado pelas formigas lava-ps... Deve ter sido um bal hilariante. Mesmo as armaduras mais perfeitas tm frestas. Era isso que Bush ignorava. 
No sei se ficou sabendo. O golpe foi o mais espetacular. Foi planejado para ser espetacular. Aqueles que o prepararam queriam que o mundo visse a dana do guerreiro 
impenetrvel. Nada mais espetacular, sem dvida. Mas no o mais terrvel. O mais terrvel no ser espetacular. Ser silencioso. No dar transmisso por televiso. 
Homens e mulheres, discretamente, sem alarde, carregando em seus bolsos tubos de ensaio cheios de bactrias letais. Fcil abri-los num metr, numa igreja, num supermercado, 
num teatro. Ningum percebe. Mas a morte est solta. Disso tiramos duas simples lies. Primeira: No  possvel ter segurana no mundo em que vivemos. Todas as 
armaduras tm frestas. Segunda: Ou aprendemos a viver como seres racionais ou nossa civilizao estar condenada.

3. Mitos so profecias - representaes poticas do destino humano. A Torre de Babel - smbolo da mais arrogante pretenso dos homens: queriam ser iguais a Deus, 
queriam ter poder absoluto. Pensavam que o poder, forte, lhes garantiria o viver, fraco. Mas quando o "amor ao poder" se torna o motivo dominante das aes humanas, 
a linguagem entra em colapso: os homens perdem a capacidade de se entender: a confuso das lnguas. O dinheiro  o smbolo supremo do amor ao poder. Nele esto as 
sementes da autodestruio. No dia 11 de setembro de 2001 o mito se transformou em histria: a destruio das Torres...

4. Imagens das minhas experincias com a guerra. 1942. Naquele tempo j existia a tal de globalizao: nada, em nosso mundo,  isolado: a guerra acontecia na Europa; 
o acar acabou na cidadezinha onde eu morava, no sul de Minas. O jeito foi comprar os estoques de balas que se vendiam nas vendas, guardadas em vidres de boca 
larga. A gente fervia as balas na gua de fazer caf. Depois acabaram as balas. O jeito era apelar para a sacarina. Horrvel. Amarga. Caf sem acar. O acar era 
bem raro, que s se comprava no mercado negro. Meu pai, viajante, conseguiu comprar meio quilo de acar. Eu me lembro: nos reunimos na cozinha e o meu pai colocou 
sobre a mesa o embrulhinho que ele foi solenemente abrindo, at que o p branco apareceu. Morava em nossa cidadezinha uma velhinha maravilhosa, fofa, macia, branca 
de p de arroz, que muito amvamos: Lilisa. Meu pai se lembrou dela. E num gesto supremo de amor, separou com uma faca metade do acar, embrulhou-o para presente, 
e fomos todos, em procisso, at a casa da Lilisa, conduzindo em andor o corpo de Cristo! Depois acabou a gasolina. Meu pai tinha um carro. Parado, havia o perigo 
de que os pneus se estragassem. Providenciou quatro suportes de madeira e sobre eles colocou o carro intil. Inventaram ento o gasognio: fornalhas cilndricas 
que se colocavam na traseira do carro, para a queima de carvo. Dessa queima saa um gs, acho que metano, que era usado como combustvel. Menino, no me interessei 
pelos detalhes tecnolgicos do gasognio porque meu pai no tinha um. Mas os carros parados no alteraram em nada a nossa vida. Os principais meios de transporte 
de que as pessoas se valiam continuavam funcionando, posto que no dependiam de gasolina: as pernas, os cavalos, as carroas, os carros de boi, as charretes e o 
trem de ferro.

5. Globalizao. Globo. Tudo est ligado numa estrutura nica. Globalizao: todas as partes do nosso mundo esto inter-ligadas. O dinheiro faz as ligaes. Dinheiro 
 poder. O poder no entende a linguagem do amor. Da a "confuso das lnguas". Essa  uma das lies mais preciosas de Marx: o capitalismo no conhece os "valores 
de uso" - ligados  vida; s conhece os "valores de troca", ligados ao dinheiro.

6. Globalizao: bolhas de sabo so globos. Nas estruturas globais basta que se rompa um nico elo da estrutura para que o todo se desmorone. Globalizao significa: 
vivemos numa bolha de sabo: estrutura maravilhosa que se rompe se o vento soprar mais forte. Vivemos na estpida iluso da solidez do mundo em que vivemos. Como 
viviam aqueles que, diariamente, trabalhavam nas Torres.

7. J imaginaram o que vai acontecer se, por acaso, faltar combustvel? Faltou, quando eu era menino. No fez muita diferena. Mas, e se faltar agora? Todos os meios 
de transporte paralisados. Os carros parados nas garagens - como o Plymouth de mau pai, em 1942... As geladeiras se esvaziando. Ser intil ir  p aos supermercados 
para comprar o que nos falta. Tambm os seus estoques estaro vazios: os caminhes esto parados. A imaginao frtil pode mesmo imaginar o incio de necessidades 
antropofgicas...

8. Quem vai sobreviver? Os ndios, remando suas canoas, pescando nos rios, caando nas florestas... Os pobres nordestinos com seus jegues, sobrevivendo como sempre 
sobreviveram... Os pequenos agricultores, em lugares distantes, com suas hortas, galinhas e porcos...

9. Os dinossauros desapareceram. As lagartixas sobreviveram. Como disse um economista indiano: "It is sure that the fittest will survive. But there is no indication 
that the fattest are the fittest..." ( certo que os mais aptos sobrevivero. Mas no h nenhuma indicao de que os mais gordos sejam os mais aptos ).

10. Rollo May sugeriu um epitfio a ser colocado no tmulo dessa espcie em perigo de extino chamada "Homo Sapiens": "Como o dinossauro ele tinha poder sem capacidade 
de mudana, fora, sem capacidade de aprender."

11. Psicologia: pus-me na posio do piloto, seu avio apontado na direo da Torre. Imaginei o que teria sentido. Medo? De forma alguma. Certamente havia um sorriso 
nos seus lbios. Ele devia estar possudo por uma alegria imensa, inebriado pelo seu deus: a Morte. O desejo de vingana  um dos desejos mais profundos e mortferos 
da alma humana.

12. Sanso, como  sabido, foi um heri bblico, de fora descomunal. Seduzido por Dalila, filistia linda, ele lhe revela o segredo de sua fora: os cabelos. E 
ela, valendo-se do seu sono, os corta. Fraco,  preso pelos seus inimigos que lhe furam os olhos. O que se segue  a transcrio de um texto bblico. Sanso estava 
cego mas seus cabelos haviam crescido.  ento levado pelos seus inimigos para uma grande celebrao de triunfo, num templo. "E Sanso clamou por Deus e disse: D-me 
foras para me vingar dos Filisteus... E Sanso se colocou entre as duas colunas sobre as quais a estrutura do templo se apoiava, a mo direita contra uma, a mo 
esquerda contra a outra - e sobre elas colocou toda a sua fora. E o templo ruiu sobre os lderes e sobre o povo. E assim, aqueles que ele matou com sua morte foram 
mais numerosos que todos os que havia morto com a sua vida..." (Livro de Juizes 17: 28-30).  possvel que a lenda do piloto esteja sendo contada ao lado da lenda 
de Sanso...

13. Os terroristas no se chamam terroristas. Somos ns que lhes damos esse nome. Eles se acreditam instrumentos de Deus para o estabelecimento da verdade. No so 
suicidas. So mrtires que se sacrificam para que a verdade triunfe. Aquelas Torres eram templos do Demnio. Haver coisa mais importante no mundo que derrotar o 
Demnio? Contra ele todos os mtodos so legtimos. Que so umas poucas vidas quando o destino do universo est em jogo? No era assim que pensava a Igreja quando 
acendia fogueiras para queimar os hereges em praa pblica, em espetculos oferecidos para prazer e edificao espiritual das pessoas mais delicadas e religiosas?

14. Osama Bin Laden: seu rosto no se parece com o rosto de um santo? O perigo no vem dos que se silenciam sobre Deus. O perigo vem daqueles que esto convencidos 
de serem instrumentos para a realizao da vontade de Deus.

15. Todo cadver  semente. Todo tmulo  canteiro. "E o cadver que voc plantou no seu jardim o ano passado? J comeou a brotar?" (T. S. Eliot)

16. "E talvez chegar o grande dia em que um povo, notvel por guerras e vitrias e pelo mais alto desenvolvimento de uma ordem e inteligncia militares, e acostumado 
a fazer os mais altos sacrifcios por essas coisas, exclamar livremente: 'Ns quebramos a espada!' - e com isso destruir suas organizaes militares at seus mais 
profundos fundamentos. Tornar-se desarmado quando se foi o mais bem armado, a partir de um sentimento - esse  o meio para a paz real, que deve descansar sobre a 
paz de esprito. (...) Antes perecer que odiar e temer, e duplamente 'antes perecer que fazer-se odiado e temido' - essa deveria se tornar, algum dia, a mxima suprema 
para cada povo." (Nietzsche)

17. "Somente onde h tmulos h tambm ressurreies" (Nietzsche).  preciso que a catstrofe seja um tmulo de onde uma vida nova surge.

18. A natureza ignora a loucura dos homens: os ips amarelos continuam a florescer. "Ah! Como os mais simples dos homens so doentes e confusos e estpidos ao p 
da clara simplicidade e sade em existir das rvores e das plantas!" (Alberto Caeiro)

(Correio Popular, Caderno C, 16/09/2001.) 



NOS AINDA TROCAMOS OS CHINELOS

Abaixo est uma carta deliciosa da Dina. Minha vontade era public-la! Uma mulher de 86 anos com a leveza, o humor e a vontade de viver como a Dina merecia voar 
para envergonhar e ressuscitar os mais jovens! Mas no pude faze-lo, por razes que vocs compreendero. Mas agora ela morreu. Ela e suas cartas esto livres, alm 
de quaisquer punies. Enquanto viva ela me autorizou a publicar o que quisesse depois da sua morte.

***

Rubem, sempre voc, fazendo com que eu recorde, relembre o passado...

Voc escreveu no Correio Popular no seu espao, sobre o sexo dos idosos, voc citou Davi com a jovem bonita para aquec-lo. E ele, moita. Voc se esqueceu de Salomo, 
que possua trezentas concubinas no serralho (1), no Harem, que quer dizer: lugar proibido. E fora elas, ainda tinha as esposas que residiam no palcio. Ser que 
ele podia com tanta mulher? Eram muitas, e ele precisava de homens para cuid-las; ajud-las no banho e no vestir. Mas Salomo mandava castr-los, e da, os eunucos, 
que quer dizer: castrados.

Ento, vamos ao fatos, no comeo citado. Uma estorinha vivida e presenciada por mim. Era o ano 47. Eu tinha que trabalhar muito para sustentar meus filhos, ajudar, 
porque o pai deles, no gostava de trabalhar em fbricas, era oleiro, e ganhava pouco.

At quarta-feira, eu lavava roupas para fora. Passava-as a ferro de carvo. O resto da semana ia fazer limpeza nas casas, onde moravam ingleses e alemes. Trabalhava 
s sextas-feiras para uma inglesa, ela tinha oitenta anos, o marido 82. Ela se chamava Miss Carr e ele Mister Carr. O nome eu nunca perguntei, eram "Miss e "Mister".

Ele ainda trabalhava na cidade, sempre muito bem vestido, estatura mdia, e ela tambm. Ele vinha almoar, naquela pontualidade britnica, 1/2 dia.

Ela fazia o almoo. Eu limpava a casa e lavava a roupa, que ela passava sentadinha numa cadeira. Eu arrumava a mesa, guardanapos em argolas de prata e coisas que 
tais e sempre flores na mesa.

Ele chegava, tirava o palet, e o colarinho sobressaliente duro qual papelo. Se lavava e os dois iam para a mesa. Depois eu tirava a mesa, isto , o que havia em 
cima, servia o cafezinho, e quando ia lev-lo, ela estava sentada no colo d'ele, e ele a beijava no rosto e em seus cabelos, cabelos que ela os trazia sempre azulados 
e ficavam assim agarradinhos como se fossem dois jovens. Eu achava lindo, e me perguntava: Ser? Ele ia para o trabalho e ela ficava no porto, ele se voltava e 
acenava-lhe com a mo, at virar a esquina.

E um dia de manh, eu arrumando o quarto d'ele, cada um dormia no seu. A encontrei dois chinelos, mas um era o d'ela.

Eu lhe disse: Miss, aqui tem um chinelo seu e outro do mister. E ela, com aquela carinha engraada e de quem fra bonita me disse, no seu portugus arrevezado: "Ns 
ainda trocamos chinelos..."

Eu arregalei os olhos e sorri, e vi n'aquela fraze to natural e to bela, que o amor, entre aqueles que se amam de verdade, nunca morre. Eu fiquei feliz com a felicidade 
e o amor que irradiava no rosto d'aquela velhinha simptica. (21-5-2001). Dina.

Faa disto o que lhe aprouver.

A est Rubem, o meu comentrio e a sinopse do seu escrito.

***

28-05: Recebi visita de um membro "superior", superior para mim  somente o Criador, determinando para mim de no escrever coisas que no competem com o regulamento 
interno. Se eu teimar, terei de me retirar daqui. Rubem querido, no  essa minha vontade, aqui somos castrados, no tenho vontade prpria. No tenho para onde ir...

Se publicar algo meu no mencione o meu nome. Porque aqui no se pode escrever para jornais.  proibido. Depois eu explico o bode que j deu. Ficarei incgnita.

05-06: Falando em ips. Eu os amo, amarelos e roxos, porque branco e rosa, nunca os vi. Na casa da minha sobrinha que eu morava antes de vir aqui, havia um ip. 
Dava flores amarelas; quando florescia, era aquela beleza espargindo ouro, pena que  de pouca durao. Mas minha sobrinha, tal e qual a mulher da vassoura, mandou 
cort-lo. (...) Na rua Abolio, depois do jardim dos artistas, (que agora deve estar lindo, cheio de flores, rvores e uma infinidade de plantas) havia um e eu 
sempre ia com o Pedro para ver aquela maravilha que estava ainda comeando... Tenho uma amiga, irm de igreja, mora perto, nunca pergunto a ela do jardim, porque 
ela vae  igreja 2 vezes por dia... E para esses crentes no adianta falar em flores, rvores, ips e outras coisas. Esto imbudos na crena e se esquecem das coisas 
lindas que Deus nos oferece por intermdio das plantas, borboletas, abelhas e mamangavas, sugando o nctar das flores. Eles no vm essas coisas. Esto fora do mundo, 
se arvoraram em celestiais e no terrqueos...

Quantas vezes j beijei rvores, minhas florinhas que agora j esto indo embora, eu a beijo todo dia e converso com elas, e a dama da noite que j deu flores, mas 
agora est descansando para uma outra florada.

09-06: Recebi sua carta e o livro que no foi bem recebido pela gerente (2). Aqui impera para mim a lei da censura. Desde que escrevi a carta do fogo e das vassouras 
de alecrim essa lei comeou a vigorar s para mim. Cartas? Tenho de escrev-las, no colar o envelope, d-las abertas para o provedor ler e ver se pode enviar ao 
destinatrio. Acho isso um absurdo. Estou sofrendo uma ditadura particular... No tenho culpa se o Senhor me fez assim. No passei do "be" "a" "b", mas Deus me 
faz ver e sentir as coisas... 

[Obs: Eu, Rubem, falei que gostaria de publicar as cartas dela. Ela respondeu:]

"S se for uma homenagem pstuma. Enquanto eu viver isso no ser possvel. Quando eu embarcar para paragens melhores - confio em Deus que elas existem - a sim, 
porque serei inatingvel. 15-06: Gosto dos meus bem-te-vis e dos pardais comiles. Quando no tem comida no recipiente onde eu coloco, eles chiam e alguns mais atrevidinhos 
vm at a porta do meu quarto. Os bem-te-vis me chamam: Oi, Oi e a ajudante de cozinha me diz, seus namorados esto chamando... Eu vejo neles o dedo de Deus. Como 
disse Emily Dickinson, vale mais que uma missa... Meus 86 anos esto sendo idnticos aos da minha me. Ela era vaidosa e no se conformava com a velhice. Depois 
de muitas andanas e no vai e vem da vida eu fui aprender o ofcio de cabelereira. Trabalhei num salo em Sto Amaro. Minha me, j bem velhinha vinha ficar comigo 
de vez em quando. Um dia em que l foi disse-me. "Filha, grifa-me o cabelo. (Grifar, deixar crespo). Lavei-lhe a cabea, secou no secador, em seguida puxei a cadeira 
de frente ao espelho e disse a ela: Me, sente-se aqui. Ela me olhou e disse: Bire-me a cadeira ao contrrio. Eu perguntei-lhe: Por que? E me disse: No quero me 
ber ao espelho. No quero me ber belha...(3) E eu lhe fiz a vontade. Depois da permanente pronta penteei-a e lhe disse: Agora pode olhar no espelho porque a senhora 
ficou mais bonita. Ao que ela me respondeu: Pode ser que o cabelo ficou bem, mas a cara  a mesma. E no olhou no espelho...


1. Serralho: Era o Palcio do sulto, na Turquia; parte desse palcio habitado pelas mulheres do sulto; harm.

2. O livro enviado foi "Oraes por um mundo melhor", de Walter Rauschenbusch, PAULUS.

3. Em certas partes do Portugal pronuncia-se o "v" como "b".

Coisa estranha: asilos evanglicos que so prises, e prises que abrem suas portas e janelas... Transcrevo trecho de uma carta que recebi, escrita com letra impecvel: 
"Prezado escritor: Lhe escrevo em nome da pacfica populao da Penitenciria de Presidente Bernardes/SP. A Biblioteca procura por todos os meios atender e estimular 
os anseios por leitura, cultura e educao dos mais de mil reeducandos e funcionrios da penitenciria. Porm o acervo  insuficiente para esta misso. A leitura 
 um poderoso fator de reeducao e uma til e piedosa substituta para a liberdade perdida..." No prximo domingo eu conto mais. Se, entretanto, algum desejar entrar 
em contato com a referida penitenciaria para doar livros, pode escrever para: Eduardo Isaac Manzino Israel - Matr. 158.197 / Biblioteca da Penitenciria de Presidente 
Bernardes / Rodovia Raposo Tavares, km 586 / Caixa postal 097 / CEP 19.300-970 - Presidente Bernardes - SP

(Correio Popular, Caderno C, 02/09/2001.) 



O PAI

Quando comeo a escrever deixo de ser dono de mim mesmo. Fico  merc de idias que nunca pensei. Elas aparecem sem que eu as tenha chamado e me dizem: "Escreva!" 
No tenho outra alternativa. Obedeo. Cummings, referindo-se a um livro seu, ao invs de dizer "quando eu escrevi esse livro", disse "quando esse livro se escreveu." 
No foi ele... O livro j estava escrito antes, em algum lugar. Ele s fez obedecer as ordens que o livro lhe deu. Nikos Kazantzakis, autor de Zorba, o Grego, confessou 
que as letras do alfabeto o aterrorizavam. E isso porque, uma vez soltas, elas se recusavam a obedecer as suas ordens. "As letras so demnios astutos e desavergonhados 
- e perigosos! Voc abre o tinteiro e as solta: elas correm - e voc no mais conseguir traze-las de novo para seu controle! Elas ficam vivas, juntam-se, separam-se, 
ignoram suas ordens, arranjam-se a seu bel-prazer no papel - pretas, com rabos e chifres. Voc grita e implora: tudo em vo. Elas fazem o que querem..."

Era meu costume tentar colocar ordem na casa: planejar, determinar de forma lgica e metdica os temas sobre que eu iria escrever. Foi assim que resolvi escrever 
um livro em que colocaria em ordem e diria tudo o que eu havia pensado sobre a educao. O ttulo seria: A ertica da educao e a educao da ertica. Por cinco 
anos lutei. As idias no me faltavam. Mas as palavras se recusaram a me obedecer. A dito livro no queria ser escrito. Wittgenstein passou por experincia semelhante. 
Por muitos anos ajuntou idias. A, tentou orden-las sob a forma de um texto filosfico. Eis o que aconteceu, em suas prprias palavras: "Depois de vrias tentativas 
mal sucedidas de fundir meus resultados numa pea nica, percebi que eu nunca haveria de ser bem sucedido. O melhor que eu poderia escrever seria nada mais que anotaes 
filosficas; os meus pensamentos ficavam logo paralisados se eu tentava fora-los numa nica direo contra a sua inclinao natural."

Pois eu no tinha inteno alguma de escrever sobre o dia dos pais. Mas, de repente, passando os olhos num livro que uma amiga me enviou, encontrei a seguinte afirmao: 
"Tomar uma deciso de ter um filho  algo que ir mudar sua vida inteira de forma inexorvel. Dali para frente, para sempre, o seu corao caminhar por caminhos 
fora do seu corpo."

A as idias puseram a se movimentar por conta prpria. Pensei na minha condio de pai.  verdade: pai  algum que, por causa de um filho, tem sua vida inteira 
mudada de forma inexorvel. Isso no  verdadeiro do pai biolgico.  fcil demais ser pai biolgico. Pai biolgico no precisa ter alma. Um pai biolgico se faz 
num momento. Mas h um pai que  um ser da eternidade: aquele cujo corao caminha por caminhos fora do seu corpo. Pulsa, secretamente, no corpo do seu filho (muito 
embora o filho no saiba disto).

Lembrei-me dos meus sentimentos antigos de pai, diante dos meus filhos adormecidos. Veio-me  mente a imagem de um "ninho". Bachelard, o pensador mais sensvel que 
conheo, amava os ninhos e escreveu sobre eles. Imaginou que, "para o pssaro, o ninho  indiscutivelmente uma clida e doce morada.  uma casa de vida: continua 
a envolver o pssaro que sai do ovo. Para este, o ninho  uma penugem externa antes que a pele nua encontre sua penugem corporal." Era isso que eu queria ser. Eu 
queria ser ninho para os meus filhos pequenos. Queria que meu corpo fosse um ninho-penugem que os protegesse, um ninho que balana mansamente no galho de uma rvore 
ao ritmo de uma cano de ninar...

Que felicidade enche o corao de um pai quando o filho que ele tem no colo se abandona e adormece! Adormecida, a criana est dizendo: "tudo est bem; no  preciso 
ter medo". Deitada adormecida nos braos-ninho do seu pai ela aprende que o universo  um ninho! No importa que no seja! No importa que os ninhos estejam todos 
destinados ao abandono e ao esquecimento! A alma no se alimenta de verdades. Ela se alimenta de fantasias. O ninho  uma fantasia eterna. Jung deveria t-lo includo 
entre os seus arqutipos! "O ninho leva-nos de volta  infncia, a uma infncia!" (Bachelard). Aquela cena, a criana adormecida nos braos do pai, nos reconduz 
 cena de uma criancinha adormecida na estrebaria de Belm! Tudo  paz! Desejaramos que ela, a cena, no terminasse nunca! Que fosse eterna!

 impossvel calcular a importncia desses momentos efmeros na vida de uma criana.  impossvel calcular a importncia desses momentos efmeros na vida de um pai. 
O efmero e o eterno abraados num nico momento! "Conter o infinito na palma da sua mo e a eternidade em uma hora": o pai que tem o seu filho adormecido nos seus 
braos  um poeta! Essas palavras do poeta William Blake bem que poderiam ser suas. Um homem que guarda memrias de ninho na sua alma tem de ser um homem bom. Uma 
criana que guarda memrias de um ninho em sua alma tem de ser calma!

Mas logo o pequeno pssaro comear a ensaiar seus vos incertos. Agora no sero mais os braos do pai, arredondados num abrao, que iro definir o espao do ninho. 
Os braos do pai tero de se abrir para que o ninho fique maior. E sero os olhos do pai, no espao que seus braos j no podem conter, que iro marcar os limites 
do ninho. A criana se sente segura se, de longe, ela v que os olhos do seu pai a protegem. Olhos tambm so colos. Olhos tambm so ninhos. "No tenha medo. Estou 
aqui! Estou vendo voc":  isso o que eles dizem, os olhos do pai.

O que a criana deseja no  liberdade. O que ela deseja  excursionar, explorar o espao desconhecido - desde que seja fcil voltar. Tela de Van Gogh.  um jardim. 
No lado direito do jardim, me e criana que acabam de chegar. Ao lado esquerdo o pai, jardineiro, agachado com os braos estendidos na direo do filho.  preciso 
que o pai esconda o seu tamanho, que ele esteja agachado para que seus olhos e os olhos do seu filho se contemplem no mesmo nvel. A cena  como um acorde suspenso, 
que pede uma resoluo.  certo que o filho largar a mo da me e vir correndo para o pai... E a fantasia pinta a cena final de felicidade que o pintor no pode 
pintar: o pai pegando o filho no colo, os dois rindo de felicidade...

O tempo passa. Os pssaros tmidos aprendem a voar sem medo. J no necessitam do olhar tranquilizador do pai.  a adolescncia. Ser pai de um adolescente nada tem 
a ver com ser pai de uma criana. Pobre do pai que continua a estender os braos para o filho adolescente, como na tela de Van Gogh! Seus braos ficaro vazios. 
Como se envergonharia um adolescente se seu pai fizesse isso, na presena dos seus companheiros!  o horror de que os pssaros companheiros de vo o vejam como um 
pssaro que gosta de ninho! Adolescente no quer ninho. Adolescente quer asas. Os ninhos, agora, s servem como pontos de partida para vos em todas as direes. 
Liberdade, voar, voar... A volta ao ninho  o momento que no se deseja. Porque a vida no est no ninho, est no vo. Os ninhos se transformam em gaiolas. Se eles 
procuram os olhos dos pais no  para se certificar de que esto sendo vistos mas para se certificar de que no esto sendo vistos! Aos pais s resta contemplar, 
impotentes, o vo dos filhos, sabendo que eles mesmos no podem ir. Nos espaos por onde seus filhos voam os ninhos so proibidos. Mas eles tero de voltar ao ninho, 
mesmo contra a vontade. E o pai se tranquiliza e pode finalmente dormir ao ouvir, de madrugada, o barulho da chave na porta: "Ele voltou..."



Mas chega o momento quando os filhos partem para no mais voltar.

Atravs da minha janela vejo um ninho que rolinhas construram nas folhas de uma palmeira. A pombinha est chocando seus ovos. Vejo sua cabecinha aparecendo fora 
do ninho. Mas numa outra folha da mesma palmeira h um outro ninho, abandonado. Esse  o destino dos ninhos, de todos os ninhos: o abandono.

Gibran Khalil Gibran escreveu, no seu livro O Profeta, um texto dedicado aos filhos. No sei de cor suas precisas palavras. Mas vou tentar reconstrui-las.  aos 
pais que ele se dirige. "Vossos filhos no so vossos filhos. Vossos filhos so flechas. Vs sois o arco que dispara a flecha. Disparadas as flechas elas voam para 
longe do arco. E o arco fica s."

Esse  o destino dos pais: a solido. No  solido de abandono. E nem a solido de ficar sozinho.  a solido de ninho que no  mais ninho. E est certo. Os ninhos 
deixam de ser ninhos porque outros ninhos vo ser construdos. Os filhos partem para construir seus prprios ninhos e  a esses ninhos que eles devero retornar.

Assim  na natureza. Assim  com os bichos. Deveria ser conosco tambm. Mas no . Quem  pai tem o corao fora de lugar, corao que caminha, para sempre, por 
caminhos fora do seu prprio corpo. Caminha, clandestino, no corpo do filho. Dito pela Adlia: "Pior inferno  ver um filho sofrer sem poder ficar no lugar dele." 
Dito pelo Vincius, escrevendo ao filho: "Eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu bero e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas 
lgrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua..."

Sei que  inevitvel e bom que os filhos deixem de ser crianas e abandonem a proteo do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora.

Sei que  inevitvel que eles voem em todas as direes como andorinhas adoidadas.

Sei que  inevitvel que eles construam seus prprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira...

Mas, o que eu queria, mesmo, era poder faz-los de novo dormir no meu colo...


APERITIVOS

1. " sbio respirar pelo nariz. Quem respira pelo nariz mantm a boca fechada."

2. Os ips brancos comearam a florir. Trate de v-los logo porque so frgeis e efmeros.

3. FEIJEZINHOS: Recebi, do Vincius Castilho Pereira (Minas Gerais) um e-mail em que ele relatava: "Li seu texto A Horta e na tera seguinte me aconteceu algo relacionado 
a ele: Minha filha, de 4 aninhos, plantou no fundo do quintal da casa dela um pezinho de feijo. Todos os dias ela me leva l para averiguarmos o tanto que cresceu 
a plantinha. Para provoc-la perguntei a ela quando faramos uma feijoada com os feijezinhos que nascerem, ela me respondeu indignada que ningum comeria os 'filhinhos' 
da planta dela, eu argumentei que todos aqueles feijes que comemos todos os dias tambm vm de plantas como aquela, ao que ela me respondeu com um ar cheio de razo: 
- Mas pai, aposto que no so plantas de menininhas! Um grande abrao das Minas Gerais para voc!"

4. CENTRO CORSINI: Est criando um espao educacional dedicado a crianas e adolescentes que sejam vtimas diretas ou indiretas da AIDS. Voc no teria vontade de 
dar uma mozinha a essas crianas e adolescentes? Doe livros! Doe material de arte! Doe brinquedos! Doe material de construo! Doe trabalho! Passe um dia l, trabalhando! 
Vai lhe fazer bem! Informaes: 19 - 32566344.

(Correio Popular, Caderno C, 12/08/2001) 



ADEUS A DINA, A MULHER COM ASAS...

Dina querida: Voc, que guardava na alma as coisas antigas amadas, com certeza se lembrava da cano que as mes de antigamente cantavam para fazer os nens dormir:

"Sabi l na gaiola fez um buraquinho...
Voou, voou, voou, voou...
E a menina que gostava tanto do bichinho
Chorou, chorou, chorou, chorou..."

Pois voc nos pregou uma pea: fez um buraquinho na gaiola que a prendia e voou para um jardim muito longe, aonde no podemos ir! Agora a gaiola est vazia, no 
mais vamos ouvir o seu canto e ns, que gostvamos tanto de voc, ficamos chorando...

Voc iria completar 87 anos no dia 22. Haveria uma festa para voc, na casa da Isabel. Na reunio de poesia dos "Canoeiros", na 3 feira dia 14, todo mundo foi avisado. 
Voc iria receber muitos presentes. E eu imaginava o seu rosto maroto rindo de felicidade...

Preparei, para aquela noite, um programa especial de poesias e msica. Foi especial porque tudo foi organizado pensando num amigo muito querido de Portugal que recebera 
um toque da morte: duas pessoas que ele muito ama, carne da sua carne, estavam com cncer. E no adianta fazer rodeios: cncer  sempre um emissrio da morte.

Resolvemos que, naquela noite, o programa potico dos "Canoeiros" seria dedicado a ele,  sua me e sua irm. Apagaramos as luzes e acenderamos velas. As luzes 
seriam apagadas porque iluminam demais. Por isso so mentirosas: eliminam as sombras. J as velas evocam o mistrio da vida, por brilharem sempre no escuro. Pois 
a vida, no est toda ela cercada de escurido? Iluminados pelas velas ficaramos em silncio enquanto ouviramos o Requiem de Gabriel Faur. Por que o Requiem de 
Faur? Porque essa  a pea musical que esse amigo de Portugal, o Ademar, mais ama. Foi ele que me a fez ouvir, pela primeira vez, enquanto viajvamos no seu carro. 
Seria um ritual mgico, um bruxedo: que a msica atravessasse o oceano para que o Ademar e os seus queridos sentissem o nosso amor. Escolhi duas partes do Requiem: 
"Sanctus" e "In Paradisum". Terminada a msica leramos poesia. Do prprio Ademar, "Cano de embalar lgrimas". A seguir, "O ltimo poema", de Manoel Bandeira; 
"Os ltimos dias" de Carlos Drummond de Andrade; "Escrever e amar", de Clarice Lispector; "Olhando o mar", de Vicente de Carvalho; "Saber morrer", de D. Helder Cmara; 
e "Segundo dever", de Nikos Kazantzkis: poemas de uma coleo preparada por um outro amigo, Marcelo Bezerra Oliveira. Ao final beberamos todos, de uma mesma taa, 
o vinho eucarstico, "in memoriam"... E assim foi.

Mas nem de longe poderamos imaginar que voc, Dina, estava naquele momento sendo tocada pela morte: o pssaro engaiolado j ensaiava suas asas para o vo.... H 
gaiolas que somente a morte  capaz de abrir. No sabamos que aquilo que estvamos fazendo era um "Requiem" para voc! Coincidncia? No creio. A Lenir, irm-canoeira, 
tem uma hiptese muito mais misteriosa em que acredito... Os fios soltos das coincidncias do lado de c esto sempre bem amarrados do lado de l, no mistrio...

Eu deveria ter percebido que a sua partida estava prxima. Suas ltimas cartas estavam cheias de premonies. Voc estava triste. Disse-me que a areia de Cronos 
estava chegando ao fim. S restavam uns poucos gros na ampulheta do tempo. (Curioso! Voc, to humilde, conhecia muito de mitologia...) E voc se sentia como uma 
escrava. O asilo onde voc vivia e as suas regras religiosas lhe eram uma priso. E voc se lamentava; "No tenho um Quilombo para onde fugir!" Foi isso o que voc 
escreveu  01 hora da madrugada do dia 11 de agosto, 4 dias antes da sua morte: "No temos tronco mas temos trancas, no temos chibata mas temos lngua que fere 
mais que um ltego... No tenho alternativas, mas espero em Deus, uma nova Abolio. Que seja um dia qualquer, ou ms, mas que seja breve..."

Voc era brasileira. Mas as suas razes atravessavam o oceano: estavam em Portugal. Ah! Como Portugal estava presente nas coisas que voc escrevia! Assumo, assim, 
que voc teria lido Guerra Junqueiro, poeta portugus. Pensando em voc, pssaro engaiolado, lembrei-me de um dos seus poemas, "O Melro". Voc se lembra?  a estria 
de um melro que morava numa rvore que crescia no pomar de um padre amargo.

To bonito, o que ele diz do melro. "O melro, eu conheci-o: era negro, vibrante, luzidio. Madrugador jovial: logo de manh cedo comeava a soltar dentre o arvoredo 
verdadeiras risadas de cristal."

Mas o que ele dizia do cura era feio. Ele no gostava de pssaros. "Nada, j no tem jeito! Este ladro d cabo dos trigais! Qual seria a razo porque Deus fez os 
melros e os pardais?"

Mas ento, aconteceu: "Andando no quintal um certo dia, lendo em voz alta o Velho Testamento, enxergou o cura por acaso (que alegria! Que ditoso momento!) um ninho 
com seis melros escondido entre uma carvalheira... E ao v-los exclamou enfurecido: 'A me comeu o fruto proibido... a minha sementeira. Transmitiu-se o pecado. 
E se a me no pagou, que pague o filho.  a doutrina da Igreja. Estou vingado!'"

Ditas essas palavras o padre tomou os frgeis passarinhos e os prendeu numa gaiola.

O melro, voltando do seu vo, ao ver seus filhotes assim presos, enlouqueceu de dor. Lanou-se "furioso contra a grade... Torcia, para partir os ferros da priso, 
crispando as unhas convulsivamente, com fria de um leo.. Batalha intil... Quebrou as garras, depenou as asas." Impotente o melro, vendo aproximar-se o abade, 
"alucinado, partiu num vo arrebatado e louco, trazendo dentro em pouco preso no bico um ramo de veneno. 'Meus filhos, a existncia  boa s quando  livre. A liberdade 
 lei. Prende-se a asa, mas a alma voa...  filhos, voemos pelo azul!... Comei!'"

Pois , Dina. Nas suas cartas voc falava do seu desejo de voar, do seu intil desejo de voar. Voc era um pssaro engaiolado. Frgil, no tinha foras para arrebentar 
as grades da gaiola em que estava presa. Sem alternativas. Voc sabia que somente a morte teria poder para abrir as portas da priso. E ela lhe disse com a voz do 
melro: "Chegou a hora de voar pelo azul!"

Voc j voava, mesmo engaiolada. As grades da gaiola no tinham sido capazes de cortar as asas da sua imaginao. Voc dizia: "Tentam castrar-me. No conseguiro!" 
No importa os nomes das religies dos curas. Todos so iguais. Ah! Como os curas que a prendiam odiavam os seus vos! No ficaram contentes com as paredes do asilo. 
Tentaram tirar de voc a nica coisa que lhe vinha do mundo de fora, o jornal. E isso, sob o pretexto piedoso de proteger sua alma das tentaes do mundo!

Mas voc voava... Voava com suas cartas. E que cartas! Atravessaram o oceano! Houve uma pessoa que me passou um e-mail com a seguinte mensagem: "Rubem, at ontem 
voc era, para mim, o escritor nmero um. Hoje, depois de ler a carta da Dina, voc passou a ser nmero dois. Ela, a Dina,  o nmero um..."

Gaiolas, h de vrios tipos. As gaiolas de ferro - essas,  fcil perceber que so gaiolas. Mas h outras mais sutis, fantasiadas de ninhos, disfaradas em proteo: 
so as gaiolas que os homens fazem com nomes sagrados. As gaiolas feitas com nomes sagrados so mais terrveis que as gaiolas de ferro porque elas prendem em nome 
de Deus! As religies, com seus dogmas, rituais e lugares sagrados, so gaiolas em que os homens tentam prender Deus. Mas voc sabia que Deus no pode ser preso 
e nem prende ningum, porque Deus  liberdade: pssaro, vento...

Deus d as asas e o vo.

Os homens constrem gaiolas e ensinam a rastejar.

Os construtores de gaiolas foram, um dia, pssaros. Mas tiveram medo das alturas. Tiveram medo de voar. Tiveram medo da liberdade. Suas asas, inteis, ficaram tristes 
e caram. E eles se transformaram, ento, em criaturas rastejantes. A serpente um dia foi pssaro!

A gaiola no conseguiu cont-la. O Grande Pssaro veio, abriu a porta, e vocs dois voaram juntos... Por que espaos estaro vocs voando agora?

Como voc sabe eu planto, no alto de uma montanha de Minas, dentro da cratera de um vulco, rvores para meus amigos que viraram, pssaros. Muitos j esto l: o 
jardim dos amigos mortos. Pensei ento: que rvore plantarei para a Dina? Nesse lugar sagrado h um caquizeiro enorme. Nunca comi dos seus caquis porque as aves 
vm antes e os comem. Isso me deixa imensamente feliz. No outono suas folhas ficam vermelhas como cobre. E num dos seus galhos amarrei um balano onde treino meus 
vos. Porque  certo que um dia tambm eu me tornarei um pssaro. Pensei que voc amaria aquela rvore. Assim, o caquizeiro que at agora no tinha nome, de hoje 
em diante se chamar: "Dina, a mulher com asas..."


APERITIVOS

1. Numa de suas ltimas cartas a Dina escreveu: "No vamos nos guiar pelos relgios de Cronos, as ampulhetas e outros cronmetros malucos. Vamos viver a vida tal 
qual ela se nos apresenta. O restante, vamos deixar nas mos do Criador... Viva feliz. Erga uma taa de vinho e diga 'Evo!', que era a saudao ao deus do vinho, 
Baco. Os bacantes se embriagavam e se sentiam felizes. No v se embriagar como eles, mas seja feliz. Sua sempre amiga - Dina, sempre Dina..." Aos leitores incrdulos 
informo que o Aurlio confirma o que Dina falou sobre a palavra "Evo".

2. As cartas da Dina esto sendo digitadas e logo aparecero na minha homepage: www.rubemalves.com.br 

3. Os poemas mencionados acima se encontram na minha homepage. Entrar na sala "Carpe Diem" e, nela, entrar na sala "Espiritualidade".

4. O nome de Deus se presta aos maiores abusos. A histria o comprova. Como diz o apstolo, tambm os demnios acreditam nele... O teste  fcil: se o nome de Deus 
 usado para produzir medo e tirar a liberdade, trata-se de um demnio mascarado. Se o nome de Deus nos d asas e coragem, trata-se do Deus verdadeiro...

(Correio Popular, Caderno C, 26/08/2001.) 
TENHO MEDO

Um casal de amigos enviou-me um fax com um pedido: que lhes mandasse os nomes dos livros que tenho sobre o medo. Explicaram a razo do pedido: tinham medo... E pensavam 
que pela leitura daquilo que sobre o medo se escreveu como cincia e filosofia, o seu prprio medo ficaria mais leve.

Procurei fazer o que me pediam. Pus a funcionar os arquivos da minha memria, procurando identificar os livros sobre o medo que estariam na minha biblioteca. Inutilmente. 
Nenhum ttulo me veio  mente. Dei-me conta de que no possuo nenhum livro sobre o medo. Sem livros a que recorrer, pus-me a pensar meus prprios pensamentos sobre 
o medo. E o primeiro pensamento que me veio foi o seguinte: Eu tenho medo. Eu sempre tive medo. Viver  lutar diariamente com o medo. Talvez esse seja o sentido 
a lenda de So Jorge, lutando com o drago. O drago no morre nunca. E a batalha se repete, a cada dia.

Como no pudesse ajudar meus amigos com bibliografia filosfica e cientfica, resolvi compartilhar com eles minha condio. O medo tem muitas faces. Lembro-me de 
que, bem pequeno ainda, acordei chorando, imaginando que um dia eu estaria sozinho no mundo. Foi uma dura experincia de abandono. Tive medo de no ser capaz de 
ganhar a minha vida quando meu pai e minha me partissem. Na verdade eu tinha era medo da orfandade, do abandono. Minha filha Raquel tinha no mais que trs anos. 
Era cedo, bem cedo. Ela me acordou e me perguntou: "Papai, quando voc morrer voc vai sentir saudades?" Essa foi a forma delicada que ela teve de me dizer que tinha 
medo da saudade que ela iria sentir, quando eu partisse. O rosto do medo mudou. Mas o sentimento continua o mesmo. Tenho medo da solido. H uma solido boa.  a 
solido necessria para ouvir msica, ler, pensar, escrever. Mas h a solido do abandono. Buber relata que, numa lngua africana, a palavra para dizer "solido" 
 composta de uma srie de palavras aglutinadas que, se traduzidas uma a uma, dariam a frase: L, onde algum grita: Oh! me! Estou perdido! O trgico dessa palavra 
 que o grito nunca ser ouvido, nunca ter resposta. Tenho medo da degenerao esttica da velhice. Tenho medo que um derrame me paralise, deixando-me sem meios 
de efetivar a deciso que seria sbia e amorosa: partir. Tenho medo da morte. Antigamente esse medo me atormentava diariamente. Depois ele se tornou gentil. Ficou 
suave. Passei a compreender que a morte pode ser uma amiga. Veio-me  mente uma frase que se encontra na orao Pelos que vo morrer, de Walter Rauschenbusch: " 
Deus, ns te louvamos porque para ns a morte no  mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, nosso amigo, o nico a poder abrir, para alguns de ns, a priso 
da dor e do sofrimento e nos levar para os espaos imensos de uma nova vida. Mas ns somos como crianas, com medo do escuro..." (Oraes por um mundo melhor, Paulus 
). O Vincius disse a mesma coisa de um outro jeito: "Resta esse dilogo cotidiano com a morte, esse fascnio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela vir me 
abrir a porta como uma velha amante, sem saber que  a minha mais nova namorada." Boas so as palavras das oraes e dos poemas: elas tm o poder de transfigurar 
a face do medo. Meu medo da morte ficou suave porque o seu terror foi amenizado pela tristeza. Ah! Mrio Quintana! Como eu gosto de voc, velho que nunca deixou 
de ser menino! Voc sabia tirar o terror do medo rindo diante dele. Voc lidava com seus medos como se fossem brinquedos. Delicioso, esse brinquedinho: "Um dia...pronto!...me 
acabo./ Pois seja o que tem de ser./ Morrer: que me importa? O diabo  deixar de viver!" Isso mesmo. O terrvel no  morrer;  deixar de viver. O terrvel no  
o que est  frente;  o que deixamos para trs.  um desaforo ter de deixar essa vida! Zorba, quando percebeu que seu momento chegara, foi at a janela, olhou para 
as montanhas no horizonte, ps-se a relinchar como um cavalo e gritou: "Um homem como eu teria de viver mil anos!" E eu pergunto: "Por que tanta modstia? Por que 
s mil?"

Mas tenho medo do morrer. Medo da morte e medo do morrer so coisas distintas. O morrer pode ser doloroso, longo, humilhante. Especialmente quando os mdicos no 
permitem que o corpo que deseja morrer, morra.

Tenho medo tambm da loucura. No h sinal algum de que eu v ficar louco. Mas nunca se sabe! Muitas mentes luminosas ficaram insanas. E tenho medo de que algo ruim 
venha a acontecer com meus filhos e netas. Sbias foram as palavras daquele homem que, no livro onde deveriam ser escritos os bons desejos  recm-nascida neta do 
rei, escreveu: "Morre o av, morre o pai, morre o filho..." Enfurecido, o rei lhe pede explicaes. "Majestade: haver tristeza maior para um av que ver o seu filho 
morrer? E para o seu filho: haveria tristeza maior que ver sua filhinha morrer?  preciso que a morte acontea na ordem certa..." Tenho medo de que a morte no acontea 
na ordem certa.

Somos iguais aos animais, em que as mesmas coisas terrveis podem acontecer a eles e a ns. Mas somos diferentes deles porque eles s sofrem como se deve sofrer, 
isto , quando o terrvel acontece. E ns, tolos, sofremos sem que ele tenha acontecido. Sofremos imaginando o terrvel. O medo  a presena do terrvel-no-acontecido, 
se apossando das nossas vidas. Ele pode acontecer? Pode. Mas ainda no aconteceu e nem se sabe se acontecer.

Curioso: ns, humanos, somos os nicos animais a ter prazer no medo. A colina suave no seduz o alpinista. Ele quer o perigo dos abismos, o calafrio das neves, a 
sensao de solido. A terra firme, to segura, to sem medo, to montona! Mas  o mar sem fim que nos chama: "A solidez da terra, montona, parece-nos fraca iluso. 
Queremos a iluso do grande mar, multiplicada em suas malhas de perigo..." (Ceclia Meireles).

A pomba, que por medo do gavio, se recusasse a sair do ninho, j se teria perdido no prprio ato de fugir do gavio. Porque o medo lhe teria roubado aquilo que 
de mais precioso existe num pssaro: o vo. Quem, por medo do terrvel, prefere o caminho prudente de fugir do risco, j nesse ato estar morto. Porque o medo lhe 
ter roubado aquilo que de mais precioso existe na vida humana: a capacidade de se arriscar para viver o que se ama.

O medo no  uma perturbao psicolgica. Ele  parte da nossa prpria alma. O que  decisivo  se o medo nos faz rastejar ou se ele nos faz voar. Quem, por causa 
do medo, se encolhe e rasteja, vive a morte na prpria vida. Quem, a despeito do medo, toma o risco e voa, triunfa sobre a morte. Morrer, quando a morte vier. Mas 
s quando ela vier. Esse  o sentido das palavras de Jesus: "Aquele que quiser salvar a sua vida, perd-la-. Mas quem perder a sua vida, a encontrar." Viver a 
vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem no  ausncia do medo.  viver, a despeito do medo.

Houve um tempo em que eu invocava os deuses para me proteger do medo. Eu repetia os poemas sagrados para exorcizar o medo: "Ainda que eu ande pelo vale da sombra 
da morte, no temerei mal algum..." "Mil cairo  tua direita, dez mil  tua esquerda, mas nenhum mal te suceder..." A vida me ensinou que esses consolos no so 
verdadeiros. Os deuses no nos protegem do medo. Eles nos convidam  coragem de viver a despeito dele.





Aperitivos

1. Talvez essa seja a razo por que amamos o circo: porque nele podemos sentir medo sem correr perigo: voamos com os trapezistas, equilibramo-nos no fio de ao, 
enfrentamos tigres e lees... Experimentamos, na fantasia, o medo diante do terrvel, assentados num lugar seguro...

2. Bachelard: a delicadeza das suas meditaes sobre a luz da vela acontece perante o medo de que um vento mais forte apague a chama: "Sim, a luz de um olhar, para 
onde ela vai quando a morte coloca seu dedo frio sobre os olhos de um morto?" E no ltimo pargrafo ele pergunta: "... ser que ainda h tempo...?"

3. Drummond: "Eterno (mas at quando?)  esse barulho em ns de um mar profundo. Naufragamos sem praia; e na solido dos botos afundamos..." E o Vincius, que confessava 
o "terrvel medo de renascer dentro da treva." (Correio Popular, Caderno C, 22/07/2001.) 


QUARTO DE BADULAQUES

1. "BADULAQUE, s. m.: Guisado de fgado e bofes; coisa mida, ou velha, de pouco valor; o que as mulheres pem no rosto para amaciar ou enfeitar a pele." Est no 
Aurlio. No sobrado colonial do meu av, com sala de visitas de teto barroco, piano Pleyel vindo da Frana, castiais para velas, vidros coloridos importados e 
desenhos dourados, havia um quarto que as tias mantinham fechado  chave (aquelas chavonas pretas, enormes, que se pegam com a palma da mo) e que ns, os sobrinhos, 
apelidamos de "quarto do mistrio". Sobre ele escrevi uma crnica, que se encontra no livro O Quarto do Mistrio. Nele se encontravam coisas maravilhosas: canastras 
antiqussimas cheias de coisas velhas, aparelhos de medicina que meu tio mdico havia abandonado, duas ctaras bordadas em madreprola, caixas com bisnagas de tinta 
(minhas tias eram prendadas; pintavam, tocavam ctara, piano, bandolim...), uma vitrola sem a corneta, revistas, um relojo de parede redondo, parado.... Os sobrinhos 
eram proibidos de entrar l, por causa da poeira e das teias de aranha. Mas a gente roubava a chave, entrava, trancava por dentro, e ficava viajando por mundos imaginrios. 
E havia um outro quarto, no to proibido, o "quarto dos badulaques". L no se servia guisado de fgado e bofes e nem havia as coisas que as mulheres pem no rosto 
para amaciar ou enfeitar a pele. L se encontravam "coisas midas, velhas, de pouco valor", quinquilharias sem conta, brinquedos, livros de figura... Pois eu resolvi 
criar um "Quarto de Badulaques" aqui no jornal. Os redatores do Caderno C, delicadamente me informaram que eu estava ultrapassando os limites. Alm da crnica eu 
colocava, ao final, uma srie de coisinhas, dicas, pitadas, informaes e, no frigir dos ovos, minha escritura acabava por ocupar uma pgina inteira. Ouvi, concordei, 
obedeci. As ditas coisinhas so pensamentos avulsos que aparecem e desaparecem, nunca sero transformados em crnicas, porque o tempo no d. Mas so divertidas. 
E eu no quero jog-las no lixo do esquecimento. Assim, resolvi criar para elas um "Quarto de Badulaques". Hoje  a primeira vez que o abro ao pblico...
2. DIVRCIO: Uma amiga est triste porque est se divorciando. Divrcio  uma palavra to doda! A ela ficou pensando se, nas suas origens, essa palavra no podia 
ser bonita. Quando a palavra divrcio nasceu, qual era o seu sentido? Que imagens ela invocava? Fui ento ao dicionrio Webster, que  uma da minhas alegrias. Eu 
o encontrei num sebo nos Estados Unidos, dois volumes grossos com capas artsticas douradas. Comprei-o por pouco mais que nada. Nele, alm dos significados das palavras, 
encontram-se as suas origens, a etimologia. Os sentidos originais tm o poder de dar vida a palavras mortas, por revelar seus sentidos ocultos. Pois  isso que ele 
diz, traduzido: "Divrcio: do Latim 'divortium', uma separao; de 'diversus', particpio passado de 'divertere', que significa 'ir em direes diferentes'". Coisa 
terrvel  caminhar por um caminho pelo qual no se deseja ir. Antigamente era assim: o marido era transferido para um fim de mundo e a mulher era obrigada a ir. 
Ia contra a vontade, ficava triste, chorava, ficava deprimida, perdia a vontade de fazer amor, e o amor virava ressentimento e ela pensava em silncio. "Quando ele 
morrer eu volto para o lugar de onde vim..." Quem anda por um caminho obrigado, contra a vontade, fica desejando que aquele ou aquela que obriga morra. A liberdade 
 assassina. Pois o meu pensamento de repente divorciou-se de mim. Divorciou-se: deixou o caminho que eu estava seguindo e embrenhou-se por uma trilha onde estava 
escrito o nome "Walt Whitman". Como no quero ficar sozinho, vou atrs dele. Sim, Walt Whitman, o maior de todos os poetas americanos, o poeta do corpo. Antigamente 
os lares protestantes tinham o hbito do culto domstico: a famlia se reunia ao final do dia para ler a Bblia e orar. Penso que seria desejvel que fizssemos 
coisa parecida: a famlia reunida para ler poesia e ouvir msica. Meia horinha por dia. Acho que todos ficariam mais mansos e mais sbios. Pois o Walt Whitman escreveu: 
"Quem anda duzentas jardas sem vontade anda seguindo o prprio funeral, vestindo a prpria mortalha..." Por vezes o divrcio  o jeito de parar de andar contra a 
vontade, o jeito de no seguir o prprio funeral - e nem desejar o funeral do outro... A gente vai andando por um caminho numa plancie. A o caminho se bifurca. 
Encruzilhada. No caminho da direita h uma tabuleta que diz: "Mar". No caminho da esquerda, uma tabuleta que diz: "Selva". Um dos caminhantes sente o chamado do 
mar. O outro sente o chamado da selva. No  sbio que cada um siga o seu caminho? Est dito nas Sagradas Escrituras: "Como andaro dois juntos se no estiverem 
de acordo?" Isso est explicado no livro que escrevi para crianas, A Selva e o Mar.
3. RESUMO: A jovem, na sua aflio, me enviou um e-mail com um pedido de socorro. Vai se submeter  violncia dos vestibulares e um dos instrumentos de tortura ser 
um livro que escrevi. Ela me pedia que eu fizesse um resumo do livro. Resumir? O que  resumir?  dizer em poucas palavras aquilo que foi dito com muitas palavras. 
S se pode resumir um livro se ele est cheio de palavras suprfluas. Mas a literatura  feita, precisamente, com palavras essenciais, palavras que no podem ser 
retiradas. Como resumir uma sonata de Mozart? Como resumir um poema? Como resumir uma viagem? Como me resumir? Pois o que escrevo  feito com pedaos de mim. Sou 
resumvel? A jovem que me fez o pedido no  culpada. Culpados so aqueles que, por anos, tm preparado os exames vestibulares. Assassinos da lngua. Deveriam ser 
presos. H, inclusive, livros que se vendem nas livrarias com os resumos das obras de literatura. Literatura  coisa que se faz por prazer.  possvel resumir o 
prazer? Por favor: resuma o ato de "fazer amor". Fazer amor depressinha, com leitura dinmica. O que os exames pretendem  que o ato de fazer amor com os livros 
- vagaroso, degustador - tome como modelo o rapidssimo coito dos galos e galinhas... Isso no  um absurdo?
4. LIVRO FUJO: O Carlos Rodrigues Brando me enrolou. amos juntos, no meu carro, em Pocinhos do Rio Verde, e ele comeou com um papo filosfico. "Agora, Rubem, 
estou adotando a seguinte filosofia: aquilo de que me esqueci eu no possuo... Que  que voc acha disso?" Pensei: Se me esqueci,  como se a coisa no existisse. 
No sinto falta dela. Se sentisse, no me esqueceria. Assim, se me esqueci, no possuo... Respondi: "Certo. No possuo aquilo de que me esqueci..." Ele concluiu 
rpido: "Voc se esqueceu de que eu lhe devo duzentos reais. Voc no os possui mais. Vou dar os duzentos reais para ajudar a Maria a construir a casa dela..." No 
protestei. Ri. Fui coerente com a filosofia que acabara de enunciar. E fiquei feliz por saber que aqueles duzentos reais que eu no mais possua, por haver esquecido, 
iriam ajudar a Maria a construir sua casa. Eu sempre empresto livros. Empresto, me esqueo do nome deles e do nome das pessoas para quem emprestei. Quero, ento, 
coerente com a minha filosofia de memria e posse, declarar a todos aqueles que esto com livros meus: "Me esqueci. No possuo mais. So seus. Aceitem os livros 
sem dores de conscincia porque eu no estou sofrendo. Aceitem os livros como lembranas minhas..." Dou porque esqueci. Se esqueci  porque no os amava. Mas h 
os livros de que no me esqueci. Livros que amo. Esses eu no dou. Assim, quero dizer que h um livro de que no me esqueci e quero de volta. Eu no o emprestei. 
Ele simplesmente sumiu. Acho que ele deve ter fugido, porque  inadmissvel que tenha sido roubado. Livro lindo - posso apostar que no existe outro igual em Campinas. 
Comprado na Espanha. Meus amigos Canoeiros me deram, com suas assinaturas. ENCICLOPDIA DE LAS COSAS QUE NO EXISTEN. Ilustraes maravilhosas. Como o nome est dizendo, 
 uma enciclopdia dos seres e mitos fantsticos imaginados pelos homens, atravs do mundo, atravs dos sculos.  inconfundvel. Capa verde. Assim, peo que meus 
amigos se tornem detetives: se virem esse livro fujo em alguma estante, por favor, faam o favor de traze-lo de volta ao lar...
5. O TROMPETISTA DE BRANCO, AO CAIR DA NOITE: Falei sobre ele. Solitrio na rua, tocava Fascinao para os moradores dos prdios. Me ligou. O nome dele  Jos Vicente 
Monteiro, trabalha numa farmcia e toca o seu trompete por prazer. Telefone: 3208 0240, das 8:00 hs s 20:30 hs.
6. AS MAGNLIAS ESTO FLORIDAS. No precisei ver. A beleza das flores minsculas no chega atravs dos olhos, como as flores dos ips. Chega atravs do nariz. Perfume 
delicioso. H um condomnio elegante em Campinas todo arborizado com magnlias. Mas notei que havia uma exceo: uma casa em cuja frente no havia magnlias. Um 
morador me informou que a moradora mandou cortar as magnlias porque suas folhas sujavam as caladas.
7. ONDE NASCE O PENSAMENTO: O que todo mundo diz  que o pensamento nasce no crebro. Discordo. Acho que ele nasce nas mos. Pensamos a partir daquilo que nossas 
mos fazem. Quem segura vassouras pensa em varrer. Muitas pessoas de mos delicadas e anis de brilhante no dedo, ao mandar cortar as rvores revelam que, na verdade, 
suas mos foram educadas pelas vassouras. Ainda no se desgrudaram das vassouras...
8. TERRORISMO: Soube, pela TV, que o problema mais grave de uma campanha militar terrestre no Afeganisto se deve ao fato de que h milhes de minas explosivas enterradas 
em todo o pas, resultado de muitos anos de guerra. Como  que elas foram parar l? No foram fabricadas pela cincia e pelas fbricas do Afeganisto, posto que 
no as h. Foram fabricadas pelas indstrias do Ocidente Cristo e vendidas. Venda de armas  um negcio muito lucrativo. Os pases militarizados, todos eles, sem 
exceo, vendem armas para os pases pobres. Armas so vendidas para matar. As minas, quando no matam, aleijam. Vocs j devem ter visto, na televiso, crianas 
africanas sem pernas e braos. Assim, os pases ricos do Ocidente ficam mais ricos do que so vendendo armas aos pases pobres. E depois reclamam por serem odiados. 
Os terroristas aceitam morrer para matar. As indstrias blicas do Ocidente ficam ricas para matar. Quem so os terroristas? Sacos de farinha de trigo no compensam 
o estrago que j se fez.
(Correio Popular, 11/11/2001.)



QUARTO DE BADULAQUES 2

1. VELHICE: Descobri que eu estava velho h muitos anos, num metr de So Paulo. Foi assim: o vago estava lotado e no havia assento vago. No liguei. Eu era jovem, 
pernas e braos fortes, podia fazer a viagem de p, segurando um balastre. A comecei a observar metodicamente o rosto das pessoas, coisa que gosto muito de fazer. 
Os rostos revelam mundo. Muitas crnicas me apareceram no ato de observar um rosto. Uma vez, tomando o meu caf da manh num hotel em Uberaba, fui comovido pelo 
rosto de um garom j meio velho, magro, calvo, daqueles que no cortam o cabelo de um lado, para com seus fios compridos tentar disfarar (inutilmente) a calva 
lisa. Aquele rosto me comoveu. E, quase que num segundo, apareceu na minha imaginao a trama de um conto.  sobre um garom que trabalhava num hotel onde pilotos 
e aeromoas pernoitavam. Ele se apaixona por uma delas e a sua vida passa a girar em torno dos dias em que sua escala de vos fazia com que aquela que ele amava 
secretamente dormisse no hotel. O garom, servindo o caf da manh, dela se aproximava e respirava fundo para sentir o seu perfume. At saiu pelas lojas de perfume, 
 procura daquele... Terminado o caf ele recolhia copos e xcaras. A, furtivamente, na cozinha, quando ningum estava olhando, os restinhos que haviam sobrado... 
Era como se ele a estivesse beijando. Mas, voltando ao metr. De repente meus olhos encontraram uma moa que tambm olhava para mim, com um discreto sorriso nos 
lbios. Foi um momento de suspenso romntica: eu olhando para ela, ela olhando para mim. Aquele poderia ser o incio de uma estria de amor por acontecer. Muitas 
estrias de amor se iniciam em estaes. Mas ento, naquele momento de suspenso romntica, ela fez um gesto delicado: sorrindo, ela se levantou e me ofereceu o 
lugar... Entendi ento o sentido do seu sorriso: olhando para mim ela se lembrava do seu av, velhinho to querido... Compreendi que eu estava velho. Foi um momento 
de revelao. Desde ento o meu pensamento volta sempre para a velhice.
2. No dia do meu aniversrio escrevi uma crnica com o ttulo "Fiquei velho..." Eu estava feliz quando escrevi. Mas minha crnica provocou cartas de protesto. Muitos 
velhos no gostam de ser chamados de "velhos". Querem ser chamados de "idosos". No gostaram do ttulo da crnica. Pediram que eu trocasse o "velho" por "idoso". 
Mas a palavra "idoso"  boba. No se presta para a poesia. "Idoso"  palavra que a gente encontra em guichs de supermercado e banco: fila dos idosos, atendimento 
preferencial. Recuso-me a ser definido por supermercados e bancos. "Velho", ao contrrio,  palavra potica, literria. J imaginaram se o Hemingway tivesse dado 
ao seu livro o ttulo de "O idoso e o mar"? Eu no compraria. E o poema das rvores, do Olavo Bilac: "Veja essas velhas rvores"... Que tal "Veja essas rvores idosas..." 
 ridculo. Eu jamais diria de uma casa que ela  "idosa". A palavra "idosa" s diz que faz muitos anos que a casa foi construda. Mas a palavra "velha" nos transporta 
para o mundo da fantasia. O velho sobrado do meu av, onde vivi minha infncia. Meus livros velhos, folhas soltas de tanto uso. Esto assim porque viveram muito, 
fiz amor com eles, to frequentemente e tantas vezes, que se gastaram. O Chico tem uma linda cano com o ttulo: "O velho".  triste. Se o ttulo fosse "O idoso" 
seria ridcula. J imaginaram? O casal vai fazer bodas de ouro: cabeas brancas. Eles se abraam, se beijam, e ele diz para ela, carinhosamente: "Minha idosa" - 
ao que ela responde com um sorriso: "Meu idoso..." No  nada disso.  "minha velha" e "meu velho"...
3. A metfora mais bonita que conheo para a velhice  o crepsculo, o pr-do-sol. O crepsculo  lindo. Faz pensar. No crepsculo tomamos conscincia da rapidez 
do tempo. As cores rapidamente passam do azul para o verde, para o amarelo, para o abbora, para o vermelho, para o roxo, para o negro... No crepsculo sentimos 
o tempo fluir rapidamente. Por isso muitas pessoas tm medo dele. A famosa happy-hour, foi inventada como terapia para a tristeza do crepsculo. No crepsculo nos 
tornamos poetas. Muitos poetas escreveram sobre ele: Ceclia Meireles, Fernando Pessoa, Browning, Wordsworth.
4. Alan Watts, no seu lindo livro O Tao - o caminho das guas,... (no  bem assim, mas digamos que o "Tao"  o deus do taosmo. O deus do taosmo  um rio em que 
temos de navegar sem remar, flutuando ao sabor das guas, sem fazer fora, porque  intil nadar ao contrrio)... escreveu o seguinte: "Especialmente  medida que 
se vai ficando velho, torna-se cada vez mais evidente que as coisas no possuem substncia, pois o tempo parece passar cada vez mais rpido, de forma que nos tornamos 
conscientes da liquidez dos slidos; as pessoas e as coisas ficam parecidas com reflexos e rugas efmeras na superfcie da gua."
5. Vou lanar um livro sobre a velhice. O seu ttulo  As cores do crepsculo - a esttica do envelhecer. O crepsculo como metfora do envelhecer. H beleza no 
crepsculo. H beleza no envelhecer.
6. Algumas das coisas que voc encontrar nele: O vo dos pssaros  tarde, Quero viver muitos anos, O blazer vermelho, As vivas, Os velhos se apaixonaro de novo, 
Violinos velhos tocam msica, O aposentado, A solido, Um nico momento...
7. Escolhi um lugar especial para o lanamento: a Floricultura Florssima. H floriculturas onde as flores ficam arrumadinhas nas prateleiras, como ficam as caixas 
de sabo em p nos supermercados. A pessoa vai l, escolhe a flor, o atendente embrulha o vasinho em papel colorido, pe fita enrolada brilhante (nesse ponto j 
 difcil ver a flor...), e pronto! Floricultura: lugar aonde se vai para comprar flores! No a Florssima. Quem vai  Florssima e s compra flores est doente 
dos olhos. Porque a Floricultura Florssima  um lugar encantado, com carpas coloridas nadando sob as cachoeiras de um lago, colmias das minsculas abelhas aa, 
mini-jardins, jardins de janelas, jardins de portas, jardins de varanda de apartamento (voc sabia que  possvel fazer um jardim numa varanda pequena de apartamento? 
Minha filha Raquel fez um para mim, com pedras vulcnicas, bromlias, bambus japoneses - lindo!), artesanatos de todos os tipos, insetos fantsticos. O mago da Florssima 
 o Paulinho, criatividade igual estou por ver. Fascinado com as formas da natureza, ele usa o que sobra das rvores para fazer coisas assombrosas. Para mim, com 
duas cascas de coqueiro ele fez um boto azul. Com um outro tipo de casca de coqueiro inventou uma liblula de um metro e vinte de comprimento e asas enormes! O Paulinho 
olha para as formas da natureza e v as coisas que j esto l, a espera de que ele as torne visveis. Na Florssima a imaginao se pe a voar e o corpo quer descansar. 
Lugar bom para ficar assentado, sem fazer nada, s olhando, olhando. Isso diferencia as floriculturas: floriculturas aonde se vai para comprar o vaso e depois de 
feita a compra vai-se embora, ou floriculturas aonde se vai mesmo que no queira comprar nada, s para ver. Mas  difcil ir l sem ficar com vontade de comprar 
ou alguma planta extica ou um apito da amaznia ou um inseto de cuiet ou uma cermica de arteso mineiro ou um esquilo com cara malandra... Dia 15 de dezembro, 
sbado prximo, a partir das 18:30 horas. Rua Joana de Gusmo, 126 (F. 3243 9381), perto do Bosque dos Alemes. 
8. O "Trompetista Solitrio", aquele que toca trompete no incio da noite pelas ruas de Campinas. Escrevi sobre ele e, de repente, comearam a aparecer no jornal 
outros testemunhos sobre o que ele faz. At o Ceclio engrossou as louvaes... Acontece igual em todos os lugares. Solitrio. De branco. Toca nas ruas. As janelas 
dos apartamento se enchem de pessoas que estavam vendo televiso. Fazem o que nunca haviam feito: sorriem, aplaudem, acenam umas para as outras. J o batizaram de 
"Anjo". Pois ele vai tocar no lanamento do meu livro... Se voc quiser conhec-lo, aparea.
9. Fui fazer uma fala em Volta Redonda. Me disseram que antes haveria um concerto com uma orquestra de 50 violinos. Fiquei surpreso porque Volta Redonda  cidade 
do ao e ao parece que no combina com violino. Quando a orquestra entrou no palco fiquei assombrado: crianas. Crianas do povo: negras, mulatas, brancas. Tocaram 
como profissionais. A sua concentrao, ateno e disciplina me comoveram. Disso estou convencido: as crianas s so indisciplinadas quando so obrigadas a fazer 
o que no desejam. A o responsvel me contou que aqueles 50 violinos eram apenas uma frao de uma orquestra de 150 violinos que j tocou at no Teatro Municipal 
do Rio de Janeiro. Houve gente que criticasse o projeto, alegando que violino no era instrumento do povo. Povo, tocando violino, Haendel e Bach? Instrumento do 
povo  cavaquinho, bumbo, pandeiro... Contaram-me ainda de um outro projeto: corais cantando pelas ruas, nas horas da madrugada... Isso em Volta Redonda, cidade 
do ao. E em Campinas, cidade de Carlos Gomes? Natal vem a! Tempo para acordar os instrumentos guardados em cima de armrios e sa pelas ruas! Tempo para corais 
cantarem pelas madrugadas silenciosas...
(Correio Popular, 09/12/2001.)




QUARTO DE BADULAQUES  3               

1. Comeo o ano com esperana renovada. E isso, graas a uma pesquisa patrocinada pela revista VEJA. Que seria da nossa alma sem a sociologia, as pesquisas, as estatsticas? 
Pois a dita pesquisa revela a alma do povo brasileiro: de cada 100 brasileiros, 99 acreditam em Deus! Pela leitura dos textos sagrados eu sei que Deus  amor, mansido, 
verdade, beleza. Assim, a pesquisa me informa que 99% dos brasileiros cultivam o amor, a mansido, a verdade e a beleza. Com um povo assim to bonito, to religioso, 
no h demnio que possa. Que bom saber que 99% dos brasileiros so assim, to 100% Jesus! A pesquisa me curou da tristeza que tenho ao ler os jornais, que s falam 
de assassinatos, sequestros, corrupo poltica, empresarial e policial. Agora, graas  pesquisa da VEJA, sei que a realidade  outra porque 99% dos brasileiros 
acreditam em Deus. Podemos ficar tranquilos. A democracia est garantida. O povo unido jamais ser vencido. O povo brasileiro est unido em torno de Deus.
2. Os resultados da pesquisa da VEJA so de molde a causar euforia. Se 99% dos brasileiros acreditam em Deus, ento o Brasil  o campeo mundial de religiosidade. 
Esse ndice parece impossvel de ser ultrapassado. Infelizmente, entretanto, o Brasil no  o campeo. No ficou com a medalha de ouro. Ficou com a medalha de prata. 
Pela leitura dos textos sagrados fui informado de que h um povo mais religioso que o nosso e que, merecidamente, recebe a medalha de ouro:  a populao dos Reinos 
de Satans, habitantes dos infernos. 100%, todos os demnios, acreditam em Deus. No s acreditam como estremecem ao ouvir o seu nome. Informaes precisas sobre 
esse assunto se encontram na Bblia Sagrada, na carta de So Tiago, captulo 2, versculo 19.
3. Um socilogo que se dedica a estudar as religies me deu uma informao que me deixou estupefato. S acredito porque ele no  de contar mentiras. Disse-me que, 
em meio s centenas ou mesmo milhares de igrejas, denominaes e seitas que prosperam nesse pas medalha de prata, h uma com o nome de "Igreja do Cuspe de Cristo". 
Pode parecer absurdo mas no . Para a mente religiosa tudo  possvel. Argumentos da razo no contam. Mesmo os absurdos tm suas razes. O fato  que, segundo 
est relatado, Jesus, certa vez, para curar um cego de nascena, cuspiu na terra, mexeu com o dedo, fez um barrinho e com ele untou aqueles olhos do cego, ordenando-lhe 
que fosse lavar os seus olhos num tanque sagrado. O cego obedeceu e ficou curado. Ento, se foi assim,  foroso concluir que o cuspe de Cristo teve e tem poderes 
miraculosos.  cuspe divino! Na Idade Mdia houve um prspero comrcio de relquias sagradas tais como pregos da cruz de Cristo, pedaos de madeira da cruz, retalhos 
de roupas de apstolos, ossos dos santos, etc. Imaginem agora que um pouco do cuspe de Cristo tivesse sido guardado numa nfora. No seria ele disputado a altos 
preos por bispos e papas? O cuspe de Cristo tem de valer mais que pregos, pedaos de pau, pedaos de pano e ossos - por ter sido parte do prprio corpo do Filho 
de Deus. Assim, no ser de se espantar se outras seitas aparecerem com os nomes de quantas coisas haja que possam ter sado do corpo do Filho de Deus.
4. Quando eu era menino eu morria de inveja dos meus amigos catlicos. Quando eles viam um padre com sua batina e chapu negros, corriam para ele e gritavam: "Padre, 
me d um santinho!" O padre enfiava a mo no bolso e distribua santinhos coloridos por todos eles. Eu era protestante. Ficava sem santinho. Pois o meu desejo infantil 
se realizou, poucos dias atrs. No foi um padre. Foi uma pessoa religiosa que, num semforo, me deu um santinho: Santo Expedito. Santo Expedito foi um soldado romano 
que se converteu. Ainda est vestido com as roupas de guerra de um legionrio. Mas no segura armas. Na sua mo direita ele segura uma cruz. S que sua cruz  diferente 
porque nela no aparecem as palavras tradicionais. No seu lugar aparece a palavra latina: Hodie, que quer dizer "hoje". Santo Expedito  especialista em atendimento 
rpido. Os milagres de Santo Expedito so pra hoje. Santo Expedito  inimigo do amanh. Com o seu p direito ele pisa um corvo que grasna "cras" - outra palavra 
latina que quer dizer "amanh". Imagino que se h um santo especializado em atendimento rpido  porque h outros que so mais vagarosos, de atendimento lento. Imagino 
que esses santos de atendimento lento no devem ter muitos devotos. Ningum gosta de esperar. Se estou sofrendo a dor de um clculo renal, quero que a dor passe 
"agora". Que bom que haja tantos santos, cada um com uma especialidade diferente, um para desatar ns, outro para atender no parto, outro para encontrar objetos 
perdidos, outro para arranjar casamento... Me pergunto se no haver algum santo especializado em produzir a paz, em impedir os criminosos...
5. "Tudo bem?" - assim saudei a moa que me atendeu na papelaria. "Tudo bem, graas a Deus", ela me respondeu sorridente. A eu, chato, querendo testar a sua argcia 
teolgica, fiz uma outra pergunta: "E se voc no estivesse bem seria graas a quem?" Ela ficou atrapalhada. Essa possibilidade nunca lhe havia passado pela cabea. 
Eu nunca ouvi ningum dizer: "Vou mal, graas a Deus!" Pois deveria, para ser ortodoxo.
6. A brasileira que se salvou da catstrofe do World Trade Center teologou diante televiso: "Foi Deus que me salvou..." A fiquei pensando: Para Deus, no faz diferena 
salvar um ou salvar cem mil. Para Deus nada  difcil. Tudo  fcil. Salvar uma mulher ou salvar o mundo inteiro requer o mesmo esforo. Se aquela mulher est certa, 
se foi Deus que a salvou, por que no salvou os outros?
7. Dostoivski: "O que os homens desejam no  Deus mas o milagre". Os deuses so invocados, no por serem amados, mas por serem poderosos. Santo que demora para 
fazer milagre  abandonado... A afirmao de que 99% dos brasileiros acreditam em Deus pode assim ser traduzida: 99% dos brasileiros acreditam ser possvel manipular 
Deus a fim de realizar os seus desejos. Cada religio  um livro de receitas sobre "como manipular Deus".
8. Um amigo viu um sabi preso numa gaiola. Prender sabi, canrio da terra, coleirinha, curi numa gaiola  crime, pois essas so aves silvestres. "Quer vender 
o sabi"? - ele perguntou. "Vendo por R$ 70,00", respondeu o dono. "Negcio fechado", ele disse. Meu amigo levou o sabi e pendurou a gaiola no jardim. Era o fim 
da tarde. Sabis gostam de cantar ao entardecer. O sabi comeou a cantar. Logo uma sabi ouviu o canto e se aproximou. Pousou sobre a gaiola. E logo um namoro comeou. 
Amor ao primeiro canto... O namoro continuou at que a noite caiu. Bem cedo, na manh do dia seguinte, a fmea j estava l. O meu amigo abriu ento a porta da gaiola. 
Fora para isso que ele comprara o sabi. No o soltou na vspera porque j era quase noite e o sabi precisaria de tempo para se readaptar  liberdade. Levou um 
tempinho para o sabi perceber que a porta estava aberta. Quando percebeu, voou como uma flecha. E, com ele, a sabi... Aqueles que assistiram a cena choraram. Foi 
o Paulinho, da Florssima.
9. No Livro de San Michelle est relatado que os caadores de pssaros de uma ilha do Mediterrneo furavam os olhos dos pssaros que caam nas suas redes porque 
o canto de pssaros cegos  mais bonito.
10. "Um sabi preso numa gaiola faz os anjos chorar um choro que ningum consola..." (William Blake).
11. Acho que Deus se alegra mais vendo um pssaro a voar que ouvindo as ladainhas repetitivas dos religiosos que rezam a mesma reza que ele j ouviu bilhes de vezes... 
Todas as repeties so enfadonhas. At para Deus. Deus tem bom gosto.
12. No tenho problemas com Deus. Mas tenho muitos problemas com aquilo que os homens pensam sobre Deus.
(Correio Popular, 06/01/2002.)




QUARTO DE BADULAQUES 4 

1. Estou pensando em me mudar de Campinas. Campinas j no  mais a Campinas que amei. Quando me mudei para c, faz muitos anos, ainda existia o "Mercado das Andorinhas". 
Estava l, fechado, vazio, como uma memria, porque as andorinhas haviam se mudado para nunca mais voltar. Tambm as andorinhas deixaram de amar Campinas. Foram 
para outro lugar. Antes de saber da existncia de Campinas fiquei sabendo sobre as andorinhas. Eu morava numa cidade do sul de Minas, tinha nove anos, estava no 
3 ano do grupo, e o livro de leitura havia sido preparado por um ilustre educador que aqui vivia: Erasmo Braga (h uma praa com o nome dele). Os textos eram uma 
delcia. A gente tinha vontade de ler. Um deles era sobre as andorinhas de Campinas. Milhares, saam do mercado e cobriam o cu. Turistas vinham de longe para contemplar 
o espetculo. Aconteceu que, com o passar dos anos, o marcado mau cheiro que saa do mercado foi se tornando insuportvel: enormes montanhas formadas com os cocs 
das andorinhas. A administrao da cidade concluiu que aquela situao era insuportvel. E aproveitando-se da ausncia das andorinhas no inverno, resolveu fazer 
uma limpeza: mandou raspar os cocs e pintar o mercado. Voltaram as andorinhas no vero - mas que decepo! No encontraram o mercado que elas amavam com o cheiro 
que elas tanto amavam! E foi assim que elas se foram para nunca mais voltar. O mercado ficou vazio. Poderia ter sido transformado num museu ou coisa parecida. Mas 
os administradores preferiram demoli-lo. E, no seu lugar, fizeram erguer um monumento s andorinhas. E assim foi acontecendo: a velha Campinas desaparecendo, as 
casas velhas sendo demolidas, o teatro municipal foi derrubado, desapareceram os bondes, e os pedestres perderam o direito s ruas, tomadas pelos automveis... Como 
as andorinhas, j no encontro os cheiros de antigamente: as jabuticabeiras floridas, atrs dos muros, as murtas, nas praas, os jasmins, nos jardins... H um cheiro 
geral que abafou todos os outros: o cheiro do medo. E como eu no gosto do cheiro do medo, acho que vou emigrar para paragens mais mansas, onde o medo no seja tanto. 
Estou pensando em me mudar para algum lugar, na fronteira entre Israel e os acampamentos palestinos. A televiso vive fazendo alarde de uns homens-bomba que se explodem 
para explodir outros. Homens estranhos, os tais homens-bomba. Mas respeito. Matam-se e matam porque acreditam numa causa. Sacrificam-se por um ideal. Se o ideal 
est errado no vem ao caso. Matam para que seu povo, expulso pela fora do pas que era seu, possa voltar a ter uma ptria. Em Campinas no h terroristas. Ningum 
mata ou morre por ideal. Mata-se e morre-se por dinheiro.  mais provvel que eu seja assassinado em Campinas do que seja morto pela exploso de um homem-bomba, 
caso me mude para Israel. Seria instrutivo se os jornais contassem as baixas: pessoas mortas l, pessoas assassinadas c. Tenho a impresso de que Campinas ganha. 
Em resumo: estamos em guerra e ainda no nos apercebemos disso. Tanto assim que h milhares de pessoas se preparando para a folia. Acho que nem mesmo o Exrcito 
se deu conta de que estamos em guerra. Somos um rebanho sem pastor, entregue aos dentes dos lobos.
2. Os criminosos e os terroristas usam armas para matar. Se no tivessem as armas os terroristas e os criminosos no poderiam matar. Mas os criminosos no constrem 
as armas que usam. Quem constri as armas que os criminosos e terroristas usam? Quem lhes fornece os instrumentos para matar? So, evidentemente, aqueles que fabricam 
as armas. Quem so as pessoas que fabricam as armas? Sero, por acaso, os criminosos? Ou os terroristas? No. Criminosos e terroristas no possuem nem o saber e 
nem os meios para a fabricao de armas. Quem fabrica as armas so pessoas respeitveis, reconhecidas na sociedade, industriais, empresrios, cientistas, tcnicos 
que usam tecnologia de ponta.
3. Onde se encontram os industriais, empresrios, indstrias, cientistas e tcnicos que pensam e fabricam armas? Nos pases ricos, os mesmos que agora se lanam 
numa campanha contra o terrorismo. Mas se o terrorismo e o crime s so possveis graas s armas, por que  que os ditos pases no probem a fabricao de armas? 
Pela simples razo de que a fabricao e venda de armas  um negcio milionrio. A indstria das armas contribui para o progresso econmico: enriquece os pases 
que as fabricam. 4. Muitos anos atrs eu li um livro com o ttulo Report from the Iron Mountain. Era o fim da guerra fria. O fim da guerra fria trazia um perigo: 
um esfriamento no negcio das armas. Pois  claro: sem a ameaa de guerra a demanda de armas seria menor. O dito livro continha um relatrio: o governo dos Estados 
Unidos, preocupado com o impacto econmico da paz, reuniu vrios cientistas e lhes props um problema: "Que rumo deveria tomar a economia norte-americana se um perodo 
de paz viesse para o mundo?" Os ditos cientistas, depois de analisar a questo, concluram: "Um perodo de paz teria conseqncias imprevisveis, devastadoras, catastrficas, 
impensveis, para a economia norte-americana".  preciso reconhecer: a economia dos pases ricos depende pesadamente da produo e venda de armas.  preciso reconhecer: 
o crime e o terrorismo so o lado negro, escondido, do progresso econmico.
5. A televiso j mostrou documentrios terrveis de pases africanos que, h anos, esto envolvidos em sangrentas guerras internas: crianas, mulheres, homens, 
velhos, sem pernas e sem braos. Como perderam suas pernas e braos? Andando pelos campos, pisaram em minas que explodiram. Quem fabricou aqueles artefatos? No 
foram os africanos que no dispem nem de recursos econmicos, nem cientficos e nem tcnicos para tal fim. Tais minas foram fabricadas e vendidos por empresas dos 
pases ricos.
6. H um pas na Europa, famoso por sua vocao pacfica. No participa de guerras. Permanece sempre neutro. Disse algum que a sua neutralidade significa que, por 
no estar comprometido com nenhum dos lados em guerra, tem a liberdade para vender armas para ambos os lados.
7. No tenho os nmeros precisos. Quem os tem  o meu amigo Manoel de Moraes. Mas sei que, nos ltimos anos, os pases ricos gastaram trilhes de dlares (um trilho 
 um "um" seguindo de doze zeros: 1.000.000.000.000) na produo de armas. Essa quantia seria mais do que suficiente para banir a fome do mundo e para criar uma 
sociedade de abastana global. Por que razo se prefere gastar dinheiro com a guerra a gastar dinheiro com a paz?
8. O fato  que a economia de guerra , de um ponto de vista psicolgico, mais motivadora que uma economia de paz. As guerras so boas para a economia dos que esto 
por cima. Foi a segunda guerra mundial que tirou os Estados Unidos da depresso em que se encontrava.
9. Quem so os terroristas e os criminosos? Aqueles que usam as armas, ou aqueles que as fabricam e se enriquecem com o seu comrcio?
10. Carnaval: "Quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaos no salo..."  a minha marcha favorita. Havia muita festa nos sales de baile do Titanic quando 
ele se chocou com o iceberg. No filme Orfeu Negro - maravilhoso, merece ser visto de novo! - a morte estava solta entre os folies. Tambm Edgar Allan Poe escreveu 
um conto sobre um baile de mscaras no qual um dos mascarados era a morte.
(Correio Popular, 10/02/2002.)




QUARTO DE BADULAQUES 5

1. Poltica: Uma aliana poltica que jamais aconteceria em outros tempos arrancou das cavernas da minha memria uma piadinha do Reader's Digest de que me havia 
esquecido.  assim. Havia, numa cidadezinha dos Estados Unidos, uma Igreja Batista que se gabava do seu rigor no combate s bebidas alcolicas, sacramentos do Inferno. 
Havia, nessa mesma cidade, uma cervejaria enorme que fabricava milhares de litros de cerveja e era fonte de empregos, de riqueza, de alegrias e bebedeiras. Claro 
que a dita Igreja Batista tinha, como misso, combater a Cervejaria: era a luta do Santo Guerreiro contra o Drago da Maldade. Aconteceu, entretanto, que por razes 
inexplicveis, a Cervejaria fez uma doao de 500.000 dlares  Igreja. O que provocou uma enorme confuso entre os fiis. "Dinheiro do Demnio", diziam os mais 
convictos; "No pode ser aceito." Se fosse uma doao de 100 dlares a deciso seria fcil. Os 100 dlares seriam recusados. Mas 500.000 dlares  quantia difcil 
de ser recusada. Confesso que eu mesmo estremeceria... Convocou-se, ento, uma assemblia para deliberar sobre o assunto. Nas Igrejas Batistas as bases so sempre 
consultadas antes de se tomar qualquer deciso. Depois de inflamadas discusses que se prolongaram pela madrugada, finalmente um dos membros da Igreja fez uma proposta 
que resolveu o conflito e foi aprovada por unanimidade: "A 1 Igreja Batista da cidade de Beerland resolve aceitar a doao de 500.000 dlares feita pela Cervejaria 
Drinkjoy na firme convico de que o Diabo ficar furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glria de Deus." Pois : todas as alianas so possveis 
e aceitveis desde que se encontrem as palavras explicativas adequadas. Pois quem diria que o Partido Brasileiro do Reino dos Homens iria um dia fazer aliana com 
o Partido Universal do Reino de Deus? Esses dois partidos representam ideais irreconciliveis, como os ideais da Igreja Batista e da Cervejaria. Karl Mannheim  
um dos meus socilogos favoritos. Tinha imaginao. Era inteligente. No precisava se valer de estatsticas para pensar. (Hoje, nas universidades, a inteligncia 
foi substituda pelas estatsticas. Parece que, no mundo da cincia, s so aceitas as afirmaes que forem derivadas de tabelas estatsticas. J ouvi uma discusso 
sobre quantas tabelas estatsticas uma tese de mestrado deve ter, para ser aceita...). Pois h mais de 50 anos Mannheim predisse o desaparecimento das utopias, na 
poltica. O que so utopias? Utopias so fantasias de uma sociedade melhor que servem para guiar a ao. Minha utopia, por exemplo, tem a forma de um jardim. Contra 
as utopias h a sentena dos realistas que as recusam sob a alegao de serem irrealizveis. Mas o Mrio Quintana responde: "Se as coisas so inatingveis...ora!/ 
No  motivo para no quer-las.../ Que tristes os caminhos, se no fora/ A mgica presena das estrelas!" Mannheim vislumbrou um momento em que, com o abandono 
das utopias, os polticos passariam a se guiar por interesses pragmticos de poder, que podem ser ou 500.000 dlares ou 500.000 votos... Quando a gente v So Jorge 
e o Drago estabelecendo alianas  porque eles abandonaram os seus sonhos. O que se tem  um produto hbrido, um So Jorge com rabo de Drago, ou um Drago com 
cara de So Jorge. O livrinho do Orwell Revoluo dos Bichos (Animal Farm, em ingls) fala sobre isso.  sobre uma revoluo que os bichos, liderados pelos porcos, 
fizeram na fazenda para se livrarem do jugo do fazendeiro que os explorava em benefcio prprio. Os porcos tinham razes de sobra para serem os lderes da revoluo. 
Eram os animais mais sacrificados. Eram engordados para se transformarem em linguia, torresmo, toucinho, lombo, leitoa assada, pernil assado... Mas, no decorrer 
do processo revolucionrio importantes transformaes aconteceram. Pois, como os prprios porcos diziam, o processo  histrico, dialtico, no  rgido, no  linear... 
E os porcos comearam a ver que o fazendeiro e seus empregados no eram to ruins assim. Havia interesses comuns que permitiam que eles fizessem proveitosas alianas. 
A ltima cena do livrinho  cmica e terrvel: a bicharada, do lado de fora, olha atravs da janela, para dentro da casa do fazendeiro. L estava acontecendo uma 
reunio festiva para celebrar um novo dia poltico de cooperao entre fazendeiros e porcos. E os bichos, perplexos, olhavam para o fazendeiro, olhavam para os porcos, 
e no conseguiam saber quem era quem: o fazendeiro tinha focinho de porco e os porcos fumavam charutos como o fazendeiro...
2. Dia Internacional das Flores: Depois de passar o dia confinado entre 4 paredes, trabalhando, gosto de ir at a Floricultura Florssima e ficar l assentado por 
uma meia hora, vendo as carpas nadando no lago, as pombinhas que chegam perto para comer farelo, as plantas exticas e as muitas invenes do Paulinho, artista da 
natureza. Voc j imaginou? Um colar de fios tranados que tem, na extremidade, um receptculo minsculo com uma mini-bromlia de verdade, viva, e que vai continuar 
viva? Pois, h uns dias, vi l uma faixa enorme com os dizeres: "Dia 8 de maro - Dia Internacional das Flores". Flores so objetos estranhos: podem revelar uma 
irritante mediocridade ou se abrir para universos sem fim. As flores so, frequentemente, presentes de ltima hora, de uma pessoa que se esqueceu do aniversrio. 
Um buqu de rosas  sempre um presente delicado. Eu amo as rosas. Mas sempre prefiro uma nica rosa a um buqu. Por razes do Principezinho que amava uma rosa, a 
sua rosa, de quem cuidava diariamente e que temia que o carneiro a comesse, na sua ausncia. Mas fico irritado porque sei que, ao receber um buque de rosas, todas 
as pessoas vo dizer a mesma coisa: "Que lindas!" Vendo a notcia sobre o Dia Internacional das Flores meu pensamento comeou a vagabundear e comearam a vir  minha 
memria coisas que msticos e poetas disseram sobre elas. Tambm os msticos e poetas tm a sua terapia floral. S que suas flores, para serem remdios, no devem 
ser bebidos em gotas. Em gotas coloridas elas j no so mais flores... As flores, para terem poderes curativos, devem ser contempladas cuidadosamente, devagar, 
com o mesmo encantamento com que se contempla o corpo nu da mulher amada... Jesus, por exemplo, dizia que o remdio para a ansiedade  olhar (note bem: olhar...) 
os lrios dos campos, aqueles que nascem nos pastos sem que ningum os tenha plantado. O nome em ingls  Morning Glory - Glria da manh, trepadeira, parente da 
ipomeia. Para mim as azuis claro so as mais delicadas. Em 6 horas, no mais que 6 horas, elas abrem, soltam o seu azul, fecham-se e morrem. A elas eu dedicaria 
um verso da Ceclia Meireles, do seu poema Sugesto: "Sede assim - qualquer coisa/ serena, isenta, fiel./ Flor que se cumpre, sem pergunta..." Cumprir-se, sem fazer 
perguntas: que coisa mais comovente! E ns, tolos, que nunca chegamos a nos cumprir, por termos a necessidade de ter todas as respostas primeiro. Walt Whitmann dizia 
que uma Morning Glory pela manh, na sua janela, lhe dava mais felicidade e sabedoria que todos os livros de filosofia. Alberto Caeiro, cuja poesia tem a clara inteno 
de enfeitiar os nossos olhos para que voltemos a ver como as crianas viam, dizia que o olhar tem de ser ntido como um girassol. Ah! Os girassis de van Gogh! 
E  assim que Ricardo Reis termina o seu mais belo poema: "Colhamos flores./ Molhemos leves/ as nossas mos/ Nos rio calmos,/ Para aprendermos/ Calma tambm./ Girassis 
sempre/ Fitando o Sol,/ Da vida iremos/ Tranquilo, tendo/ Nem o remorso/ De ter vivido..." Quando houver oportunidade falarei sobre outras coisas que outros pensaram 
e fizeram, provocados pela simples contemplao das flores. Voc j se deu a essa aventura? (Correio Popular, 03/03/2002)




QUARTO DE BADULAQUES 6

1. O povo unido jamais ser vencido:  disso que eu tenho medo. Com a democracia o "povo" expulsou Deus da ordem poltica: Vox populi, vox Dei - a voz do povo  
voz de Deus. No sei se foi bom negcio porque o fato  que a vontade do povo  de uma imensa mediocridade. Na Bblia o povo e Deus andam sempre em direes opostas. 
Bastou que Moiss se distrasse, no alto de uma montanha, para que o povo, na plancie, se entregasse a um carnaval idlatra desenfreado. Voltando das alturas e 
vendo aquela farra Moiss ficou to furioso que quebrou as tbuas onde os 10 mandamentos estavam escritos. E h a linda estria do profeta Osias, homem apaixonado! 
Seu corao se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idias. No fundo, era uma prostituta. Pulava de amante a amante enquanto 
o amor de Osias pulava de perdo a perdo. At que ela o abandonou... Passado muito tempo, Osias perambulava solitrio pelo mercado de escravos... E que foi que 
ele viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Osias no teve dvidas. Comprou-a e disse: "Agora voc ser sempre minha, para sempre..." Pois o profeta transformou 
a sua desdita amorosa numa parbola do amor de Deus. Deus era assim, como ele. Amava um povo de todo o seu corao. Mas o povo que ele amava era uma prostituta. 
E a amava como prostituta, prostituta mesmo e no prostituta arrependida que virou santa de mos postas e olhos revirados para o cu. Que Deus ama o povo-prostituta 
 fato. Mas que esse povo-prostituta seja digno de confiana est errado. Veja o caso dos profetas: foram homens solitrios. O povo no gostava deles. Em nada se 
pareciam com esses padres e pregadores que agitam as massas, fazem reunies espetaculares para milhares de pessoas e tm programas de televiso. Quem fazia isso 
eram os falsos profetas. O povo sempre segue os falsos profetas porque o povo gosta de mentiras. As mentiras so doces. A verdade  amarga. Os polticos romanos 
sabiam que  fcil enrolar o povo. Basta dar-lhe po e circo. O povo se vende a preo barato. No tempo dos romanos o circo era os cristos sendo devorados pelos 
lees. E como o povo gostava do sangue e dos gritos! As coisas mudaram. Os cristos, de comida para os lees, se transformaram em donos do circo. O espetculo cristo 
era diferente, mais perfumado: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praas pblicas. Para a edificao da f. As praas ficavam apinhadas com o povo em festa, 
se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Aconselho a leitura do livro de Noah Gordon O ltimo judeu. Reinhold Niebuhr, telogo moral protestante, escreveu 
um livro fascinante com o ttulo Homem moral e sociedade imoral. Ele chama a nossa ateno para o fato de que os indivduos, quando isolados, so seres morais. Eles 
so "perturbados" pela voz da conscincia que lhes diz: "Isso no deve ser feito" ou "Isso deve ser feito". Sentem-se "responsveis" por aquilo que fazem. Mas quando 
eles passam a pertencer a um grupo, a conscincia individual  silenciada pelas emoes coletivas. Indivduos que, isoladamente, so incapazes de fazer mal a uma 
borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes de linchar um indivduo. Ou de pr fogo num ndio adormecido. Ou de matar friamente um homem sequestrado 
indefeso. Ou de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Precisei fazer fora para ler o livro do Saramago Ensaio sobre a cegueira. Fracassei na primeira 
tentativa. O livro me revolveu as vsceras. Foi demais. No aguentei. Um ano depois eu retomei a leitura, aguentei o horror e fui at o fim. Saramago descreve uma 
cidade onde todos ficam cegos. Ficando todos cegos, os indivduos perdem a sua condio de seres morais. E o que acontece  inimaginvel. Indivduos so seres morais. 
Mas o povo no  moral. O povo  uma prostituta que se vende a preo baixo. Meu amigo Lisneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difcil 
porque o outro candidato a deputado estava comprando votos a troco de franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com os votos do povo. Seria maravilhoso se o povo 
agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. Mas uma das caractersticas do povo  a facilidade com que ele  enganado. O 
povo  movido pelo poder das imagens e no pelo poder da razo. Na verdade, quem decide as eleies so os produtores de imagens. Os partidos tratam de comprar, 
a preo de ouro, os melhores produtores de imagens. Os votos, nas eleies, dizem quem  o melhor produtor de imagens... O povo no pensa. Somente os indivduos 
pensam. Mas o povo detesta os indivduos, isto , aqueles que, em meio  irracionalidade coletiva, continuam a pensar. Uma coisa  o ideal democrtico, que eu amo. 
Outra coisa so as prticas de engano pelas quais o povo  seduzido. O povo  a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem 
Jesus Cristo confiavam no povo... Durante a Revoluo Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletria. No sei que outras 
coisas o povo  capaz de queimar. O povo alemo amava o Fhrer. O Fhrer tambm amava o povo alemo. O Nazismo era um governo para o povo. Tanto assim que ele fez 
criar, para o povo alemo, o mais famoso de todos os automveis: o Volkswagen. Volk, em alemo, quer dizer "povo"... O povo unido jamais ser vencido! Tenho vrios 
gostos que no so populares. Alguns j me acusaram de gostos aristocrticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, 
de Saramago, de silncio, no gosto de churrasco, no gosto de rock, no gosto de msica sertaneja, no gosto de futebol (tive a desgraa de viajar por duas vezes, 
de avio, com um time de futebol...). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos 
a repetir slogans,  semelhana do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Quando isso acontece, surge a esperana. Mas, para que 
esse acontecimento raro acontea  preciso que um poeta entoe uma cano e o povo escute: Caminhando e cantando e seguindo a cano...
2. Amo os ips. Plantei um ip na rua, em frente do meu escritrio. J est com quase 2 metros de altura e j mostrou umas poucas flores amarelas. Mas, como toda 
rvore, como todo ser vivo, ele quer espao. Os seus galhos crescem para os lados, para a rua, para a calada. Mas a calada  larga.  s desviar deles e desejar-lhes 
um bom dia. Pois, dias atrs, quatro dos seus galhos que se estendiam pela calada amanheceram quebrados. Foi como se meus prprios braos tivessem sido quebrados. 
Fiquei pensando na alma da pessoa que fez aquilo. Que estranho prazer esse, de quebrar os galhos de uma rvore mansa! So sentimentos de um torturador. Algum que 
tem prazer em quebrar galhos de uma rvore, sem necessidade, ter prazer tambm em fazer sofrer um animal ou uma pessoa. Ao sentimento inicial de raiva seguiu-se 
um outro de profunda piedade: que deserto horrvel e seco deve ser a sua alma. Sua alma tem medo dos ips porque nela s h desertos. Horrorizamo-nos com os criminosos. 
Milhares h que gostariam de juntar-se a eles. Se no o fazem  por falta de coragem. Contentam-se em quebrar galhos de ips...
3. Dia 27, 4 feira: Reserve a noite do prximo dia 27. Vou convid-lo para uma surpresa!
(Correio Popular, 17/03/2002)




QUARTO DE BADULAQUES 7

1. Sobre se h vida depois da morte: Nesta semana, quando as almas piedosas fazem jejum e meditam sobre a paixo e a ressurreio de Nosso Senhor Jesus Cristo, e 
as almas no piedosas se entregam a rituais gastronmicos de devorao de chocolate, achei apropriado informar os meus leitores sobre aquilo que sinto e penso acerca 
da vida aps a morte. Meu corao est tranquilo e no h dvidas que o perturbem porque so duas, apenas duas, as possibilidades  nossa frente. Primeira possibilidade: 
h vida aps a morte. Estou tranquilo porque, se h vida aps a morte,  porque h um Poder Misterioso que a garante, poder esse a que alguns do o nome de Deus, 
sem saber o que ele seja. No caso de haver esse Poder Misterioso,  minha tola convico (todas as convices so tolas) de que ele  s amor. No estou sozinho 
nessa crena, tendo a meu favor o testemunho de profetas, msticos e poetas. Sendo s amor,  claro que a vida aps a morte ser uma realizao do amor. A idia 
de que o Poder Misterioso  um torturador que mantm, para prazer prprio, uma cmara de torturas sem fim chamada inferno,  uma calnia espalhada pelo seu inimigo. 
Mas, o que  a realizao do amor? O amor se realiza quando recebemos de volta as coisas que amamos e perdemos.  por isso que sentimos saudade. A saudade  a nossa 
alma dizendo para onde ela quer voltar. Assim, em havendo uma vida aps a morte, estou certo de que voltarei a subir em jabuticabeiras, a brincar em riachinhos, 
a balanar no balano amarrado no galho da mangueira, a comer ora-pro-nobis refogado com carne de porco, angu, feijo e pimenta, a fazer virar a locomotiva maria-fumaa 
no virador, a empinar papagaios em tardes de cu azul, a catar flores de paineira para com elas fazer soldadinhos... Que mais posso desejar? Como disse a Maria Alice, 
deve haver tantos cus quantas pessoas h. Meu cu no  igual ao seu. Nem poderia ser. Nossas saudades so diferentes. Em torno de cada pessoa constitui-se um universo. 
Dizem os astrnomos que h muitos bilhes de anos (para mim no faz a menor diferena se so bilhes ou milhes, porque esses nmeros so impensveis) houve um estouro 
gigantesco, o Big-Bang, a partir do qual foram projetados no espao sem fim os astros celestes que hoje formam o universo que conhecemos. Nada impede que haja infinitos 
outros, alm dos nossos telescpios. Pois eu acho que no foi s isso: todos ns fomos tambm projetados no espao sem fim, cada um de ns  uma estrela em volta 
da qual se forma uma nebulosa espiralada... Essa  a primeira e deliciosa possibilidade. Segunda possibilidade: no h vida aps a morte. Nesse caso a morte significa 
que vou voltar ao lugar onde estive por todo o tempo infinito passado, inclusive no Big-Bang. Esse perodo de bilhes de anos no me foi doloroso, no me fez sofrer, 
e nem demorou a passar. E poderei, ento, imaginar que o evento maravilhoso do meu nascimento a partir desse caos indefinido poder se repetir daqui a um bilho 
de anos, mas no sofrerei e nem ficarei impaciente, porque estarei mergulhado no sono profundo da no existncia. Assim, por que ter medo? Medo eu no tenho. Tenho 
 tristeza porque esse mundo  muito bom e quereria continuar a fazer minhas coisas por aqui. Pelo menos por agora  isso que sinto. Pode ser que eu venha a mudar 
de idia. Fernando Pessoa escreveu um poema que vai assim: "Tenho d das estrelas, luzindo h tanto tempo, h tanto tempo... Tenho d delas. No haver um cansao 
das coisas, de todas as coisas, um cansao de existir, de ser, s de ser, o ser triste brilhar, ou sorrir... No haver, enfim, para as coisas que so, no a morte, 
mas sim uma outra espcie de fim, ou uma grande razo - qualquer coisa assim como um perdo?" Pode ser que eu venha a sentir esse cansao e venha a desejar um fim. 
Mas ainda no me sinto cansado, agora.
2. Sobre a poesia: Somente tardiamente descobri a poesia, depois de haver virado os 40. Que pena! Quanto tempo perdido! A poesia  uma das minhas maiores fontes 
de alegria e sabedoria. Como disse Bachelard, "os poetas nos do uma grande alegria de palavras..." A eu lhe pergunto: Voc l poesia? Se no l, trate de ler. 
Troque os tolos programas de televiso pela poesia. Se voc me disser que no entende poesia eu baterei palmas: Que bom! Somente os tolos pensam entender a poesia! 
Somente os intrpretes tm a pretenso de vir a entender a poesia! A poesia no  para ser entendida. Ela  para ser vista. Leia o poema e trate de ver o que ele 
pinta! Voc precisa entender um luar? Uma nuvem? Uma rvore? O mar? Basta ver. Ver, sem entender,  uma felicidade! Assim, leia a poesia para que os seus olhos sejam 
abertos. Dicas: Ceclia Meireles, Adlia Prado, Alberto Caeiro, Mrio Quintana, Lya Luft, Maria Antnia de Oliveira. Leia poesia para ver melhor. Leia poesia para 
ficar tranquilo. Leia poesia para ficar mais bonito. Leia poesia para aprender a ouvir. Voc j considerou a possibilidade de que voc, talvez, fale demais?
3. Sobre os vestibulares: Se eu fizer os exames vestibulares, no passarei. E se o novo reitor da UNICAMP fizer os vestibulares, no passar. Se o Ministro da Educao 
fizer os vestibulares, no passar. Se os professores das universidades fizerem os vestibulares, no passaro. Se os professores dos cursinhos que preparam os alunos 
para passar nos vestibulares fizerem os vestibulares, no passaro (cada professor s passar na disciplina em que  especialista...). Se aqueles que preparam as 
questes para os vestibulares fizerem os vestibulares, no passaro. Ento me digam, por favor: por que  que os jovens adolescentes tm de passar no vestibular? 
Os vestibulares so um desperdcio de tempo, de dinheiro, de vida e de inteligncia. Passados os exames, a memria (inteligente) se encarrega de esquecer tudo. A 
memria no carrega peso intil. 4. Sugesto prtica para resolver nosso problema penitencirio: Leio que o "Bris", criminoso da quadrilha do Andinho, fugiu da 
penitenciria. Parece que os criminosos fogem das penitencirias quando querem.  claro que  preciso pr um fim a esse estado de coisas. A eu tive uma idia brilhante: 
 normal que os governos estabeleam convnios de cooperao: um ajuda o outro. Acontece que a penitenciaria de Alcatraz, a mais famosa de todas, foi desativada. 
Ele est localizada num local aprazvel, charmoso, cobiado por turistas, uma ilha na baa de S. Francisco com vista para a Golden Gate Bridge, se no me engano. 
Pensei: que desperdcio! Aquela fortaleza magnfica, vazia. A pensei que o governo brasileiro poderia fazer um convnio com o governo Bush: em troca da nossa cooperao 
no combate ao terrorismo, o governo americano nos alugaria Alcatraz, para o combate ao crime. Nada mais prtico. Pois  certo que os criminosos se sentiriam felizes 
por estar num lugar to privilegiado, to famoso. No quereriam fugir. Viveriam a gozar as delcias daquele condomnio cercado por mar e poderiam se dedicar a atividades 
que eventualmente comoveriam o seu corao e os tornariam sbios e ordeiros...  preciso notar, tambm, que sobre aquela regio paira a possibilidade de um terremoto 
gigantesco que levaria tudo para o fundo do oceano.
5. "O ataque de uma borboleta agrada mais que os beijos de um cavalo."
6. "-vida, meu Deus. Pior  que eu j perdi a inocncia para os partidos, ento quando falam em 'os estudantes' ou 'as donas de casa' eu saio no meio do discurso, 
sejam quem for, porque no acredito que a humanidade se salvar por uma de suas classes. No quero ser governada por operrios enfatuados, deslumbrados por terem 
a chave do cofre. Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que chegando a noite todo mundo v dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha 
pra fazer e foi feito. Nem me importa se quem manda  rei vindo em linha direta de Salomo..." Dito pela Adlia Prado. Os poetas nunca se deram bem com a poltica, 
como  o caso do Guimares Rosa e do Camus.
(Correio Popular, 31/03/2002) 


QUARTO DE BADULAQUES 8

- Sobre se h vida depois da morte: Nesta semana, quando as almas piedosas fazem jejum e meditam sobre a paixo e a ressurreio de Nosso Senhor Jesus Cristo, e 
as almas no piedosas se entregam a rituais gastronmicos de devorao de chocolate, achei apropriado informar os meus leitores sobre aquilo que sinto e penso acerca 
da vida aps a morte. Meu corao est tranquilo e no h dvidas que o perturbem porque so duas, apenas duas, as possibilidades  nossa frente. Primeira possibilidade: 
h vida aps a morte. Estou tranquilo porque, se h vida aps a morte,  porque h um Poder Misterioso que a garante, poder esse a que alguns do o nome de Deus, 
sem saber o que ele seja. No caso de haver esse Poder Misterioso,  minha tola convico (todas as convices so tolas) de que ele  s amor. No estou sozinho 
nessa crena, tendo a meu favor o testemunho de profetas, msticos e poetas. Sendo s amor,  claro que a vida aps a morte ser uma realizao do amor. A idia 
de que o Poder Misterioso  um torturador que mantm, para prazer prprio, uma cmara de torturas sem fim chamada inferno,  uma calnia espalhada pelo seu inimigo. 
Mas, o que  a realizao do amor? O amor se realiza quando recebemos de volta as coisas que amamos e perdemos.  por isso que sentimos saudade. A saudade  a nossa 
alma dizendo para onde ela quer voltar. Assim, em havendo uma vida aps a morte, estou certo de que voltarei a subir em jabuticabeiras, a brincar em riachinhos, 
a balanar no balano amarrado no galho da mangueira, a comer ora-pro-nobis refogado com carne de porco, angu, feijo e pimenta, a fazer virar a locomotiva maria-fumaa 
no virador, a empinar papagaios em tardes de cu azul, a catar flores de paineira para com elas fazer soldadinhos... Que mais posso desejar? Como disse a Maria Alice, 
deve haver tantos cus quantas pessoas h. Meu cu no  igual ao seu. Nem poderia ser. Nossas saudades so diferentes. Em torno de cada pessoa constitui-se um universo. 
Dizem os astrnomos que h muitos bilhes de anos (para mim no faz a menor diferena se so bilhes ou milhes, porque esses nmeros so impensveis) houve um estouro 
gigantesco, o Big-Bang, a partir do qual foram projetados no espao sem fim os astros celestes que hoje formam o universo que conhecemos. Nada impede que haja infinitos 
outros, alm dos nossos telescpios. Pois eu acho que no foi s isso: todos ns fomos tambm projetados no espao sem fim, cada um de ns  uma estrela em volta 
da qual se forma uma nebulosa espiralada... Essa  a primeira e deliciosa possibilidade. Segunda possibilidade: no h vida aps a morte. Nesse caso a morte significa 
que vou voltar ao lugar onde estive por todo o tempo infinito passado, inclusive no Big-Bang. Esse perodo de bilhes de anos no me foi doloroso, no me fez sofrer, 
e nem demorou a passar. E poderei, ento, imaginar que o evento maravilhoso do meu nascimento a partir desse caos indefinido poder se repetir daqui a um bilho 
de anos, mas no sofrerei e nem ficarei impaciente, porque estarei mergulhado no sono profundo da no existncia. Assim, por que ter medo? Medo eu no tenho. Tenho 
 tristeza porque esse mundo  muito bom e quereria continuar a fazer minhas coisas por aqui. Pelo menos por agora  isso que sinto. Pode ser que eu venha a mudar 
de idia. Fernando Pessoa escreveu um poema que vai assim: "Tenho d das estrelas, luzindo h tanto tempo, h tanto tempo... Tenho d delas. No haver um cansao 
das coisas, de todas as coisas, um cansao de existir, de ser, s de ser, o ser triste brilhar, ou sorrir... No haver, enfim, para as coisas que so, no a morte, 
mas sim uma outra espcie de fim, ou uma grande razo - qualquer coisa assim como um perdo?" Pode ser que eu venha a sentir esse cansao e venha a desejar um fim. 
Mas ainda no me sinto cansado, agora. 

- Sobre a poesia: Somente tardiamente descobri a poesia, depois de haver virado os 40. Que pena! Quanto tempo perdido! A poesia  uma das minhas maiores fontes de 
alegria e sabedoria. Como disse Bachelard, "os poetas nos do uma grande alegria de palavras..." A eu lhe pergunto: Voc l poesia? Se no l, trate de ler. Troque 
os tolos programas de televiso pela poesia. Se voc me disser que no entende poesia eu baterei palmas: Que bom! Somente os tolos pensam entender a poesia! Somente 
os intrpretes tm a pretenso de vir a entender a poesia! A poesia no  para ser entendida. Ela  para ser vista. Leia o poema e trate de ver o que ele pinta! 
Voc precisa entender um luar? Uma nuvem? Uma rvore? O mar? Basta ver. Ver, sem entender,  uma felicidade! Assim, leia a poesia para que os seus olhos sejam abertos. 
Dicas: Ceclia Meireles, Adlia Prado, Alberto Caeiro, Mrio Quintana, Lya Luft, Maria Antnia de Oliveira. Leia poesia para ver melhor. Leia poesia para ficar tranquilo. 
Leia poesia para ficar mais bonito. Leia poesia para aprender a ouvir. Voc j considerou a possibilidade de que voc, talvez, fale demais? 

- Sobre os vestibulares: Se eu fizer os exames vestibulares, no passarei. E se o novo reitor da UNICAMP fizer os vestibulares, no passar. Se o Ministro da Educao 
fizer os vestibulares, no passar. Se os professores das universidades fizerem os vestibulares, no passaro. Se os professores dos cursinhos que preparam os alunos 
para passar nos vestibulares fizerem os vestibulares, no passaro (cada professor s passar na disciplina em que  especialista...). Se aqueles que preparam as 
questes para os vestibulares fizerem os vestibulares, no passaro. Ento me digam, por favor: por que  que os jovens adolescentes tm de passar no vestibular? 
Os vestibulares so um desperdcio de tempo, de dinheiro, de vida e de inteligncia. Passados os exames, a memria (inteligente) se encarrega de esquecer tudo. A 
memria no carrega peso intil. 

- Sugesto prtica para resolver nosso problema penitencirio: Leio que o "Bris", criminoso da quadrilha do Andinho, fugiu da penitenciria. Parece que os criminosos 
fogem das penitencirias quando querem.  claro que  preciso pr um fim a esse estado de coisas. A eu tive uma idia brilhante:  normal que os governos estabeleam 
convnios de cooperao: um ajuda o outro. Acontece que a penitenciaria de Alcatraz, a mais famosa de todas, foi desativada. Ele est localizada num local aprazvel, 
charmoso, cobiado por turistas, uma ilha na baa de S. Francisco com vista para a Golden Gate Bridge, se no me engano. Pensei: que desperdcio! Aquela fortaleza 
magnfica, vazia. A pensei que o governo brasileiro poderia fazer um convnio com o governo Bush: em troca da nossa cooperao no combate ao terrorismo, o governo 
americano nos alugaria Alcatraz, para o combate ao crime. Nada mais prtico. Pois  certo que os criminosos se sentiriam felizes por estar num lugar to privilegiado, 
to famoso. No quereriam fugir. Viveriam a gozar as delcias daquele condomnio cercado por mar e poderiam se dedicar a atividades que eventualmente comoveriam 
o seu corao e os tornariam sbios e ordeiros...  preciso notar, tambm, que sobre aquela regio paira a possibilidade de um terremoto gigantesco que levaria tudo 
para o fundo do oceano. 

- "O ataque de uma borboleta agrada mais que os beijos de um cavalo." 

- "-vida, meu Deus. Pior  que eu j perdi a inocncia para os partidos, ento quando falam em 'os estudantes' ou 'as donas de casa' eu saio no meio do discurso, 
sejam quem for, porque no acredito que a humanidade se salvar por uma de suas classes. No quero ser governada por operrios enfatuados, deslumbrados por terem 
a chave do cofre. Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que chegando a noite todo mundo v dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha 
pra fazer e foi feito. Nem me importa se quem manda  rei vindo em linha direta de Salomo..." Dito pela Adlia Prado. Os poetas nunca se deram bem com a poltica, 
como  o caso do Guimares Rosa e do Camus. 

(Correio Popular, 31/03/2002) 




QUARTO DE BADULAQUES 9

- O vencedor j se prepara para receber o cheque de R$ 500.000. A o apresentador lhe diz: "Para esse cheque passar das minhas para as suas mos basta que voc responda 
essa pergunta final: Qual a razo do nome Big Brother, Grande Irmo, para esse programa?" Voc, leitor, sabe a resposta? 

- Eram 102 pessoas, 74 homens e 28 mulheres. No dia 6 de setembro de 1620 eles embarcaram no navio Maryflower, no porto de Plymouth, na Inglaterra, com destino a 
um continente desconhecido, a Amrica. Eram os Pilgrim Fathers, pais peregrinos. Peregrino: vem do latim, pela juno de per, que quer dizer "atravs" e ager, que 
quer dizer "campo". Peregrinos so aqueles que perambulam por campos que no so seus. Se tivessem campos no perambulariam. Morariam nas suas terras, cultivariam 
os seus campos. Fizeram a viagem em busca de terras que fossem suas porque eram sem terra. Desembarcaram no dia 21 de dezembro de 1620 no lugar onde hoje  a Nova 
Inglaterra. E fizeram o seu assentamento. Os habitantes do lugar, os ndios, poderiam t-los destrudo. No o fizeram. Foram generosos. Eles no acreditavam que 
a terra pudesse ser posse de algum. Mas os Pilgrim Fathers queriam ser donos da terra. E foram expandindo suas fronteiras. E,  medida em que expandiam as suas, 
as terras dos ndios encolhiam. Chegaram a fazer at uso de guerra qumica: mandaram de presente para uma tribo cobertores que tinham sido usados por pessoas atacadas 
de varola. A tribo inteira morreu. Os sem-terra ganharam terras. 

- O estado de Israel comeou como um movimento de sem terras... Os judeus no tinham terras - eram errantes, sem lugar, perseguidos, discriminados, expulsos, mortos, 
queimados pela Inquisio... Peregrinos. At que aconteceu o Holocausto, na Alemanha nazista: 6.000.000 mortos nos campos de concentrao. Foi s ento que o mundo 
se deu conta da injustia: era justo que os judeus sem terra tivessem a sua prpria terra. E a as grandes potncias que haviam ganho a guerra decidiram que a terra 
dos judeus seria na Palestina. Mas na Palestina j viviam centenas de milhares de pessoas que, por sculos, haviam sido donas da terra. Assim, para que os judeus 
sem terra tivessem terras, os donos das terras tiveram de ser expulso. O assentamento dos sem-terra judeus se deu graas  violncia. Os palestinos se transformaram, 
ento, em refugiados. Pior que peregrino. Porque o peregrino anda por campos que no so seus, em busca de algo. Mas o refugiado  aquele que mora de favor num campo 
que no  seu. No peregrinam porque no tm para onde ir. S querem ir para um lugar: a terra que lhes foi roubada. No admira que haja tanto dio contra o estado 
de Israel. 

- A tragdia que agora acontece no Oriente mdio acontece graas a dois assentamentos bem sucedidos de sem-terras: o dos Pilgrim Fathers, patronos e protetores de 
Israel, e o de Israel. 

- Fico a pensar se h uma maldio sobre a histria: que os oprimidos, uma vez livres da sua condio de opresso, se transformam em opressores. Os grandes latifndios! 
Como foi que essas terras que no eram de ningum se transformaram em posse de uns poucos? Ah! Essas terras esto adubadas com muitas mortes!  preciso reler o poema 
Vida e Morte Severina. 

- Eu me pergunto: por que os palestinos que se explodem como bombas vivas so considerados terroristas e Sharon e Bush no so? Os palestinos matam de forma herica. 
Sharon e Bush de forma acovardada: que sejam outras as pessoas a morrer; no eles. Todos fazem uso da violncia para atingir seus objetivos polticos. Todos matam 
inocentes. Vejam o que Bush fez naquele pas pauprrimo, o Afganisto. E vejam o que Sharon est fazendo com os Palestinos. Fico a pensar: o que  que liga Sharon 
 tradio proftica dos hebreus? Os profetas sonhavam com o dia em que as espadas e lanas seriam transformadas em arados e podadeiras. Os sonhos de Sharon so 
outros: o que ele deseja  que os arados e podadeiras sejam transformados em tanques de guerra e msseis. Como ele no tem nenhuma ligao espiritual com os textos 
sagrados do judasmo, imagino que aquilo que ainda o liga  tradio de Israel seja o pnis circuncidado... A nica diferena entre Bush, Sharon e os corpos-bomba 
(no mais se pode falar em homem-bomba porque algumas mulheres tambm se transformaram em bombas) dos palestinos est em que Bush e Sharon matam inocentes em nome 
de um estado, enquanto os palestinos matam sem ter um estado, em nome do sonho de recuperar as terras roubadas. O Estado justifica a violncia. Violncia do Estado 
no  chamada terrorismo.  direito de defesa. 

- "Estado  o nome do lugar onde todos bebem veneno! Estado: onde o vagaroso suicdio de todos  chamado vida". (Nietzsche) 

- "O fenmeno sinistro e horrvel da vida humana que hoje  chamado de estado totalitrio no , certamente, um fenmeno acidental e temporrio de certas pocas. 
 revelao da verdadeira natureza do estado. Aquilo que  considerado imoral para uma pessoa  considerado inteiramente moral para o estado. O estado tem sempre 
usado meios maus: espionagem, falsidade, violncia, assassinato; as diferenas, a esse respeito, so apenas em grau; esses mtodos, inquestionavelmente maus, tm 
sido sempre justificados por um fim bom e elevado. Para o poder do estado e o prestgio da autoridade eles torturaram homens e mulheres e naes inteiras. O estado 
desrespeita os direitos dos seres humanos mais que qualquer outra coisa. A poltica , sempre, uma expresso da escravido dos homens" (Nicolas Berdyaev) 

- Pediram-me que escrevesse sobre a famlia verdadeira. Ah! A famlia verdadeira! Que coisa mais linda! Famlia, projeto divino: est colado em adesivos em carros. 
Mas qual ser a famlia verdadeira? H tantos estilos: patriarcais, matriarcais, poligmicas. Pensei: a mais verdadeira de todas s pode ser aquela que saiu diretamente 
das mos do Criador. E Deus criou o homem e a mulher, Ado e Eva, e disse: "Frutificai e multiplicai..." E foi o que fizeram. Tiveram dois filhos. Um deles era carnvoro 
e se deleitava com o churrasco de ovelhas e se chamava Abel. O outro era agricultor, trabalhava a terra, era vegetariano e se chamava Caim. A, nesse ponto, achei 
mais prudente no continuar a minha fala sobre a famlia verdadeira... 

- "-vida, meu Deus. Pior  que eu j perdi a inocncia para os partidos, ento quando falam em 'os estudantes' ou 'as donas de casa' eu saio no meio do discurso, 
sejam quem for, porque no acredito que a humanidade se salvar por uma de suas classes. No quero ser governada por operrios enfatuados, deslumbrados por terem 
a chave do cofre. Quero que me governe um homem bom e justo, que cuide para que chegando a noite todo mundo v dormir cedo e cansado com tanto trabalho que tinha 
pra fazer e foi feito. Nem me importa se quem manda  rei vindo em linha direta de Salomo..." Dito pela Adlia Prado. Vocs sabem: os poetas nunca se deram bem 
com a poltica, Guimares Rosa e Albert Camus que o digam... 

- Resposta  pergunta: O nome Big Brother foi tirado da novela de Orwell, 1984, que descreve uma sociedade totalitria, na qual todas as casas eram monitoradas por 
circuitos de TV, para que o \"Big Brother", o ditador supremo, ficasse sabendo tudo o que se passava. Um homem, coitado, dormiu e sonhou um sonho proibido - e falou 
durante o sonho. Bastou isso para que ele fosse para a cadeia. , portanto, um nome sinistro, nada merecedor de risos. Mas quem l Orwell? Ou melhor: quem l? 

- "Grande  a poesia, a bondade e as danas... Mas o melhor do mundo so as crianas..." (Fernando Pessoa) 

(Correio Popular, 21/04/2002) 


QUARTO DE BADULAQUES 10

* Para aperfeioar o casamento e torn-lo mais feliz, nossos legisladores criaram o casamento com separao de bens. Mas falta ainda um passo para que a felicidade 
dos cnjuges seja completa: a criao do casamento com separao de males. 

* Meu pai me contou que, quando era menino, no incio do sculo passado, guardava seus brinquedos num saco. Os brinquedos que meu pai menino guardava no saco: latas 
vazias, pedaos de barbante, sementes, sabugos de milho, botes, pedaos de pau, pedrinhas e todo tipo de coisas inteis. Quando algum aparecia para visitar minha 
av ele pegava o saco de brinquedos e o esvaziava diante da visita. Certamente achava seus brinquedos interessantssimos! A me dele ficava furiosa e lhe aplicava 
o devido corretivo de chineladas depois que a visita ia embora. A chinela era um dos itens favoritos que minha av guardava no saco de brinquedos dela. As crianas 
continuam as mesmas. Ainda gostam de mostrar brinquedos. A gente cresce e continua criana. "Em todo homem h uma criana que deseja brincar..." (Nietzsche). E todos 
temos o nosso saco de brinquedos. A fala somos ns abrindo o saco e despejando brinquedos... O saco de brinquedos: isso  de fundamental importncia, quando o amor 
est em jogo. A paixo acontece quando, fascinados por uma imagem - pode ser um jeito de olhar, um jeito de sorrir, um jeito de falar... - imaginamos que dentro 
daquele corpo de imagem fascinante esto guardados os brinquedos com que gostamos de brincar. O que vemos  a imagem da pessoa amada, mas o que imaginamos so os 
brinquedos que julgamos guardados dentro dela. A imagem, sozinha, logo se transforma em monotonia. Ningum consegue ficar o tempo todo contemplando a pessoa amada, 
por bonita que seja. O que alimenta a paixo no  a imagem mas os brinquedos que ela guarda... Hermann Hesse dizia que a pessoa objeto do nosso amor  apenas um 
smbolo, uma lagoa onde o rosto da "Outra" aparece refletido. Que Outra? Aquela que imaginamos. Veja esses versos de Fernando Pessoa. Mas leia bem devagar... 

"Amamos sempre, no que temos, 
O que no temos quando amamos. 
O barco pra, largo os remos 
E, um a outro, as mos nos damos. 
A quem dou as mos?  Outra. 
Teus beijos so de mel de boca, 
So os que sempre pensei dar, 
E agora a minha boca toca 
A boca que eu sonhei beijar. 
De quem  a boca? Da Outra..." 

E assim vai. Mas chega um tempo em que nos cansamos de dar as mos, nos cansamos de olhar, nos cansamos de beijar. E dizemos: "Vamos brincar?" Hora de abrir o saco, 
hora da verdade... Os brinquedos espalhados pelo cho, descobrimos que no eram os brinquedos que imaginvamos. O saco era lindo! E a beleza do saco nos enganou. 
Uma relao amorosa, para ser duradoura, tem de ser uma relao de brincar. Ela dura enquanto os dois brincam. Um gosta de brincar com bilboqu ou de ouvir msica 
sertaneja, enquanto o outro detesta bilboqu e prefere ouvir msica clssica... A o jeito  brincar sozinho. O Outro, quando aparece,  um desmancha-prazeres... 
Pergunta que os parceiros deveriam se fazer: "Temos prazer em brincar juntos? Ficamos felizes s em pensar que vamos brincar juntos?" Se a resposta for negativa 
 melhor ir procurar outro saco... 

* Na Escola da Ponte havia um computador com dois arquivos: "Acho Bem" e "Acho Mal". Qualquer pessoa podia escrever neles os acontecimentos que davam alegria e os 
acontecimentos que davam tristeza. Sugesto: que os jornais sejam divididos em duas sees. Uma de nome "Acho Bem", em cores alegres. Outra, de nome "Acho Mal", 
em cores sinistras. Assim, o leitor poderia escolher o seu menu: ou comidas de cheiro bom ou pratos em decomposio. Coisa que no entendo  a preferncia do povo 
por notcias putrefatas. "Menino de onze anos trabalha como engraxate para sustentar a av paraltica": isso jamais seria manchete. "Menino de onze anos mata a av 
paraltica para roubar dinheiro": isso seria notcia que todos leriam avidamente. Um filsofo chamado Feuerbach disse que ns somos o que comemos. De tanto comer 
comida suna chegamos a nos parecer com os porcos. Meu amigo Brando, na poca do escndalo dos "anes do oramento", h muito esquecidos, se queixava: "Lendo os 
jornais a gente tem a impresso de que o Brasil  formado por bandidos. Mas h coisas lindas acontecendo de forma silenciosa e invisvel, pessoas que vivem por ideais 
altos e lutam pela justia e pela verdade..." Ser que ns, humanos, sofremos de uma doena inata, um pecado original que nos faz preferir o ptrido, o escabroso, 
o indecente, o violento? Os homens da mdia vivem repetindo que o dever dos jornais e da televiso  dar a "notcia". Mas "notcias", h milhares delas espalhadas 
pelo mundo. O que me espanta  o critrio que se usa para pinar, das milhares que h, aquelas notcias que iro ser servidas aos leitores como comida.  preciso 
reconhecer que os jornais e a televiso so os fatores mais importantes na educao do povo. Jornais e televiso tm a misso tica de contribuir para que o povo 
seja melhor. Se o povo s se alimentar de comidas ptridas ele passar a gostar do ptrido. E, ao final, ficar tambm ptrido. 

* Acho Bem: "Delegacia de polcia": que imagens esse nome evoca em voc? Eu, desde pequeno, tive medo de delegacias e de policiais. Sabia que eles eram homens de 
armas e violncia. Nas minhas fantasias de menino eu imaginava que se eu entrasse na delegacia eles me trancafiariam. Mesmo depois de grande continuei a ter medo. 
As delegacias nunca me foram lugares agradveis, nunca me provocaram sentimentos de segurana. Imagine agora uma delegacia de polcia em que tudo est limpo, cuidado, 
novo... Os espaos so amplos e iluminados... H jardins bem cuidados... Uma delegacia que  visitada pelas crianas... Pois deveria ser assim! Voc sabe que o corpo, 
para ter sade, depende de um sistema policial interno, mecanismos que identificam os inimigos invasores e lhes do combate. A febre  o calor do combate entre polcia 
e os invasores do corpo. Assim, na ordem biolgica, polcia e corpo so amigos. A polcia morre para que o corpo viva. O pus de uma ferida so os mortos em combate. 
 possvel imaginar uma polcia que compreenda que sua misso  no somente combater os criminosos mas tambm, e principalmente, trabalhar junto  comunidade que 
a cerca - o corpo - para que ela se sinta confiante e colabore para que a sade - condio para a vida - seja mais forte que a doena - comeo da morte. Delegacia 
de polcia  lugar para onde se dirigem as "vtimas". Vo l porque foram feridas, ameaadas, humilhadas. E, chegando l, ao seu sofrimento se acrescenta o medo... 
Pode ser que voc no acredite: h aqui em Campinas uma delegacia de polcia estranha: faz aquilo que normalmente os policiais fazem, isto , combater o crime. Mas 
se organizou tambm para "cuidar" das vtimas. Para isso ela trabalha de forma multidisciplinar, com a cooperao de universidades, organizaes de profissionais 
e rgos pblicos. L voc vai encontrar psiclogos, assistentes sociais, advogados, policiais, vtimas, ligados pela filosofia do "Projeto Abrao". J imaginou 
isso? Uma polcia abraante? O que mais me surpreendeu na visita que fiz ao 5 DP foi ver que o delegado, o Dr. Fernando Mrio Costa e Trigueiros,  um amante de 
msica erudita e tem uma coleo invejvel de CDs que ele e seus colaboradores ouvem enquanto trabalham. Essa notcia sobre o 5 DP eu colocaria no meu "Acho Bem"... 

* O que voc faz bem, pode fazer bem para algum. Seja um voluntrio! Procure a FEAC. Tel. 3794-3519. (Correio Popular, 05/05/2002) 

QUARTO DE BADULAQUES 11

o Se eu fosse redator chefe, essa seria a manchete do meu jornal, na 2a. feira passada: "Povo unido ri e chora, esquecidas as diferenas." Foi isso que me emocionou. 
No foi o Penta. O "Penta" no passa de um lindo fogo de artifcio que ilumina o cu por alguns segundos. Mas a alegria do povo, por coisa to efmera, isso me comove. 

o Entusiasmo ecumnico maior eu nunca vi. Catlicos, evanglicos, candombl, umbanda, protestantes e quantas religies haja, todas, cada uma a seu modo, acendiam 
velas aos seus deuses, primeiro pedindo ajuda, e depois, ao final, por pura alegria... No sei se os deuses ligam para essa tolice humana chamada futebol. Pois no 
 uma tolice? Uma brincadeira? Alegria porque uma bola passou uma linha branca? Que diferena na vida isso faz? Nenhuma. Mas o fato  que ns nos comovemos com tolices 
assim. No me peam explicaes... Talvez os deuses liguem sim. Se eles forem do jeito como imagino eles se comovem com as emoes dos tolos coraes dos seres humanos. 

o As emoes, riso e choro misturados, esto guardadas na alma do povo,  espera. Quando a ocasio chega elas se incendeiam como fogos de artifcio, sobem aos cus 
assobiando e explodem em chuvas de estrelas. Os fogos de artifcio se parecem com a alma... Gostaramos de morrer daquele jeito, naquela exibio de potncia, subindo 
aos cus assobiando, para terminar num orgasmo de cores que ejacula jatos de prata, fogo, estrelas e cometas... 

o O que o Chico disse na Banda se aplica direitinho: 

"A minha gente sofrida 
Despediu-se da dor 
Pra ver a banda passar 
Cantando coisas de amor..." 

O velho fraco, a moa feia, o faroleiro, a moa triste, o homem srio, a meninada, todo mundo parou pra ver "a banda passar 
cantando coisas de amor..." 

Foi isso que aconteceu. 

o Uma coisa eu no entendo, acho que nem a psicologia e nem a psicanlise entendem: Como explicar esse fato incrvel, que essa queima linda e efmera de fogos de 
artifcio possa provocar tanto entusiasmo nas pessoas e no haja entusiasmo que se lhe compare quando o que est em jogo so as questes srias da vida real? Que 
causa provoca entusiasmo semelhante? A preservao da natureza? A educao? A luta poltica por uma sociedade mais feliz? A luta contra o crime? 

o Onde se encontra a emoo do futebol? Ser na sua beleza? Sim,  bom ver uma partida que se parece com um bal. Mas esse espetculo coreogrfico no faz o torcedor 
feliz. Uma partida que termina zero a zero  um tdio. O grito vem quando o gol acontece.  no gol que mora a alegria e... o sofrimento... A alegria do torcedor 
cujo time fez o gol  simtrica do sofrimento do torcedor do time que sofreu o gol. Cada gol que se faz  uma afirmao de potncia enquanto cada gol que se leva 
 uma afirmao de impotncia. E o gol , fundamentalmente, um ato sdico. Um estupro. Um gol  um time que enfia a sua bola no buraco do outro - dolorosamente - 
embora o outro tenha feito tudo para impedir que isso acontecesse. 

o A emoo do futebol, suas alegrias e tristezas, vm do fato de que futebol  guerra. Uma copa do mundo  uma guerra estilizada entre muitos pases. Da a importncia 
das bandeiras e dos hinos nacionais. Quem est em campo  um pas em guerra contra um inimigo. A seleo so seus melhores heris guerreiros, como na guerra de Tria. 
O campeo  o vencedor da guerra. Os outros so os vencidos. Medalha de prata no tem graa. O vice-campeo  tambm um vencido. 

o O povo unido, esquecidas as diferenas, esquecidos os partidos polticos, esquecidas a crenas religiosas: todos sentindo igual, todos cantando igual, todos gritando 
ao mesmo tempo, uma nica bandeira. O entusiasmo do futebol provoca a unio. Essa unanimidade de sentimentos e aes  caracterstica dos tempos de guerra. Diante 
de um inimigo comum que ameaa, os conflitos internos perdem o seu sentido. As esquerdas argentinas, inimigas da ditadura militar, se esqueceram da sua inimizade 
e se uniram ao povo e aos militares nas praas, quando as ilhas Malvinas foram invadidas. A guerra faz esse milagre: ela transforma as inimizades internas em amizade. 
Campeonato mundial de futebol  a guerra que dissolve todas as oposies internas. Imagino que at os inimigos do Felipo que o hostilizaram por causa do Romrio, 
ao ver a seleo em campo se esqueceram da sua raiva, torceram por ela e gritaram a cada gol. 

o Mas o fim da Banda  triste. 

"Mas para meu desencanto 
o que era doce acabou, 
tudo tomou seu lugar 
depois que a Copa acabou..." 

Terminada a guerra contra o grande inimigo, comeam os conflitos entre os irmos. Passada a Copa os torcedores tiram a camisa verde-amarela e cada um veste a camisa 
do seu time. Retorna, ento, a guerra antiga... 

o Diante do perigo do gato os ratos se unem e sonham sonhos de fraternidade em que todos repartiro socialisticamente o queijo inacessvel, guardado pelo gato. Morto 
o gato os ratos se esquecem da solidariedade socialista e comeam a brigar entre si por causa do queijo. 

o O futebol  um jogo que ensina muito sobre as relaes humanas porque todos os relacionamentos humanos so jogos. Faz tempo eu escrevi que as relaes de um casal 
podem ser compreendidas segundo o modelo do jogo de tnis e o jogo do frescobol. O tnis: dois jogadores, duas raquetes, uma bola, o objetivo  tirar o outro da 
jogada, um ganha e o outro perde, um ri e o outro chora. Quem perde no fica feliz. Por isso quem perde sempre acaba por procurar um outro parceiro... Casamentos 
tipo tnis sempre terminam mal. O frescobol: dois jogadores, duas raquetes, uma bola, o objetivo  manter o outro na jogada, ou os dois ganham ou os dois perdem, 
ou os dois riem juntos ou os dois choram juntos. Nas duas possibilidades eles continuam amigos. Casamentos tipo frescobol so duradouros. Assim tambm acontece com 
o jogo de peteca: todos, na roda, batem a peteca para o alto, de forma a permitir que o companheiro bata tambm. Da a regra: "no deixar cair a peteca..." 

o O filme Uma mente brilhante conta a histria de John Nash, um matemtico que ganhou o prmio Nobel por haver colocado em frmulas matemticas um certo tipo de 
jogo econmico do tipo frescobol, isso , um jogo baseado nas relaes de cooperao e alianas, por oposio ao conflito e  destruio. 

o O futebol  uma combinao de tnis e frescobol. Em relao ao time adversrio o futebol  tnis, guerra, o adversrio tem de ser derrotado. Se eu no o derrotar, 
ele me derrotar: ou um ou outro... 

o Mas, para que o meu time derrote o adversrio,  preciso que os seus jogadores joguem, entre si, o jogo do frescobol. H de haver cooperao, entrosamento, harmonia. 
Ou todos ganham ou ningum ganha: "um e outro"... 

o Pode acontecer - e frequentemente acontece - que um jogador seja rodo pelo rato chamado "inveja". E a inveja no consegue jogar o jogo da cooperao. A inveja 
instaura, ento, o jogo da "sabotagem". O objetivo do jogo da sabotagem  destruir o companheiro que me causa inveja (ele joga melhor,  mais bonito,  mais amado...) 
Assim, ao invs de lhe passar a bola para que ele faa o gol - ele est livre, sozinho diante do goleiro! - o invejoso prefere driblar os trs adversrios que se 
encontram  sua frente para ele fazer o gol e se transformar em heri. O resultado: ele perde a bola e o seu time perde a partida. O time perdeu a partida mas o 
invejoso est feliz: ele no deixou que o outro, que ele inveja, fizesse o gol... A esse tipo de jogador eu dou o nome de "sabotador". 

o H um ditado nas Sagradas Escrituras que diz: "Basta uma mosca para pr a perder o pote de mel". Eu digo: basta um sabotador para derrotar o prprio time. Nem 
precisa do adversrio... 

o Os empresrios e todos aqueles que lidam com grupos humanos deveriam estudar o futebol. Teriam muito a aprender. Toda empresa  um futebol, todo agrupamento humano 
 um futebol. Conselho: olho nos invejosos! Olho nos sabotadores. No deixem que a mosca estrague o pote de mel... Se houver um sabotador, pode estar certo, sua 
empresa no ganha a taa... 

*** 

o A propsito do sabotador, sugiro uma leitura deliciosa: o nmero do Asterix que leva o nome de Ciznia.  sobre um sabotador verde que tem o nome de Tulius Detritus. 
Se voc no est familiarizado com o Asterix, trate de familiarizar-se enquanto  tempo. No Juzo Final lhe ser perguntado: "Leu o Asterix?" Outro nmero do Asterix 
que deveria ser lido por todos os que trabalham em empresas  o Obelix & Cia. 

(Correio Popular, 07/07/2002)


QUARTO DE BADULAQUES 12
 PATATIVA DO ASSAR: Foi o Dr. Joo Alberto, doutor de olhos, que me abriu os olhos para ver o que eu no havia visto: o Patativa do Assar. O livro estava no consultrio 
dele. Patativa, se  que vocs no sabem,  o nome de um pssaro de canto mavioso, j quase desaparecido. Pois ele, o Patativa do Assar, Antnio Gonalves da Silva, 
acabou de morrer, aos 93 anos. Poeta do nordeste, sem estudo, doutor honoris causa em vrias universidades, assim explicava sua poesia que jorrava como fonte: "Eu 
fao o que quero, porque Deus  que quer, no sou eu..." Fernando Pessoa, estudado e culto, tambm dizia que sua poesia nascia do querer de Deus: "Deus quer, o homem 
sonha, a obra nasce..." Poesia  a vontade de Deus tornada escrita. O Patativa do Assar fazia poesia por inspirao divina... Pois vo a alguns dos seus cantos: 
" glria bastante fria/ a daquele que estudou,/ formou-se em filosofia/ mas nunca filosofou." "Eu acho melhor falar errado dizendo a coisa certa do que falar certo 
dizendo a coisa errada." "Sem ver as grandes cegueiras/ da sua prpria pessoa/ vive o homem sempre s carreiras/ atrs de uma coisa boa./ Quando a coisa boa alcana/ 
ele ainda no descansa./ Sente um desejo maior./ Esquece aquela ventura/ e corre logo  procura/ de outra coisa melhor./ Se a segunda ele alcana/ aumenta mais a 
canseira./ Fica sem se conformar/ correndo atrs da terceira./ Vem a quarta, a quinta, a sexta,/ e ele sendo a mesma besta./ Correndo atrs da ventura/ assim esta 
vida passa/ e o desgraado fracassa/ no fundo da sepultura." 
 JOELMA: Vocs devem se lembrar da Joelma, aquela moa que 18 anos que me escreveu pedindo ajuda. Sofrendo de uma degenerao progressiva do sistema nervoso, os 
seus movimentos estavam ficando cada vez mais difceis, a caminho da paralisia. Pensei que uma coisa boa seria se ela tivesse um computador ligado  Internet. Isso 
permitiria que ela viajasse pelo mundo sem sair do seu quarto. E poderia entrar em contato com pessoas que sofriam de doena parecida. Fiz um apelo atravs dessa 
coluna. E ela ganhou um computador e recursos para pagar os custos da Internet. Isso deu vida nova  Joelma que at encontrou um namorado... Pois a Joelma fez um 
concurso para um emprego pblico e passou. Mas para poder trabalhar ela vai precisar de uma cadeira de rodas que custa R$ 900,00 (pelo menos esse era o preo, antes 
da disparada do dlar). E agora estou eu aqui de novo perguntando se vocs no querem ajudar. Se voc puder fazer uma doao - no importa que seja pequena -  s 
fazer o depsito em nome de Joelma Batista da Silva, CPF 285.249.538-45, Banco Nossa Caixa, Agncia 0463, conta corrente 190154181, Itaquaquecetuba, SP. 
 Um amigo, educador ambiental, levou um grupo de adolescentes para ver uma mina. Uma mina  algo assombroso.  l que a gua nasce. Se a presso da gua  forte, 
a gua jorra para cima, levantando a areinha que estava no fundo. Beber a gua da mina, ajoelhado, mos em concha;  uma experincia mstica. Os adolescentes ficaram 
pasmos, nunca haviam imaginado que era assim que a gua nascia. Para eles a gua ou nascia das torneiras ou vinha em garrafas. Mas houve um deles que no ficou pasmo 
diante da mina. Ps-se a andar, olhando atrs de pedras e rvores, como se estivesse procurando algo. Meu amigo lhe perguntou: "O que  que voc est procurando?" 
Ele respondeu: "Estou procurando o lugar onde se desliga a gua..." 
 A msica clssica foi e  uma fiel companheira na solido. Na verdade,  s na solido que ela pode ser sentida. Porque  na solido que existe o silncio. A msica 
clssica  intolerante com os conversadores. Amante ciumenta, ela exige exclusividade e ateno total. No d os seus prazeres a quem no se entrega a ela, no momento 
em que ela est se entregando... Uma das minhas alegrias gratuitas tem sido o programa "Quem tem medo da msica clssica?", apresentado pelo senador Artur da Tvola, 
na TV Senado. Se eu no soubesse, jamais suspeitaria que ele  um poltico. Porque poltica  coisa de poder. Mas msica  coisa de amor...  um prazer v-lo, seu 
rosto sorridente. E  um prazer ouvi-lo: sua voz mansa, inteligente e sensvel. O Kama-Sutra  um livro de sabedoria oriental onde se ensinam as sutilezas e delcias 
do amor sexual. Pois eu diria que o senador Artur da Tvola  um mestre do Kama-Sutra musical. Ele conhece os mltiplos prazeres da msica, suas infinitas posies 
e deseja que os outros tenham a mesma experincia, especialmente as crianas. E ele, sorridente, repete sempre o moto: "Msica  vida espiritual. E quem gosta de 
msica nunca est sozinho..." Faa uma viagem. Transporte-se para os mais maravilhosos teatros do mundo. Oua as orquestras mais famosas e os melhores intrpretes. 
"Quem tem medo da msica clssica?" vai ao ar pela TV Senado aos sbados s 10 e 18 horas. Aos domingos: 10, 18 e 24 horas. 
 O plantador de jardins: Contaram-me de um homem que, cansado com a cidade, resolveu mudar-se para a regio montanhosa onde vivera quando menino. Tinha saudade 
das matas! Mas qual no foi a sua tristeza ao ver que os homens, com seus machados e serras haviam cortado as rvores. As encostas das montanhas estavam agora peladas 
e tristes, sem pssaros, sem borboletas, e os antigos riachinhos, sem as matas que os protegessem, haviam secado. Pois ele disse para si mesmo: "Essa ser a minha 
misso, pelo resto da minha vida: sairei todos os dias com um saco de sementes das rvores que aqui havia e irei pelas encostas nuas plantando de novo. Se, de cada 
dez sementes que eu plantar uma vingar, estarei recompensado. E assim ele fez. Viveu mais dez anos. Morreu feliz! Da janela de sua casinha ele olhava para as montanhas 
- e ele parecia v-las sorrir, quem sabe cantar de felicidade! As rvores que ele semeara estavam crescendo, os pssaros haviam voltado, os bichos estavam de volta. 
Existir maneira mais linda de morrer? Contei essa estria para as crianas de Caldas, municpio de Minas, onde est Pocinhos do Rio Verde. Em tempos idos aquela 
regio foi coberta de araucrias, os pinheiros do Paran. Onde esto os milhes de pinheiros do Paran que formavam florestas? A ganncia e a falta de amor pela 
terra os transformaram em dinheiro e tristes pastos sem rvores. Contei e sugeri que elas, crianas, como parte de suas atividades escolares, deveriam plantar um 
pinho num saquinho, reg-lo, e cuidar da mudinha, at que ela estivesse no tamanho certo. Chegaria ento o dia em que todas elas, com suas professoras, seus pais 
e todo mundo que quisesse, iriam plant-las nos campos nus. Sugiro que as pessoas religiosas, ao invs de prometerem sacrifcios e repeties de rezas a Deus - Deus 
no gosta de sacrifcios e quanto s rezas, sempre as mesmas, ele j as sabe de cor; no precisando de nossas repeties - bem que poderiam prometer plantar rvores... 
Acho que Deus, Jardineiro Supremo, haveria de aprovar. Acho que isso teria de ser atividade obrigatria em toda escola... 
 No existe ideal poltico mais bonito que a Democracia! Porque ele se baseia na idia de que o povo tem o direito de decidir sobre os rumos desse barco em que 
navegamos, e que se chama pas!  preciso cuidar dele porque h suspeitas de que seu casco esteja furado... Os partidos polticos so as vrias tripulaes que disputam 
o controle do barco. O problema  que todas as tripulaes dizem a mesma coisa. Todas prometem consertar os furos do barco, todas prometem navegar na direo do 
mesmo porto! E  o povo que dever escolher a tripulao que vai cuidar do barco e faz-lo navegar na direo do porto prometido. Se o povo escolher a tripulao 
errada, ai de ns: barco furado, naufragado, o povo se afogando... O que os partidos esto dizendo no faz diferena, porque todos prometem a mesma coisa. A coisa 
se complica quando a gente examina a composio das tribulaes. Meus Deus! Que lapso freudiano acabo de fazer! Minha cabea queria escrever "tripulao" mas meus 
dedos escreveram "tribulao"... Com quem estar a verdade? Com a cabea ou com os dedos? O futuro dir... O fato  que se consumam alianas que se acreditavam impossveis: 
lobos pastando grama com cordeiros, gavies chocando ovos de rolinhas, antigos piratas abraados a pacficos navegantes... Coisa complicada  a Democracia, fcil 
de ser louvada, difcil de ser executada. No final das contas o ideal da democracia entra pelo esgoto. O fato  que os eleitores nem sabem o que est acontecendo 
e nem sabem quem  quem. O que eles sabem so as montagens que aparecem na televiso, produzidas segundo a psicologia das massas, a mesma que se usa para vender 
cerveja, sabo em p e absorventes higinicos. Aquilo que o povo sabe  o que as imagens produzidas mostram. O resultado das eleies vai ser, na realidade, a entrega 
do "Oscar" ao melhor filme: ganha o melhor ator, o melhor roteiro, o melhor diretor... Cumpre-se o dito por Maquiavel: o que importa na poltica no  que o governante 
seja justo, mas que ele parea ser justo. 

QUARTO DE BADULAQUES 13
ALBERT SCHWEITZER: Eu e o Gilberto Dimenstein estamos planejando produzir um livro a duas cabeas. Explico por que digo "produzir" e no "escrever": vamos nos trancar 
numa sala, telefones normais e celulares desligados, gravador ligado, e vamos conversar livremente sobre as nossas experincias de escola. O livro ser a transcrio 
desse dia de conversas. J decidimos sobre o ttulo. O livro vai se chamar: Fomos maus alunos. No sei quo mau aluno o Dimenstein foi. S posso falar sobre mim. 
Vagabundei muito. No gostava de estudar. No tinha razes para gostar de estudar. Estava sempre pendurado com notas baixas, em perigo de 2a poca. Para quem no 
sabe 2a poca era um exame que se fazia em fevereiro para aqueles que haviam levado bomba na 1a poca. Nunca fiquei para 2a poca porque me rachava de estudar nas 
quatro semanas que antecediam os exames finais. Tudo, menos perder as frias. Os burocratas tm sempre idias brilhantes nos seus escritrios, idias que eles transformam 
em leis. Pois um deles pensou uma alternativa para os vestibulares: os alunos entrariam para a universidade tomando-se por base seu histrico escolar, suas notas 
no ginsio e no colegial. Se essa idia tivesse se transformado em lei eu nunca entraria na universidade. Fui mau aluno. O que me era ensinado no era o que eu queria 
aprender. O que aprendi, aprendi andando pelos meus prprios caminhos. Mas o que eu aprendia nos meus caminhos no caa nas provas. Pensando sobre como aprendi dei-me 
conta de que um dos fatores que mais me motivaram foi a admirao por certos homens que me pareciam extraordinrios. Eu queria ser como eles. Lia suas biografias 
com emoo. Foi assim com Albert Schweitzer. Filsofo, telogo, prmio Goethe de literatura, organista desde menino, apaixonado por Bach, dava concertos de rgo 
por toda a Europa. Mas, aos 30 anos resolveu abandonar sua vida de sucessos culturais, entrou para a faculdade de medicina, formou-se mdico e foi viver na frica, 
uma aldeia miservel chamada Lambarene, no meio da selva. Aos noventa anos, ainda ativo, escrevia de Lambarene: "Passei o meu nonagsimo aniversrio em boa sade, 
sobrevivendo agradavelmente". Prmio Nobel da Paz. Eu amei Schweitzer. Quis ser como ele. E, para ser como ele, eu tinha de entrar pelo seu mundo. Mas o mundo de 
Schweitzer no se encontrava nos programas das escolas. A escola me ensinava dinastias egpcias, nomes de batalhas, nomes de cidades da antiga Mesopotmia, os acidentes 
geogrficos da costa da Noruega, anlise sinttica que odeio e nunca aprendi. Mas l nunca pronunciaram o nome de Schweitzer e nem falaram sobre a "reverncia pela 
vida", que era o princpio fundamental da sua filosofia. J escrevi uma crnica sobre ele, Em defesa da vida - est no livro O Mdico (Papirus). Schweitzer foi, 
para mim, uma porta atravs da qual penetrei num mundo que, nos programas escolares, est mergulhado em silncio. Fico a pensar: hoje, quais so os homens que despertam 
a admirao dos jovens? Que homens lhes causam entusiasmo e desejo de imitar? O que aconteceu com os homens que inspiravam os jovens a viver vidas nobres? Entraram 
em eclipse, ofuscados pelo brilho dos artistas de televiso. No podem competir com o "Big Brother". Um menininho de quem fiquei amigo, aquele que vendia salgadinhos 
no aeroporto de Guarapuava, me escreveu perguntando se eu no podia ajud-lo a realizar o seu ideal: ele queria conhecer o Gugu Liberato... Voltando ao nosso assunto: 
pois faz dois meses recebi um presente maravilhoso: o livro da correspondncia de Schweitzer. De algum que eu no conhecia e ficou gostando de mim sem me conhecer, 
por saber do meu amor por Schweitzer. Cartas, centenas. Todas elas escritas com a mesma simplicidade e a mesma clareza, quer fossem dirigidas a uma rainha ou a um 
grupo de crianas. Numa de suas cartas ele dizia: "Todas as coisas profundas so simples". Cartas para Buber, Pablo Casals, Bartrand Russel, Gandhi, Nikos Kazantzakis, 
Nehru, Max Plank, Reinier III - Prncipe de Mnaco, Romain Rolland, Tagore, Einstein, Hermann Hesse... O livro era usado. Cheio de marcas e anotaes. Uma outra 
pessoa j passou por ele e o amou. Tambm admirou Schweitzer. Assim ns dois, aquele que deu o livro de presente e eu que recebi o presente somos "companheiros", 
de "cum + panis", comemos o mesmo po. Mas agora estou numa grande tristeza: perdi a carta que veio junto com o livro. E como eu no conhecia o homem que me deu 
o presente, no sei como dizer a ele da minha gratido por essa prova de amizade - esse  um livro que s pode ser dado a algum de quem se gosta muito. Por favor, 
voc que me deu o livro: comunique-se comigo. 
TENENTE PACFICO: "As onas comeram as nossas raes durante a noite e tememos que tenham devorado tambm o sentinela pois ele desapareceu". Estava assim escrito 
na carta que o tenente Pacfico escreveu de algum lugar da Mantiqueira, teatro de operaes blicas da revoluo de 1932. Tenente Pacfico  o nome do livro que 
Waldo Csar, meu amigo, escreveu sobre a revoluo de 32. O dito tenente Pacfico, personagem literria, foi tambm personagem real, existiu mesmo, e eu o conheci 
j velho e calvo, rosto redondo e vermelho, e at foi meu professor de Bblia na escola dominical. Com livros eu sou feito cachorro. No abocanho. Primeiro cheiro. 
O nariz tem de aprovar. Assim, abro uma folha aqui, outra folha ali, leio um pargrafo, uma frase. Se o nariz diz "sim" ento me ponho a comer o livro. Foi o que 
aconteceu com esse livro. Livro que meu nariz aprova  livro em que eu entro dentro: me misturo com os personagens, dou palpites, rio, choro, amo, mato. E l estava 
eu, na estao de Resende, ao lado do reverendo Samuel, esperando que o tenente Pacfico chegasse com os soldados. Tocou o sino, anunciando a partida do trem da 
outra estao. Chegaria logo. E a chegou a locomotiva mostruosamente de ferro, resfolegando morte, negra, assobiando vapores, rodas de ao guinchando sobre os trilhos 
na freiada. Cheiro de lenha queimada. Os soldados, rostos inocentes, enchendo a plataforma, quais daqueles rostos no retornariam? Falam sobre a primeira baixa. 
Um dos soldados, que viajava entre os vages, caiu nos trilhos e foi esmagado pelo trem. Ou ser que ele se atirou sobre os trilhos, por no suportar o medo da espera? 
Melhor terminar logo... Nunca se saber... Idos os soldados para as frentes de batalha, a guerra ficou acontecendo nas conversas. Contava-se sobre uma fabulosa arma 
de guerra dos paulistas. Era um "trem blindado", encouraado, cheio de canhes e metralhadoras, capaz de espalhar a morte e a destruio. Os governistas tremiam 
de medo ao ouvir falar do dito trem. Me informaram depois que o dito trem foi construdo nas oficinas ferrovirias de Campinas, o que tornou Campinas alvo dos bombardeios 
do "Vermelhinho", avio que, quando chegava, fazia todo mundo se esconder. Os campineiros de outros tempos que relatem melhor do que eu. Sobre a Revoluo de 32 
eu nada sei pois ainda no havia nascido. S sei por ouvir dizer. E o que me disseram, em Boa Esperana,  que aquela cidadezinha foi centro de operaes blicas 
comandadas pelo Pitiu. O Pitiu era um tipo extico, magro, barba longa, sempre de terno, gravata, chapu e guarda-chuva, ningum conhecia os mistrios da sua vida. 
Pois, ouvidos os boatos de que os soldados paulistas se aproximavam, o Pitiu assumiu a funo de general e, fazendo do posto telefnico o seu quartel general, passou 
a berrar ordens a soldados inexistentes distantes: "Dinamitem as pontes", ele ordenava. O que de fato aconteceu: os soldados inexistentes, com dinamite inexistente, 
dinamitaram as pontes inexistentes, para impedir a chegada dos soldados paulistas inexistentes. Mas, voltando ao livro Tenente Pacfico. Infelizmente os livros de 
histria s contam os grandes acontecimentos. Nada contam das pequenas coisas de que a vida  feita: a mulher doente; o frequentador de velrios; o fazedor de discursos 
exaltados; o manso pastor de almas que sentia interrogaes surgirem sobre a sua f, colocadas por aquele absurdo, o tenente Pacfico, pacfico no nome, pacfico 
no corao, vestido em farda de guerra e tendo de matar, se preciso fosse. Consolava-se tocando Bach ao harmnio. E havia o menino inocente que brincava de guerra 
com os soldadinhos de chumbo e que amava a menina grande, sabida, que lhe oferecia os seios e o agradava naquele lugar endurecido sem que ele soubesse por qu, embora 
gostasse. O Waldo, autor,  o pai da Ana Cristina Csar, poetisa linda e sensvel que cedo nos abandonou. Pois o Waldo, com o carinho e a saudade de pai, colocou 
a Cristina no meio da trama, discretamente. Vez por outra aparecem palavras dela, tiradas de outros lugares. Acho que voc gostaria de ler esse livro. Eu gostei. 
Waldo Csar, Tenente Pacfico - Um romance da Revoluo de 32, Rio de Janeiro, Record, 2002. Pedidos pelo reembolso postal: caixa postal 23.052, Rio de Janeiro, 
20922-970. 

QUARTO DE BADULAQUES 14

Terminando a minha crnica do ltimo domingo eu me referi a Ravel que, ao final da vida, dizia, como um lamento: "Mas h tantas msicas esperando ser escritas!" 
E acrescentei um comentrio meu: "Com certeza o tempo no se detm para esperar que a beleza acontea..." Disse essas palavras para mim mesmo porque naquele Domingo 
eu estaria "desfazendo" mais um ano: 69! Escrevi meu texto no meio da semana. A vida  como a vela: para iluminar  preciso queimar. A vela que ilumina  uma vela 
alegre. A luz  alegre. Mas a vela que ilumina  uma vela que morre.  preciso morrer para iluminar. H uma tristeza na luz da vela. Razo porque ela, a vela, ao 
iluminar, chora. Chora lgrimas quentes que escorrem da sua chama. H velas felizes cuja chama s se apaga quando toda a cera foi derretida. Mas h velas cuja chama 
 subitamente apagada por um golpe de vento... Como poderia eu imaginar que naquele dia preciso um golpe forte de vento iria apagar a chama do Dr. Escudero? Ele 
tinha um rosto de criana... Mdico de projeo mundial, foi um dos primeiros a usar o lazer nas cirurgias de ouvido. O ouvido, o mais fascinante de todos os rgos 
dos sentidos, era um dos mundos por onde ele andava com desembarao. Desembarao e competncia. Competncia e seriedade. Seriedade e bondade. Mas ele andava tambm 
por um outro mundo que no o do ouvido: o mundo dos olhos. Era pintor. Pintava quadros lindos! Quem visse os quadros que o Dr. Escudero pintava ficava tranquilo. 
Ele era um pintor de tranquilidades. Lembro-me de um quadro que vi no seu consultrio: um caminho por entre campos e rvores. E ele me disse: "Caminho da peregrinao 
a Santiago de Compostela." Era um amigo. Por isso vou deixar o "doutor" de lado: Escudero, simplesmente Escudero. Vez por outra aparecia no grupo de poesia "Canoeiros" 
que se rene comigo s 3as feiras para ler poesia, tomar sopa com po e vinho. Se o Escudero soubesse ele teria dito, como Ravel: "Mas h tantos quadros esperando 
ser pintados...!" 
 

Mais que a minha prpria morte e a morte das pessoas que amo, o que me di  a possibilidade da morte prematura da nossa terra. Porque  certo que ela vai morrer. 
Tudo o que nasce, morre. O trgico ser se ela morrer antes da hora, assassinada por ns mesmos, os seus filhos. Escrevi uma srie de crnicas para as minhas netas, 
contando como era a minha vida de menino, na roa. A crnica de domingo passado foi a ltima. Escrevi para as minhas netas: av contando estrias... Mas o divertido 
foi que aqueles que mais gostaram foram os velhos. Eles sabiam aquilo sobre que eu estava falando. Existe sempre a fantasia de que, num momento do futuro, ser possvel 
criar uma mquina que nos permitir viajar atravs do tempo, da mesma forma como existem mquinas que nos permitem viajar atravs do espao: bicicletas, carros, 
navios, avies... Mas acontece que a dita mquina do tempo j existe. S que ela no  feita com plstico e metais e nem  movida a gasolina. A mquina do tempo 
 feita com palavras. E ela se chama "literatura". A palavra nos transporta atravs do tempo: ela nos faz viajar por mundos que no mais existem. E a prova de que 
estamos viajando pelo passado est em que "reconhecemos" os lugares por onde passamos e sentimos as mesmas emoes que sentamos quando estvamos vivendo neles no 
presente. Agora estou preparando minha mquina do tempo para uma outra viagem. Entrei no livro O universo: seu incio e seu fim (Lloyd Motz, The universe: its beginning 
and end, New York, Charles Scribner's Sons, 1975) e comecei viajar pelo tempo. O livro me levou para 15 bilhes de anos atrs. A temperatura era da ordem de um bilho 
de graus. Foi ento que aconteceu a grande exploso, o Big Bang, com a qual o universo se iniciou. E pensando sobre esse evento fantstico enquanto caminhava -  
preciso cuidar do corao - meus pensamentos foram interrompidos pelas sibipirunas floridas, o amarelo contra o verde das folhas e o azul do cu... E me assombrei 
de que coisas to lindas e mansas tivessem nascido de uma exploso h 15 bilhes de anos... Do caos nasceram ordem, vida e beleza, da mesma forma como uma bolha 
de sabo sai, perfeita, do canudinho que o menino sopra... A fiquei com medo que a bolha estourasse antes da hora. Porque  isso, precisamente, que essa coisa a 
que damos o nome de progresso est fazendo. Todos os candidatos a presidente, todos, indistintamente, de direita e de esquerda, prometem "progresso". Mas nenhum 
deles promete preservar a natureza. Qualquer menino sabe que a bolha de sabo  frgil. No pode crescer sempre. Se crescer alm do limite ela estoura. E nossa terra 
 precisamente uma bolha frgil que navega pelos espaos vazios, bolha onde apareceram, miraculosamente, as condies para que a vida viesse a existir. Mas, se essas 
condies desaparecerem, a vida deixar de existir. Muitas crticas justas j se fizeram ao capitalismo, de um ponto de vista tico, em virtude de sua tendncia 
de produzir pobreza e concentrar riqueza. Mas raramente se fala sobre o capitalismo como um sistema autodestrutivo que, para existir e gozar sade, tem de estar 
num processo de crescimento constante: mais empregos, mais trabalho, mais devastao da natureza, mais monxido de carbono no ar, mais lixo - seis bilhes de quilos 
de lixo por dia! - mais explorao dos recursos naturais, mais florestas cortadas, mais poluio dos mananciais... At quando a frgil bolha suportar? Assim, em 
celebrao ao incio da Primavera eu desejo oferecer a vocs a orao abaixo, que  a mais bela oraes pelo nosso mundo que conheo. Seria bonito se as escolas, 
as empresas, as fbricas, as igrejas celebrassem o incio da Primavera com a leitura dessa orao: 
 
POR ESTE MUNDO
 Deus, ns te damos graas por este universo, nosso lar; pela sua vastido e riqueza, pela exuberncia da vida que o enche e da qual somos parte. Ns te louvamos 
pela abbada celeste e pelos ventos, grvidos de bnos, pelas nuvens que navegam e as constelaes, l no alto.
Ns te louvamos pelos oceanos, pelas correntes frescas, pelas montanhas que no se acabam, pelas rvores, pelo capim sob os nossos ps. Ns te louvamos pelos nossos 
sentidos: poder ver o esplendor da manh, ouvir as canes dos namorados, sentir o hlito bom das flores da primavera.
D-nos, rogamos-te, um corao aberto a toda esta alegria e a toda esta beleza, e livra as nossas almas da cegueira que vem da preocupao com as coisas da vida 
e das sombras das paixes, a ponto de passar sem ver e sem ouvir at mesmo quando a sara, ao lado do caminho, se incendeia com a glria de Deus. Alarga em ns o 
senso de comunho com todas as coisas vivas, nossas irms, a quem deste esta terra por lar, juntamente conosco.
Lembramo-nos, com vergonha, de que no passado nos aproveitamos do nosso maior domnio e dele fizemos uso com crueldade sem limites, tanto assim que a voz da terra, 
que deveria ter subido a ti numa cano, tornou-se um gemido de dor.
Que aprendamos que as coisas vivas no vivem s para ns; que elas vivem para si mesmas e para ti, que elas amam a doura da vida tanto quanto ns, e te servem, 
no seu lugar, melhor que ns no nosso.
Quando chegar o nosso fim, e no mais pudermos fazer uso deste mundo, e tivermos de dar nosso lugar a outros, que no deixemos coisa alguma destruda pela nossa 
ambio ou deformada pela nossa ignorncia. Mas que passemos adiante nossa herana comum mais bela e mais doce, sem que lhe tenha sido tirado nada da sua fertilidade 
e alegria, e assim nossos corpos possam retornar em paz para o ventre da grande me que os nutriu e os nossos espritos possam gozar da vida perfeita em ti.
(Oraes por um mundo melhor, Walter Rauschenbusch, PAULUS, 1997)

QUARTO DE BADULAQUES 15
Sobre casamentos e cavalos: Tive uma companheira de olhos azuis tristes que, por muitos anos, esteve silenciosamente presente em minhas sesses de anlise. Ela se 
chamava Angel. Era uma cadela Weimaraner. Jamais fez qualquer gesto hostil, jamais rosnou. Era como se no estivesse l, deitada, cabea apoiada entre as pernas. 
E eu tive um paciente que tinha um sentimento de desprezo em relao ao seu pai que, segundo julgamento seu, no passara de um pedreiro de segunda classe. Pois, 
numa bela manh, ao entrar na sala, ele se deparou com a Angel deitada, que o olhava com seus olhos azuis. Ele se deitou no div e disse: "No gosto de cachorros. 
No gosto de gatos. No gosto de animais." A ele fez uma pausa, como se uma nova idia tivesse entrado na sua mente, e se corrigiu: "No, eu gosto de cavalos." 
E continuou: "Me contaram  eu no vi  que meu pai foi o maior domador de cavalos que jamais existiu." A a sua fantasia voou solta e ele comeou a falar sobre o 
seu pai  o pedreiro de segunda classe era agora um heri! - cavalgando cavalos selvagens e triunfando sobre eles. Parou e meditou num sussuro: " assim. Os cavalos 
selvagens so domados. Transformam-se em cavalos mansos, bons para serem montados." Pausa. "Acho que o casamento  assim. A gente  cavalo selvagem, indomvel. At 
o momento em que se apaixona por uma mulher. Fica manso de repente, vai at ela e lhe diz: Pode me montar... Ela aceita o convite, pe arreio, freio, rabicho, 
aperta a barrigueira, cala esporas e monta. E a gente vai marchando de mansinho, obediente s ordens,  rdea,  espora... Quando ela quer ela apeia, amarra o cabresto 
num poste, e a gente fica l, paciente, trocando pernas, abanando as moscas com o rabo, esperando. Ele no vai nos abandonar nunca porque um cavalo manso marchador 
 coisa que no se joga fora. Vai cavalgar com o corpo. Mas a sua alma estar sempre voando a galope no cavalo selvagem..."
Sobre a criana na velhice: Um amigo que est sofrendo a tristeza de ir ficando velho me escreveu e me fez essa pergunta: "O que fazer para permanecer jovem? O que 
fazer para, na velhice, continuar a ter o desejo de viver?" Acho que essa  pergunta mais dolorosa.
Sobre crianas e velhos: Albert Camus (pronuncia-se cam) diz que em Atenas havia um templo dedicado  velhice. A esse templo os pais levavam os seus filhos...
Sobre o sexo na velhice: Na adolescncia e juventude o sexo  um vulco incontrolvel em constante erupo, sem precisar que alguma causa exterior o provoque. Ele 
explode porque explode, porque no consegue segurar o fogo que lhe queima as entranhas. A, num orgasmo de fogo e cinza ele ejacula lava incandescente que escorre 
e vai na direo do mar, na esperana de que a gua fria o acalme. Assim  o sexo na adolescncia e na juventude: o que os homens querem  que as mulheres esfriem 
o seu fogo. A funo das mulheres  apagar o fogo. A o tempo passa. Vem a maturidade, vem a velhice. O vulco fica tranquilo. At parece que ficou inativo. Ficou 
no.  que os fogos dos vulces velhos so fogos diferentes. Parecem-se mais com os fogos de artifcio. Os foguetes: quietos, frios, sem cor, inertes. Mas o seu 
fogo no acabou. Est  espera de algum que o acenda. Aceso por algum, o foguete sobe falicamente numa ereco vertical na direo do cu, para explodir em milhes 
de estrelinhas coloridas. Na maturidade e na velhice o sexo dos homens est  espera de algum que o acenda. E se, na juventude, a mulher apagava o fogo, na maturidade 
e na velhice ela tem o poder  se quiser  de acender o fogo. Claro, para que a mulher acenda o fogo  preciso que ela ame as estrelinhas coloridas...
Sobre a solido na velhice: Na Europa, nos prdios velhos, era comum que os canos de gua passassem a descoberto por dentro dos apartamentos. E, naquele tempo, no 
havia canos de pvc. Eram todos canos de ferro. A Tomiko, que estuda as coisas do ficar velho, me contou a linda estria do jardineiro japons e da Frulein, que 
eu transformei numa crnica. Faz algum tempo ela me contou outra estria. Duas velhinhas amigas moravam num mesmo prdio. O apartamento de uma ficava bem em cima 
do apartamento da outra. Ao lado de suas camas passava, na vertical, um cano de ferro. Elas tinham um acordo. Todas as manhs aquela que acordasse primeiro bateria 
no cano de ferro e a outra responderia. Faziam isso porque tinham medo de morrer  e que ningum descobrisse. Assim, quando a outra respondia s batidas da primeira 
elas sabiam que as duas continuavam vivas. A estria da Tomiko termina aqui. Mas eu imagino que deve ter havido um dia em que a velhinha bateu no cano e no houve 
resposta. Bateu mais uma vez, e outra e mais outra  e era s o silncio... 
Rubem Alves




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Silvana Poll

Rubem Alves

Silvana Poll
